Como carisma e tradição podem mascarar manipulação, e por que o yoga moderno precisa de olhos bem abertos

A mini-série Twisted Yoga apresentada pela Apple TV+, composta por três episódios, começa com algo banal: alguém procura aulas de yoga em Londres. Mas depressa, este ato se transforma num cenário perturbador: a protagonista é atraída para o círculo de um mestre espiritual romeno, procurado pela INTERPOL, e acaba por questionar a sua própria liberdade — ou, para ser mais direto, vê-se envolvida nos tentáculos de uma rede altamente organizada de “self-pleasure” de um guru da Europa de Leste, da qual consegue escapar antes que a situação se transforme num drama real, como aconteceu a centenas de outras yoguinis.
Este tema já foi abordado anteriormente noutro artigo do blog da Saṃsāra, e continua tão relevante quanto delicado. Apesar de ser um pouco tabu no universo do yoga, é fundamental continuar a falar sobre estas situações. Curiosamente, cada vez que o tema é levantado, inúmeras alunas afirmam, com convicção, que “isto nunca lhes aconteceria”. Mas todas partilharam o mesmo impulso inicial: praticar āsana, prāṇāyāma, meditação — ou seja, iniciar-se numa disciplina física e espiritual.
O choque surge precisamente aqui: onde é que o comboio descarrilou? Como é que alguém passa de praticante casual a yogini confiante que entrega o seu passaporte, viaja para outro país estrangeiro e vê-se envolvida numa lógica de submissão, mesmo que consiga recusar e escapar? Nenhuma luz vermelha piscou no seu subconsciente? É importante sublinhar: nada disto tem respaldo nos textos clássicos. Nenhum manuscrito de yoga exige nudez, exploração ou submissão sexual. Pelo contrário, os ensinamentos de Patañjali ou do Hatha Yoga Pradīpikā falam de ética, disciplina e auto-controlo.
O fenómeno tem paralelos inquietantes com o fascínio que certos mestres espirituais exercem em seitas: carisma extremo, autoridade incontestada e a promessa de “iluminação” funcionam como ferramentas de manipulação. A diferença é que, no caso do yoga, não é apenas a vulnerabilidade das vítimas que está em causa: o bom nome da prática também sofre. Onde está a abstinência, o respeito, a ética? Ou estamos perante um yoga “à la carte”, em que cada guru escolhe as regras conforme o seu desejo?
A ironia, com um toque de humor negro, é que enquanto o yoga é celebrado como “trabalho interno”, a realidade pode revelar um percurso completamente invertido: confiança e devoção transformam-se em mecanismos de exploração. Twisted Yoga lembra que, por trás da aura de tradição e espiritualidade, existem redes organizadas de manipulação, e que informação, ceticismo e vigilância são tão essenciais quanto a postura perfeita de árvore ou o mantra recitado com devoção.
No fim, a lição é clara e amarga: o yoga continua a ser uma prática transformadora, mas até na busca da paz interior existem becos escuros que exigem olhos bem abertos — e um sentido crítico afiado.
Vic
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