Quando o médico recomenda Yoga — mas ninguém regula quem o ensina

Há um paradoxo que me acompanha há anos. Muitos dos meus alunos chegam até mim porque alguém lhes disse: “Experimenta Yoga.”Às vezes foi o médico. Outras vezes a amiga A maioria das pessoas que me procura tem mais de quarenta anos. Não vêm à procura de iluminação espiritual nem de experiências identitárias. Vêm com dores…

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Há um paradoxo que me acompanha há anos.

Muitos dos meus alunos chegam até mim porque alguém lhes disse: “Experimenta Yoga.”
Às vezes foi o médico. Outras vezes a amiga

A maioria das pessoas que me procura tem mais de quarenta anos. Não vêm à procura de iluminação espiritual nem de experiências identitárias. Vêm com dores lombares, rigidez cervical, joelhos frágeis, ansiedade acumulada. Vêm porque o corpo começou a dar sinais claros de desgaste.

Chegam com roupa simples — leggings confortáveis, t-shirts largas — escolhida pela funcionalidade e não pela estética. Não estão ali para se mostrar, nem para transformar a aula num palco. O foco não é o visual, nem a marca do tapete, nem a fotografia perfeita. O foco é recuperar mobilidade, aliviar desconforto, voltar a sentir estabilidade e dignidade no próprio corpo.

Esta realidade contrasta fortemente com a imagem dominante do Yoga nas redes sociais. O que frequentemente circula são vídeos de corpos jovens, extremamente flexíveis, em posturas complexas, por vezes mais próximas da ginástica acrobática do que de uma prática de regulação física e mental. A estetização do gesto tornou-se central. A prática é frequentemente apresentada como espetáculo visual.

Em muitos desses casos, o que se observa parece menos um caminho de integração e mais um exercício de elevação do ego — medido em visualizações, validação externa e comparação permanente. E aqui surge uma contradição profunda: nas suas matrizes filosóficas clássicas, o Yoga propõe precisamente o contrário. Propõe a atenuação das identificações egóicas, a redução da agitação mental, a descontração do “eu” enquanto centro performativo.

Não se trata de condenar juventude, capacidade física ou expressão corporal. Trata-se de reconhecer que a lógica da exibição pode colidir com a direção interior que o Yoga, enquanto tradição intelectual e prática, historicamente aponta.

Enquanto esta transformação cultural acontece, outra questão permanece menos visível.

A medicina contemporânea reconhece — com prudência e reservas metodológicas — que a prática de Yoga pode trazer benefícios complementares em situações como dor lombar crónica, ansiedade ou depressão leve a moderada. A investigação aponta nessa direção, ainda que com limitações claras: diversidade de abordagens, formações muito distintas dos instrutores envolvidos nos estudos, dificuldade de padronização.

Mas enquanto médicos recomendam Yoga, o ensino de Yoga em Portugal não é profissão regulamentada.

Não existe estatuto profissional específico.
Não existem critérios mínimos definidos por lei.
Não existe registo público obrigatório.

Qualquer pessoa pode anunciar-se como professor(a) de Yoga.

No meu caso, trabalho sobretudo com adultos e seniores. Dou também aulas em centros de dia, em regime de voluntariado, utilizando cadeira como apoio para melhorar mobilidade e equilíbrio. Nessas aulas, a prioridade é segurança, adaptação e cuidado. Não há performance. Há responsabilidade.

Recordo um episódio que me marcou. Numa aula num centro de dia, uma senhora estrangeira assistiu à sessão e, no final, mostrou-se indignada porque não tínhamos entoado “Om” nem feito Anjali Mudra para agradecer à “Deusa”. Para ela, aquilo não era “verdadeiro Yoga”.

Fiquei a pensar.

Estávamos a trabalhar mobilidade articular com homens idosos, alguns com limitações significativas. O objetivo era melhorar qualidade de vida. E a crítica foi a ausência de um gesto simbólico.

Esse momento tornou clara uma tensão contemporânea: confundimos frequentemente autenticidade com ritual visível. Reduzimos tradição a marca externa. E esquecemos que o essencial do ensino pode residir na adaptação sensível ao contexto humano concreto.

Há ainda um aspecto raramente discutido: a responsabilidade jurídica. A ausência de regulamentação profissional cria zonas cinzentas na contratação de seguros de responsabilidade civil. A atividade é frequentemente classificada genericamente como “atividade física” ou “bem-estar”. Mas quando se trabalha com pessoas vulneráveis, essa ambiguidade deixa de ser teórica.

Entretanto, o mercado cresce. Aulas particulares podem atingir valores elevados. Mas preço não equivale necessariamente a qualificação. O mercado não substitui critérios mínimos.

Várias entidades e particulares já solicitaram debate parlamentar sobre a regulamentação da profissão. Até ao momento, não existe legislação específica aprovada que estabeleça requisitos profissionais claros.

E assim permanecemos neste cenário curioso: o Yoga é recomendado em contexto de saúde, mas o Estado não define quem está preparado para o ensinar.

Não se trata de burocratizar o Yoga nem de o homogeneizar. Trata-se de coerência. Se há reconhecimento implícito de valor terapêutico, deveria haver exigência mínima de competência.

Quando alguém com dor, fragilidade ou ansiedade entra numa sala porque um médico recomendou Yoga, a pergunta é simples:

Quem garante que está em mãos preparadas?

Enquanto essa pergunta não tiver resposta institucional clara, o paradoxo continua.

E talvez esteja na hora de o enfrentar com maturidade.

Vic

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