Do terraço às fontes

A minha Paixão pelo Yoga não nasceu de um plano estratégico nem de uma tendência de mercado. Nasceu de uma circunstância muito menos romântica: uma prescrição médica. Em 2011, na Índia, o meu médico de família, o Dr. Sutharia, foi direto ao assunto. Duas hérnias discais, torta, com dores constantes e uma recomendação clara, sem…

© 2008 Vitoria Matos - As mulheres que dão vida a Dhanraj Park, Vasai (West), Maharashtra, Índia

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A minha Paixão pelo Yoga não nasceu de um plano estratégico nem de uma tendência de mercado. Nasceu de uma circunstância muito menos romântica: uma prescrição médica.

Em 2011, na Índia, o meu médico de família, o Dr. Sutharia, foi direto ao assunto. Duas hérnias discais, torta, com dores constantes e uma recomendação clara, sem rodeios nem linguagem espiritual: “tem de praticar Yoga”. Não houve promessa de transformação interior, nem discurso sobre cakras, nāḍī  ou iluminação. Houve apenas a constatação de que o corpo precisava de movimento, disciplina e atenção.

E foi assim que tudo começou.

O terraço, as vizinhas e o Yoga sem ornamentos

A minha prática inicial não aconteceu em estúdios sofisticados, nem em retiros silenciosos. Aconteceu no terraço do meu prédio em Dhanraj Park, Dhanshree Bldg, onde vivia em Vasai (West), às 4h30 da manhã com as minhas vizinhas. Mulheres comuns, com rotinas exigentes, responsabilidades familiares e corpos cansados, para quem o dia começava cedo.

Não havia tapetes de Yoga. Havia toalhas de banho estendidas no chão, usadas com a naturalidade de quem resolve com o que tem. Vestíamos kurtas, sarees, roupa do quotidiano, sem logos famosos. O Yoga não era apresentado como identidade, nem como estética; era apenas algo que se praticava.

Nenhuma de nós se apresentou como “praticante espiritual”. Não se falava de deuses, energias ou intenções. Não se cantavam mantras nem se explicavam conceitos. Havia respiração, repetição e atenção suficiente para que o corpo, pouco a pouco, encontrasse alguma estabilidade. E isso bastava.

Sem o saber, aquela prática simples já continha algo essencial daquilo que, mais tarde, viria a reconhecer como Saṃsāra: a experiência concreta de ciclos, de repetição, de continuidade sem garantias. Não havia promessa de chegada — apenas a necessidade de recomeçar todos os dias.

O regresso à Europa e o estranhamento

Quando regressei à Europa, trazia comigo oito anos de vida em Maharáshtra com muitas cores, muitas gargalhadas, imagens dos atentados de 26 de Novembro de 2008 em primeira mão, saúdades do meu Algarve, de pasteis de nata e uma relação bastante simples com o Yoga. Por isso, o contraste foi inevitável.

Encontrei aulas onde se cantavam mantras sem explicação, onde se colocavam “intenções” no início da prática, onde se evocavam conceitos e divindades hindus perante pessoas que, legitimamente, não sabiam o que estavam a repetir. O mais curioso não era a presença desses elementos — era a ausência de perguntas. Presumia-se que tudo aquilo fazia parte do pacote. Que era “normal”.

Mas normal em que contexto?
Normal para quem?
E com que base?

Aquilo que eu tinha vivido como uma prática concreta, situada e despojada surgia agora revestido de uma espiritualidade genérica, frequentemente desligada das suas origens textuais, históricas e culturais. O Yoga aparecia menos como prática informada e mais como produto cuidadosamente encenado, apresentado como caminho de salvação rápida num mundo que raramente tolera processos longos.

Entre a vida real e o estudo

Entretanto, a vida seguia o seu curso. Mãe solteira, a trabalhar, a praticar quando era possível — muitas vezes à noite, muitas vezes aos fins de semana. O Yoga foi, progressivamente, deixando de ser apenas uma prática pessoal para se tornar também objeto de estudo e de interrogação.

As perguntas acumulavam-se: de onde vêm estas ideias? Quando surgiram? São antigas ou recentes? Tradicionais ou adaptações modernas? Nem sempre as respostas eram simples — e isso, longe de constituir um obstáculo, tornou-se um verdadeiro motor de investigação.

De regresso a Portugal em 2018, comecei a procurar formadores e professores de Yoga que me pudessem orientar num percurso sério de assimilação e aprofundamento do conhecimento. Esse processo revelou-se exigente e, em muitos casos, pouco linear. A diversidade de propostas formativas existentes — num campo ainda em consolidação a nível de regulamento e reconhecimento da profissão pelo governo português — tornou evidente a importância de critérios pedagógicos claros, de enquadramento teórico consistente e de uma transmissão responsável do conhecimento. Esta experiência foi fundamental para clarificar o tipo de formação que procurava e para reconhecer o valor de uma orientação continuada, eticamente consciente e metodologicamente estruturada. Foi neste contexto de procura e discernimento que encontrei uma pessoa que viria a assumir, durante alguns anos, um papel central enquanto mentor no meu percurso formativo.

Pos-Graduação, Universidade Lusófona, Lisboa 2019

O meu primeiro curso oficial de Yoga foi realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, experiência que marcou uma mudança clara na forma como passei a articular prática e reflexão teórica. Mais tarde, segui esse mentor para uma Pós-Graduação em Yoga, com a duração de dois anos, na Universidade Lusófona.

O primeiro ano desta formação foi particularmente marcante, não apenas pelo aparecimento do COVID alguns meses depois do seu inicio e termos entrado em confinamentos pouco depois. Mas também representou uma verdadeira ampliação do meu horizonte de estudo e de prática: aprofundamento da anatomia aplicada ao Yoga, contacto estruturado com o sânscrito, leitura e análise de textos fundamentais, e uma relação com a prática de āsana substancialmente mais consciente e fundamentada. Muitas das dúvidas que trazia — tanto ao nível da prática postural como da compreensão teórica — começaram, finalmente, a encontrar um enquadramento mais claro e consistente.
O segundo ano revelou-se, no entanto, diferente do esperado. A estrutura recuperava em grande medida conteúdos já abordados no primeiro ano, e algumas opções pedagógicas deixaram de corresponder ao nível de aprofundamento que procurava naquele momento. Professores convidados que não sabiam cativar ou transmitir a matéria em questão. Podiam possuir uma licenciatura como professores ou em outras áreas, mas no meu ponto de vista não tinham o seu lugar nesta Pos-Graduação. Foi uma das maiores lições que aprendi, quem nem todos os títulos académicos sao sinónimos de conhecimento. Acresce que decorria ainda o período da pandemia, com a maioria das aulas — teóricas e práticas — a serem lecionadas por videoconferência, apesar de manterem o enquadramento e o custo de um regime presencial. Perante esse desajuste, optei por interromper a formação, apenas dois meses antes da sua conclusão. Não por rejeição do percurso em si, mas por sentir que aquele formato já não acompanhava a direção que o meu estudo entretanto tinha assumido.

Longe de constituir um impasse, este percurso levou-me a aprofundar o contacto com autores académicos de referência internacional, a desenvolver uma leitura mais rigorosa das fontes textuais e a encontrar praticantes que se tornaram próximos — pessoas com quem partilho uma visão do Yoga mais informada, crítica e despojada de excessos. Foi também nesse processo que me apercebi de que existia, em formato digital e no meio académico internacional, mais informação verificável do que aquela a que conseguia aceder presencialmente em língua portuguesa. Essa constatação não deixou de me causar algum desalento.

Anatomia, Historia e Sânscrito. Universidade Lusófona, Lisboa – 2020

Porque um centro de estudo online

O recurso ao estudo de yoga em formato online não surge por mera conveniência tecnológica, mas por uma necessidade real. Em Portugal, a oferta de ensino verdadeiramente rigoroso e fundamentado — sobretudo em língua portuguesa — continua a ser limitada. Uma parte significativa dos conteúdos disponíveis apresenta-se excessivamente simplificada, embelezada ou adaptada, seja por lacunas na formação de quem ensina, seja por uma tendência crescente de misturar o yoga com práticas e discursos que não lhe são intrínsecos.

Referências a espiritualidades genéricas, apropriações difusas de “culturas orientais” ou a introdução de elementos simbólicos fora do seu contexto original tornaram-se frequentes. Muitas vezes, estes elementos não são apresentados como objeto de estudo crítico, mas como ornamento — como se a acumulação de símbolos e rituais pudesse, por si só, conferir profundidade ou autenticidade à prática. Uma exemplo flagrante é a meditação Vipassanā. Omnipresente em retiros yoguícos de norte a sul. Estatuas do Buda sentado em meditação, colunas de pedras equilibradas, taças tibetana. As pessoas até gostam, mas poucas sabem que fazem parte do universo budista, filosofia diferente do Hatha Yoga. É como os pasteis de nata ou as bolas de Berlim com chocolate do Dubai, são saborosos mas não fazem parte da nossa cultura.

Cria-se, assim, uma espécie de encenação: ambientes cuidadosamente construídos para sugerir um espaço sagrado com imagens de Buda, mandalas pintadas nas paredes, mas raramente acompanhados de explicação ou enquadramento. No entanto, em muitos contextos tradicionais na Índia, o yoga não se manifesta dessa forma estetizada. Surge, frequentemente, em espaços simples, por vezes informais, onde a prática não depende de cenário, mas de transmissão, contexto e continuidade.

É neste desfasamento — entre a prática vivida, a sua representação contemporânea e a escassez de ensino rigoroso acessível — que o estudo online ganha relevância no contexto português.

Quando bem estruturado, pode permitir o acesso a fontes mais fidedignas, a docentes qualificados e a conteúdos que dificilmente estariam disponíveis localmente, contribuindo para um aprofundamento mais crítico e informado desta tradição.

A paixão pelo ensino do Haṭha Yoga nasce, assim, desta caminhada:
da prática simples num terraço em Vasai, Maharáshtra, Índia,
do estranhamento ao regressar à Europa,
do estudo feito em horários improváveis,
dos encontros com pessoas e autores certos,
da constatação de que, demasiadas vezes, o Yoga é avaliado mais pelo preço da aula do que pela veracidade do conteúdo.

Não nasceu para prometer curas nem despertares.
Não nasceu para competir com estúdios ou outros formadores. 

Nasceu porque o yoga em si, é lindo e maravilhoso. Especialmente quando o conhecimento assente em investigação académica, fontes primárias e pensamento crítico, num contexto em que esse tipo de abordagem em Portugal continua a ser pouco frequente.

Estas são apenas as primeiras pedras. Não são conclusões finais.


O caminho continua — devagar, como sempre foi.

Vic

Praia da Vau – Portimão. 2020

Vic

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