Quando a Índia anuncia o Yoga como se fosse campanha de vacinação… e nós começamos a acreditar que somos mais místicos que os próprios mestres.

Se há algo curioso na forma como o Yoga tem sido promovido nos últimos anos pela Índia oficial — sim, com o próprio primeiro-ministro a dar entrevistas e o ministério AYUSH a distribuir material como se fosse folheto do SNS sobre gripe sazonal — é a desconcertante ausência de espiritualidade. As campanhas falam em āsana, em prāṇāyāma e em alongamentos, mas o lado transcendental do Yoga, aquele que nos convida a olhar para dentro, à reflexão sobre a mente e a consciência, parece ter ficado na gaveta. É quase como se o Yoga tivesse sido convertido numa vacina preventiva contra o stress urbano: aplique tópica diariamente, sorria e continue a sua vida.
Enquanto isso, no Ocidente, vendem-nos retiros espirituais luxuosos, workshops de meditação que prometem libertação e iluminação, apps de mindfulness que nos asseguram que estamos a tornar-nos iluminados enquanto respondemos a emails, e livros que garantem: “Se praticar isto, vai despertar o seu verdadeiro eu”. O mundo, portanto, virou-se do avesso: o Yoga deixou de ser a prática quotidiana e humilde que nasceu na Índia para se tornar num produto aspiracional, onde a espiritualidade é um bónus opcional, uma espécie de premium Extra. Curiosamente, os próprios indianos, ao fazerem Yoga numa vertente quase pública e pragmática, parecem menos espirituais do que os estrangeiros que se deixam seduzir pelo glamour meditativo.
E aqui entra a política: Narendra Modi, líder do BJP — partido de extrema-direita indiano que chegou a proibir a venda de carne de vaca para consumo — parece querer enviar uma mensagem clara: “o que é nacional é bom”. Daí a criação do ministério AYUSH em 2014, destinado a centralizar práticas tradicionais como Yoga, Ayurveda e Naturopatia. Não se ficou apenas por aí: surgiram provas escritas e práticas de Yoga, protocolos oficiais e até uma espécie de páginas amarelas de instrutores, numa clara tentativa de criar concorrência à prestigiada Yoga Alliance. Mas, afinal, quantos níveis de Yoga existem? Apenas dois, como sugerido por Patañjali — shishya/guru — ou vários, à medida que AYUSH quiser “sugar” do mercado global? A questão é: será este um gesto de realização pessoal ou uma jogada estratégica para garantir que a Índia finalmente consiga uma fatia do bolo milionário que a indústria do Yoga gera para o mercado global? Considerando que Modi nunca foi, de facto, yogi, a segunda hipótese parece bastante plausível: recuperar o monopólio sobre a indústria do Yoga, convertendo uma tradição milenar em produto nacional de exportação.
A ironia é que, ao mesmo tempo que tentamos “alcançar a iluminação” em retiros de luxo em Bali ou Goa, a fonte original do Yoga nos oferece um manual de saúde e bem-estar que, se lermos com atenção, é radicalmente prático e sem floreados espirituais. Ficamos então com a pergunta inevitável: perdemos-nos nós no caminho ou a espiritualidade moderna foi simplesmente uma invenção de marketing ocidental? Talvez a resposta esteja no meio, entre a pompa das redes sociais e a simplicidade das aulas comunitárias na Índia, lembrando-nos que o Yoga é muito mais do que pose e respiração — é um convite, embora subtil, a perceber o que é realmente essencial.
No final, podemos rir desta inversão de papéis: o Yoga como “vacina anti-stress” no país de origem, e como “super alimento espiritual” no resto do mundo. Se calhar, a verdadeira prática não está na postura perfeita nem no retiro cinco estrelas, mas na capacidade de perceber que, às vezes, ser menos espiritual é mais… e que talvez sejamos apenas demasiado espirituais para os próprios indianos.
Vic
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