Uma jornada espiritual onde o verdadeiro guru… é o algoritmo.

Há dois tipos de pessoas no mundo do yoga: as que dizem que não ligam a métricas… e as que mentem. Eu, como praticante honesta do karma digital, abro as estatísticas com a mesma reverência de quem abre um texto de Patañjali — só que com muito mais ansiedade e, curiosamente, muito menos iluminação.
Porque na minha cabeça, o post mais popular ia ser aquele onde explico, com rigor quase científico, como alinhar o corpo em Sírshásana ou como o prāṇāyāma, me levou a uma viagem transcendental sem sair do tapete.
Mas não.
Nem perto.
O post mais visto foi aquele onde Sting aparece, assim meio perdido entre espiritualidade e lenda urbana, como embaixador involuntário do Tantra.
Tradução académica: sexo.
Tradução do algoritmo: FINALMENTE, CONTEÚDO DECENTE.
De repente, percebi que o algoritmo não quer saber da minha evolução espiritual. Ele não quer iluminação, quer cliques. Não quer consciência, quer retenção. Não quer vairāgya… quer “vai-ral”.LOL
E sejamos claros: se houver uma escolha entre um texto profundo sobre respiração consciente e uma foto de alguém em fio dental a fazer um āsana duvidoso… a humanidade já decidiu. E decidiu rápido.
Aliás, se Patañjali tivesse Instagram hoje, provavelmente teria três seguidores, dois deles bots e um seria a mãe dele.
E não é só o yoga.
Mas no yoga é especialmente delicioso (no sentido irónico da palavra). Porque estamos a falar de uma prática que, teoricamente, convida ao desapego… a competir diretamente com thumbnails dignas de capa de revista.
É como levar um monge para uma discoteca e pedir-lhe para ganhar ao DJ. Ele até tenta, mas ninguém está ali pela contemplação.
E depois há o Tantra.
Ah, o Tantra…
Esse conceito complexo, historicamente debatido, academicamente denso… reduzido nas redes a: “sexo, mas espiritual, portanto está tudo bem”.
A literatura académica até tenta explicar que não é bem assim, que há múltiplas tradições, contextos rituais, interpretações divergentes…
Mas o algoritmo interrompe:
“Sim, sim, muito interessante… mas tem ou não tem conteúdo sugestivo?”
E quando entra Sting na conversa, acabou. Já não é filosofia, é marketing. Já não é tradição, é tráfego.
A parte mais perigosa disto tudo? Não é o sexo vender.
Isso já sabíamos desde, sei lá, o início da civilização.
A parte perigosa é perceber o quanto nós próprios começamos a adaptar-nos. Um ajuste aqui, uma legenda mais provocadora ali, uma foto “inocente” com ângulo estratégico…
De repente, estás a justificar ao teu próprio ego:
“Isto não é para likes… é para alcançar mais pessoas.”
Claro. E eu faço prāṇāyāma só pelo ar.
No fim, resta-nos uma conclusão profundamente espiritual:
O pino perfeito não vende.
O prāṇāyāma não viraliza.
Mas uma pitada de escândalo, uma sugestão de sexo e uma celebridade à mistura?
Iluminação instantânea. Pelo menos… do ecrã.
E talvez a verdadeira prática moderna não seja meditar numa caverna, mas sim publicar conteúdo consciente num mundo que prefere distração.
Ou, numa versão mais honesta:
Namasté… mas vê lá se isso dá engagement.
Vic
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