
O sânscrito, idioma sagrado da tradição do yoga, é originalmente escrito no alfabeto devanāgarī (देवनागरी), um sistema silábico fonético e preciso, mas muito diferente do alfabeto latino usado em línguas como o português. Para tornar os termos acessíveis a leitores ocidentais sem comprometer sua pronúncia correta, foi desenvolvido um sistema de transliteração científica.
Esse sistema, conhecido como IAST (International Alphabet of Sanskrit Transliteration), surgiu no século XIX, num contexto de crescente interesse europeu pelos textos védicos e filosóficos da Índia. Filólogos, orientalistas e linguistas da época procuraram representar com precisão os sons do sânscrito usando os caracteres do alfabeto romano.
Para isso, passaram a usar diacríticos (pequenos sinais gráficos como pontos e traços) para representar sons que não existem nas línguas ocidentais. Assim, a transliteração científica permite ler com exatidão fonética as palavras sânscritas, mesmo sem conhecer o devanāgarī.
Exemplos:
– Ā (com traço) indica uma vogal longa: a (curto) como em “casa”, ā (longo) como em “pátria”.
– Ṭ, Ḍ, Ṇ, Ṣ (com ponto abaixo) representam consoantes retroflexas, pronunciadas com a língua enrolada para trás.
– Ś e Ṣ indicam dois sons diferentes de “sh”: śiva como em “chave” e puruṣa (a língua curva-se ligeiramente para trás no palato).
– Ṛ representa uma vogal “r” vibrante, como em “Portugal”.
Esse cuidado com a pronúncia preserva a sonoridade sagrada dos mantras, a clareza conceitual dos textos filosóficos e o respeito pela oralidade tradicional da cultura indiana.

Nota sobre a grafia “Yoga” e não “Ioga/Iôga”
Na Saṃsāra, optamos por manter a grafia “Yoga” com “y”, tal como aparece na transliteração internacional e na escrita original em sânscrito (योग).
Embora o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 recomende a adaptação de palavras estrangeiras para formas aportuguesadas — neste caso, transformando “yoga” em “ioga” —, essa norma não leva em consideração a profunda ligação cultural, fonética e espiritual que o termo original carrega.
A palavra yoga vem da raiz sânscrita yuj, que significa “unir” ou “integrar”. Sua pronúncia tradicional não corresponde ao som do “i” português, e o “y” transliterado tem o valor de uma consoante palatal. Alterar sua grafia para “ioga” pode gerar confusão fonética e distanciamento da sua etimologia e contexto espiritual.
Ao preservar a forma original “Yoga”, mantemos uma conexão respeitosa com a tradição milenar da Índia, com a literatura clássica e com os sistemas internacionais de estudo e prática do yoga.
Assim, “Yoga” não é apenas uma palavra — é um símbolo de uma linhagem viva, profunda e sagrada.
© Vitoria Matos