Max Müller

Datas 1823–1900
Áreas de estudo e atuação Indologia · Hinduísmo · Estudos do Yoga · Filosofia indiana · Sânscrito · Budismo
País / nacionalidade Alemanha

Friedrich Max Müller (1823–1900), geralmente conhecido como Max Müller, foi um filólogo, orientalista e historiador das religiões alemão que desempenhou um papel central na introdução dos textos sânscritos e das tradições religiosas indianas no meio académico europeu do século XIX. O seu trabalho teve enorme impacto no desenvolvimento da indologia moderna, dos estudos comparados da religião e na receção ocidental do Hinduísmo, dos Vedas e do pensamento indiano.

Nascido em Dessau, Müller estudou filologia clássica, filosofia e sânscrito em Leipzig, aprofundando posteriormente estudos em Paris e Londres. Mais tarde estabeleceu-se na Universidade de Oxford, onde desenvolveu grande parte da sua carreira académica.

Grande parte da sua investigação concentrou-se na filologia comparada, nos Vedas e nas origens das religiões indo-europeias. Max Müller acreditava que o estudo comparado das línguas e textos antigos permitia compreender a evolução histórica das religiões humanas.

Entre os principais temas associados ao seu trabalho destacam-se:

  • literatura védica;
  • filologia sânscrita;
  • religiões comparadas;
  • Hinduísmo antigo;
  • mitologia comparada;
  • textos sagrados orientais;
  • história das religiões.

Max Müller tornou-se particularmente conhecido pela edição crítica do “Ṛgveda“, uma das primeiras grandes edições académicas modernas do texto védico em sânscrito. Este trabalho representou um marco importante na história da indologia europeia e tornou acessíveis importantes fontes indianas ao meio académico ocidental.

Outra das suas contribuições mais influentes foi a direção da coleção “Sacred Books of the East“, publicada pela Oxford University Press. A série reuniu traduções de textos religiosos da Índia, China, Pérsia e outras tradições asiáticas, incluindo Upaniṣad, textos budistas, jainistas e obras ligadas ao Hinduísmo clássico. Estas traduções tiveram enorme impacto na receção ocidental das religiões asiáticas no século XIX.

Embora Max Müller não tenha sido especialista em Yoga no sentido moderno dos Estudos do Yoga, o seu trabalho contribuiu indiretamente para a difusão do interesse ocidental pelas tradições indianas que mais tarde influenciariam o estudo do Yoga, Vedānta e espiritualidade oriental.

A sua abordagem refletia fortemente o contexto intelectual europeu do século XIX, marcado por:

  • orientalismo académico;
  • filologia histórica;
  • comparativismo religioso;
  • teorias evolucionistas da religião.

Por esse motivo, parte do seu trabalho tem sido posteriormente criticada por investigadores contemporâneos, especialmente em relação a:

  • perspetivas eurocêntricas;
  • categorias universalistas aplicadas às religiões;
  • interpretações colonialmente condicionadas do Oriente.

Apesar dessas críticas, existe amplo reconhecimento da importância histórica de Max Müller para o desenvolvimento dos estudos indianos e das religiões comparadas. O seu trabalho ajudou a estabelecer a indologia como disciplina académica moderna e teve profunda influência sobre várias gerações de investigadores, filósofos e leitores ocidentais interessados na cultura e espiritualidade da Índia.

Para aprofundar

Os recursos apresentados nesta secção permitem aprofundar o conhecimento da vida, obra e contributo de Max Müller, reunindo publicações, conferências, entrevistas, projetos, instituições e outros materiais relevantes disponíveis nesta ficha.

Publicações selecionadas

    • Six Systems of Indian Philosophy (1899)
    • Biographies of Words and the Home of the Aryas (1888)
    • The Upanishads, Vol. II (Sacred Books of the East, Vol. 15) (1884)
    • India: What Can It Teach Us? (1883)
    • Sacred Books of the East (editor-geral, 50 volumes) (1879–1910)

    •  The Upanishads, Vol. I (Sacred Books of the East, Vol. 1) (1879)
    • Introduction to the Science of Religion (1873)

    • Chips from a German Workshop (4 volumes) (1867–1875)
    • Lectures on the Science of Language (2 volumes) (1861–1864)

    • Rig-Veda-Samhitâ: The Sacred Hymns of the Brāhmans (6 volumes) (1849–1874)

Conferências

Introduction to the Science of Religion / Lectures on the Science of Religion

Série de conferências que ajudou a consolidar o estudo comparado das religiões como campo académico. Oxford preserva documentação relativa às suas Four Lectures on the Science of Religion, proferidas em 1870 e publicadas em 1873.

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Projetos e legado

Sacred Books of the East

O maior projeto editorial associado a Max Müller. A coleção reuniu traduções de textos fundamentais do Hinduísmo, Budismo, Jainismo, Zoroastrismo, Confucionismo, Taoismo e Islão, realizadas por alguns dos principais orientalistas da época. Müller foi o editor geral da série.

O primeiro volume, publicado em 1879, contém a sua tradução das Upaniṣads.

The Upanishads — Part I e II

Müller traduziu diretamente várias das principais Upaniṣads para inglês. O primeiro volume surgiu em 1879 e o segundo em 1884. Estes trabalhos foram fundamentais para a receção ocidental da filosofia upaniṣádica.

Ṛgveda

Uma das grandes realizações da sua carreira foi a preparação de uma monumental edição do Ṛgveda em Sânscrito acompanhada pelo comentário de Sāyaṇa. Foi precisamente para supervisionar esta edição na Oxford University Press que Müller se estabeleceu definitivamente em Oxford em 1848.

The Six Systems of Indian Philosophy — 1899

Uma das obras mais diretamente relevantes para a Saṃsāra. Müller apresenta os seis darśanas tradicionalmente reconhecidos — Nyāya, Vaiśeṣika, Sāṃkhya, Yoga, Mīmāṃsā e Vedānta — contextualizando o Yoga dentro da história da filosofia indiana. A obra é confirmada em bibliografia académica contemporânea da época como publicada em 1899.

Filosofia das Upaniṣads

Müller considerava as Upaniṣads fundamentais para compreender a evolução da filosofia indiana. Escreveu que o seu interesse pelo Sânscrito fora inicialmente despertado precisamente por estes textos durante os estudos em Berlim, em 1844.

Religião comparada

Foi uma das figuras fundadoras da chamada “ciência da religião” no século XIX. Procurava comparar tradições religiosas através das suas línguas, mitos e textos, contribuindo para a transformação do estudo da religião num domínio académico autónomo.

Instituições associadas

Universidade de Oxford

Foi a principal instituição da sua carreira. Müller estabeleceu-se em Oxford em 1848 e permaneceu ligado à universidade até à morte.

Instituição Taylor  — Universidade de Oxford

Foi nomeado Professor Substituto Taylorian em 1851 e posteriormente Professor Catedrático de Línguas Europeias Modernas. A instituição preserva ainda hoje parte importante do seu legado documental e bibliográfico.

Chair of Comparative Philology — University of Oxford

Em 1868 foi criada uma cátedra de Filologia Comparada especificamente para Müller. Foi o primeiro titular e ocupou-a até 1900.

Christ Church, Universidade de Oxford

Esteve academicamente associado ao Christ Church durante parte da sua carreira em Oxford.

All Souls College, Universidade de Oxford

Foi posteriormente Investigador Residente do All Souls College.

Universidade de Leipzig

Realizou aí parte da sua formação universitária inicial em filologia e línguas clássicas antes de prosseguir estudos em Berlim e Paris.

Considerações finais

Friedrich Max Müller foi uma das figuras decisivas para a formação da Indologia, filologia comparada e estudo académico das religiões na Europa. A edição do Ṛgveda, as traduções das Upaniṣads e a coordenação da monumental coleção Sacred Books of the East tiveram enorme impacto na circulação de textos religiosos indianos fora da Índia.

Para os Estudos do Yoga, a sua importância é sobretudo indireta mas fundamental: ajudou a criar o contexto filológico e institucional no qual os textos e sistemas filosóficos associados ao Yoga passaram a ser estudados academicamente no Ocidente. The Six Systems of Indian Philosophy inclui explicitamente o Yoga entre as grandes tradições filosóficas indianas, tornando Müller particularmente relevante para a história intelectual dos Estudos do Yoga.

Nota crítica

É importante não apresentar Max Müller apenas como uma autoridade neutra sobre a Índia. A sua investigação pertence ao contexto intelectual do orientalismo europeu do século XIX, e várias das suas categorias e interpretações foram posteriormente revistas pela Indologia contemporânea.

A utilização de termos como “ariano” também exige contextualização. Müller empregava originalmente Aryan como categoria essencialmente linguística, relacionada com famílias de línguas, e mais tarde criticou explicitamente a transformação destas categorias linguísticas em categorias raciais. Ainda assim, o vocabulário utilizado pela filologia oitocentista contribuiu para debates e apropriações posteriores bastante problemáticos.

Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga