(mas ajuda a não nos perdermos completamente)

O yoga não evita perdas, não resolve conflitos familiares e, definitivamente, não melhora a qualidade das más notícias — sobretudo quando são dadas sem qualquer cuidado por alguém de quem se esperaria precisamente o contrário. A morte da minha avó materna chegou assim: abrupta, mal comunicada (quase com a frieza de quem informa um despedimento) e envolta numa tensão familiar matriarcal que, honestamente, ninguém pediu, mas que apareceu na mesma. E é curioso como, nestes momentos, toda a ideia de “equilíbrio” que achamos que temos é imediatamente posta à prova. Desde que comecei a praticar yoga, deixei de ser uma pessoa impulsiva, colérica e facilmente reativa para me tornar alguém mais estável — não no sentido passivo ou indiferente, mas com um domínio emocional construído ao longo dos anos, amplamente sustentado pela prática. Ainda assim, há experiências para as quais não existe preparação elegante. O luto é, inevitavelmente, uma delas.
Nos primeiros dias, o que senti não foi um colapso emocional evidente. Pelo contrário, havia uma espécie de tranquilidade estranha, quase funcional. A mente estava organizada, os pensamentos claros, as reações controladas — tudo aparentemente dentro do esperado para alguém “equilibrado”. Até que o corpo decidiu participar na conversa. Acordei com uma dor intensa no pescoço, incapaz de virar a cabeça, sem explicação mecânica plausível. As duas aulas que tinha dado na véspera eram, na verdade, relativamente acessíveis e, em circunstâncias normais, incapazes de justificar aquele tipo de limitação — a não ser, claro, que eu tivesse decidido incluir variações menos convencionais como Śīrṣāsana sem apoio das mãos e com carga excessiva na cervical, o que manifestamente não aconteceu. Restava, portanto, um corpo a expressar algo que, de forma menos evidente, não estava a ser totalmente processado. E aqui convém afastar qualquer leitura simplista: não se trata de dizer que “as emoções causam dores” de forma linear ou determinista — essa relação é complexa, estudada em áreas como a psicofisiologia e ainda sem consenso absoluto. Mas ignorar a ligação entre stress, sistema nervoso e manifestações corporais também não é particularmente rigoroso.
Foi neste ponto que comecei a olhar para a minha própria prática de forma menos estética e mais funcional. O yoga, que tantas vezes ensinamos ou praticamos num contexto relativamente controlado, teve de sair do tapete e entrar num cenário real, imperfeito e emocionalmente carregado. A respiração Ujjayi pranayama acabou por surgir como uma ferramenta central — não como solução milagrosa, mas como mecanismo concreto de regulação. Ao alongar a expiração e criar um ritmo respiratório consciente, há um efeito mensurável na ativação do sistema nervoso parassimpático, o que pode ajudar a reduzir a reatividade imediata ao stress. Mais do que “acalmar”, permitiu-me criar espaço: entre o estímulo e a resposta, entre o que sinto e o que faço com isso.
Mas talvez o maior desafio tenha sido outro: abandonar a ideia de que o yoga serve para “manter a calma”. Porque, no contexto do luto, isso pode facilmente transformar-se numa forma subtil de evitar sentir. E não, não é esse o objetivo. Aplicar o yoga a esta experiência implicou algo menos confortável e muito menos instagramável — usar a prática como forma de sustentar emoções difíceis sem as suprimir. Permitir a tristeza, a irritação, até alguma revolta, sem entrar automaticamente em reação. Perceber quando respirar antes de responder, quando parar em vez de insistir, quando simplesmente aceitar que não estou na minha versão mais equilibrada — e que isso também faz parte.
No fundo, esta experiência obrigou-me a redefinir o que significa, na prática, “levar o yoga para a vida”. Não como um ideal de serenidade constante, mas como um conjunto de ferramentas adaptáveis a contextos reais, onde há perda, tensão e imperfeição. O yoga não resolve o luto, não elimina a dor e não transforma ninguém numa pessoa imune ao caos. Mas pode evitar que nos percamos completamente dentro dele. E, considerando o que está em jogo, isso já não é pouco.
Vic
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