
Há algo que precisamos de conversar — com honestidade, mas sem moralismos.
Nos últimos anos, a prática do Yoga tornou-se cada vez mais visual. Basta abrir qualquer rede social: corpos jovens, leggings justíssimas, cenários perfeitos, poses quase acrobáticas. A aula transforma-se facilmente num palco. O tapete, num cenário. O corpo, numa imagem.
E, no meio disso tudo, surge uma pergunta desconfortável:
Onde ficou a prática?
O olhar mudou — e isso muda tudo
Não é sobre o que cada pessoa veste. A liberdade individual não está em causa.
O que merece reflexão é o ambiente que se cria quando a estética passa a dominar. Quando a aula começa a ser, para os mirones, o “melhor lugar” para babar-se com malta jovem. Quando certas escolhas de vestuário parecem mais pensadas para chamar a atenção ou a lente do telemóvel, do que para a estabilidade da postura. Quando o foco subtilmente desliza da experiência interna para o olhar externo.
O Yoga sempre trabalhou com o corpo. Mas trabalhar o corpo não é o mesmo que expô-lo como objeto de validação.
Há uma diferença entre presença e exibição.
E a inclusão de que tanto falamos?
Vivemos numa época que proclama inclusão. Mas basta observar a publicidade:
Raramente vemos corpos obesos.
Raramente vemos pessoas idosas.
Quase nunca vemos alguém com limitações motoras ou cognitivas.
O que se vê — repetidamente — é um padrão.
E padrões criam mensagens silenciosas:
“Este é o corpo do Yoga.”
“Se não te pareces com isto, talvez este espaço não seja para ti.”
Mas quem estudou minimamente os textos clássicos sabe que não há, neles, qualquer exigência estética. O Yoga não começou como concurso de flexibilidade nem como desfile de marcas.
O problema não é o corpo saudável.
O problema é a exclusão invisível que se instala quando só um tipo de corpo é celebrado.
A aula como palco do ego
Há algo de paradoxal aqui.
Fala-se tanto em dissolução do ego — e, no entanto, a prática contemporânea pode alimentar comparação, competição silenciosa e necessidade de validação.
Quando a aula se centra em sequências para o Tik Tok, quando a exigência física se transforma em demonstração, muitos sentem que aquele espaço não lhes pertence.
Já aconteceu pessoas virem a uma aula experimental vestidas para impressionar ou executar āsana avançadas. Perceberem que ali não encontrariam o público desejado para alimentar a própria imagem — e não regressarem.
Isso não é um juízo sobre elas. É um sintoma de uma cultura mais ampla.
E aqui entra a responsabilidade dos instrutores/professores/mentores/Gurus (seja qual for o título usado).
O que estamos realmente a ensinar?
Desde a primeira aula, estamos a transmitir valores — mesmo quando não os nomeamos.
Se nunca falamos de fundamentos éticos,
se nunca contextualizamos historicamente a prática,
se nunca explicamos que o Yoga não nasceu como ginástica estética,
então estamos, mesmo sem intenção, a reforçar a superfície.
Não se trata de rejeitar prática física intensa. Nem de condenar roupa justa. Nem de negar que o corpo possa ser belo.
Trata-se de perguntar:
Estamos a aprofundar ou estamos apenas a mostrar?
Talvez seja tempo de reforçar o ensino de Yama e Niyama
Menos biquinis em acrobacias impossíveis.
Menos competição silenciosa.
Menos obsessão com marcas.
Mais diálogo durante a aula.
Mais explicação.
Mais consciência.
Mais espaço para corpos reais — todos os corpos.
O Yoga pode ser contemporâneo sem ser espetáculo.
Pode ser fisicamente exigente sem ser exibicionista.
Pode ser esteticamente cuidado sem perder profundidade.
A prática não precisa de ser pobre em forma.
Mas não pode ser vazia de conteúdo.
E talvez, aqui em Portugal, onde ainda estamos a construir a cultura do Yoga, tenhamos uma oportunidade rara:
não repetir automaticamente os excessos que vemos lá fora.
Talvez possamos escolher um caminho mais consciente.
Mais discreto.
Mais sólido.
Mais verdadeiro.
Vic.
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