Glossário — Y

Yama – यम – yama, iama

Tradução literal – Restrição; disciplina; controlo.

Definição – Yama designa o primeiro dos oito membros (aṣṭāṅga) do sistema apresentado nos Yoga Sūtra de Patañjali. Os yamas correspondem a princípios éticos fundamentais que orientam a relação do praticante com os outros seres e com o mundo. Patañjali apresenta cinco yamas:

  • Ahiṃsā (अहिंसा) — não violência.
  • Satya (सत्य) — veracidade.
  • Asteya (अस्तेय) — não apropriação indevida.
  • Brahmacarya (ब्रह्मचर्य) — disciplina dos impulsos.
  • Aparigraha (अपरिग्रह) — não possessividade.

Estes princípios são apresentados como fundamentos indispensáveis para a prática do Yoga.

Referências textuais – A formulação clássica encontra-se nos Yoga Sūtra II.30:

अहिंसासत्यास्तेयब्रह्मचर्यापरिग्रहा यमाः

ahiṃsā-satyāsteya-brahmacaryāparigrahā yamāḥ

“Não violência, veracidade, não roubo, brahmacarya e não possessividade são os yamas.”

Notas académicas – Os yamas apresentam paralelos com outras tradições éticas da Índia antiga, incluindo o Jainismo e o Budismo. Os comentadores clássicos consideram-nos universais (mahāvrata), aplicáveis independentemente da época, lugar ou circunstância social. A investigação contemporânea destaca que os Yoga Sūtra não apresentam o Yoga apenas como uma técnica meditativa, mas também como uma disciplina ética.

Ver também – Niyama (नियम) · Ahiṃsā (अहिंसा) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Aṣṭāṅga Yoga (अष्टाङ्गयोग) · Dharma (धर्म)


Yantra – यन्त्र – yantra, iantra

Tradução literal: Instrumento; dispositivo; suporte.

Definição – Yantra é um diagrama geométrico utilizado em diversas tradições do Hinduísmo, do Tantra e de algumas correntes do Budismo. O termo deriva da raiz sânscrita yam (यम्), associada à ideia de controlar, sustentar ou apoiar. Assim, Yantra pode ser entendido como um instrumento ou suporte destinado a auxiliar a concentração, a contemplação e a prática ritual. Os Yantras são geralmente compostos por figuras geométricas como:

  • Pontos (Bindu).
  • Triângulos.
  • Círculos.
  • Quadrados.
  • Pétalas de lótus.

Cada elemento possui significados simbólicos específicos e a sua combinação representa determinadas divindades, princípios cósmicos ou realidades espirituais.

Referências textuais – Os Yantras encontram-se amplamente documentados na literatura tântrica medieval. Entre os exemplos mais conhecidos destaca-se o Śrī Yantra (श्रीयन्त्र), associado à deusa Tripurasundarī. No seu centro encontra-se o:

बिन्दु

bindu

“Ponto.”

Bindu representa frequentemente a unidade primordial da qual emerge toda a manifestação.

Notas académicas – Os investigadores observam que os Yantras desempenham funções variadas consoante o contexto religioso e histórico. Podem ser utilizados como:

  • Suporte visual para meditação.
  • Instrumento ritual.
  • Representação simbólica do cosmos.
  • Expressão gráfica de conceitos metafísicos.

Na tradição tântrica, os Yantras são frequentemente considerados equivalentes visuais dos Mantras (मन्त्र). Enquanto o Mantra representa o poder sagrado através do som, o Yantra exprime esse mesmo princípio através da forma geométrica. A investigação académica destaca que os Yantras não devem ser entendidos apenas como elementos decorativos. Nos contextos tradicionais, constituem representações simbólicas complexas integradas em sistemas rituais, meditativos e teológicos específicos.

Ver também – Bindu (बिन्दु) · Mantra (मन्त्र) · Tantra (तन्त्र) · Śrī Yantra (श्रीयन्त्र) · Devī (देवी) · Śakti (शक्ति)


Yoga – योग – yoga, ioga, iôga

Tradução literal – (Palavra polissémica) União; jugo; disciplina; método, atrelar

Definição – Yoga é um dos conceitos mais importantes e mais complexos da história intelectual e espiritual da Índia. Dependendo do contexto histórico, filosófico ou religioso, a palavra pode referir-se a métodos de disciplina espiritual, estados de concentração, caminhos para a libertação, sistemas filosóficos específicos ou práticas corporais e meditativas. Não existe uma definição única universalmente aceite de Yoga. Ao longo de mais de dois mil anos, diferentes tradições utilizaram o termo de formas distintas, produzindo interpretações por vezes complementares e por vezes divergentes.

Referências textuais – O termo encontra-se já na literatura védica, embora com significados diferentes daqueles que assumirá posteriormente. Uma das definições clássicas mais influentes encontra-se nos Yoga Sūtra de Patañjali (I.2):

योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः

yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ

“Yoga é a cessação das flutuações da mente.”

Esta definição tornou-se uma das mais citadas de toda a literatura yogica. Outra passagem extremamente influente encontra-se na Bhagavad Gītā (2.48): Devanāgarī

समत्वं योग उच्यते

samatvaṃ yoga ucyate

“Yoga é chamado equanimidade.”

A coexistência destas diferentes definições ilustra a diversidade histórica do conceito.

Notas académicas – A investigação contemporânea considera o Yoga uma tradição plural e historicamente dinâmica. As formas modernas de Yoga praticadas atualmente resultam da interação entre tradições indianas antigas e medievais, movimentos de reforma religiosa, cultura física, nacionalismo indiano e processos de globalização ocorridos entre os séculos XIX e XXI. Por essa razão, expressões como “Yoga tradicional”, “Yoga clássico”, “Haṭha Yoga”, “Rāja Yoga” ou “Yoga moderno” referem-se frequentemente a fenómenos históricos distintos. Os estudos contemporâneos de autores como Georg Feuerstein, James Mallinson, Mark Singleton, Jason Birch, Philipp A. Maas e Elizabeth De Michelis contribuíram significativamente para uma compreensão mais precisa da história do Yoga.

Ver também – Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Patañjali (पतञ्जलि) · Haṭha Yoga (हठयोग) · Samādhi (समाधि) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता) · Vedānta (वेदान्त)


Yoga Bhāṣya – योगभाष्य – Yoga Bhasya

Tradução literal – Comentário ao Yoga.

Definição – O Yoga Bhāṣya é o mais antigo comentário completo conservado sobre os Yoga Sūtra de Patañjali. Tradicionalmente atribuído a Vyāsa, esta obra desempenha um papel fundamental na compreensão do Yoga clássico, pois explica e desenvolve os aforismos extremamente concisos dos Yoga Sūtra. Em muitos casos, aquilo que atualmente se entende por filosofia do Yoga deriva tanto da leitura do Yoga Bhāṣya como dos próprios Yoga Sūtra. A obra desenvolve conceitos como Puruṣa, Prakṛti, Guṇa, Samādhi, Kaivalya e Īśvara, fornecendo o enquadramento filosófico que nem sempre se encontra explicitado nos aforismos.

Referências textuais – A data exata da composição permanece debatida. A maioria dos investigadores situa a redação do Yoga Bhāṣya entre os séculos IV e V d.C. Comentando o famoso sūtra:

योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः

yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ

Yoga Bhāṣya desenvolve uma extensa análise da natureza da mente e dos processos cognitivos.

Notas académicas – Durante muito tempo acreditou-se que os Yoga Sūtra e o Yoga Bhāṣya formavam originalmente uma única obra. Esta questão continua a ser debatida entre especialistas. Independentemente da sua autoria exata, o Yoga Bhāṣya constitui uma das fontes mais importantes para compreender a tradição do Yoga clássico. Sem este comentário, muitos aforismos de Patañjali permaneceriam ambíguos ou dificilmente interpretáveis.

Ver também – Vyāsa (व्यास) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Patañjali (पतञ्जलि) · Bhāṣya (भाष्य) · Sāṃkhya (सांख्य)


Yoga Sūtra – योगसूत्र – Yoga Sutra, Yoga Sutras, Ioga Sutras, Iogassutra

Tradução literal – Aforismos sobre o Yoga.

Definição – Os Yoga Sūtra constituem um dos textos mais influentes da história do Yoga. Tradicionalmente atribuídos a Patañjali, apresentam uma exposição sistemática do Yoga enquanto disciplina contemplativa destinada à libertação espiritual. A obra é composta por aproximadamente 195 ou 196 aforismos, dependendo da edição utilizada, organizados em quatro capítulos (pāda):

  1. Samādhi Pāda (समाधिपाद)
  2. Sādhana Pāda (साधनपाद)
  3. Vibhūti Pāda (विभूतिपाद)
  4. Kaivalya Pāda (कैवल्यपाद)

Os Yoga Sūtra constituem a principal obra da escola filosófica Yoga (Yoga Darśana).

Referências textuais – A datação exata permanece debatida, mas a composição da obra é geralmente situada entre os séculos II a.C. e IV d.C. O texto inicia-se com o célebre aforismo:

अथ योगानुशासनम्

atha yogānuśāsanam

“Agora, a exposição do Yoga.”

Logo no verso seguinte surge uma das definições mais conhecidas de toda a tradição yogica, (Yoga Sūtra I.2):

योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः

yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ

“Yoga é a cessação das flutuações da mente.”

Notas académicas – Os Yoga Sūtra não constituem um manual de posturas físicas nem um tratado de Haṭha Yoga. A obra centra-se sobretudo na disciplina mental, na meditação e na libertação espiritual. A sua filosofia encontra-se profundamente ligada ao sistema Sāṃkhya, embora introduza elementos próprios, incluindo a noção de Īśvara. Entre os comentários mais influentes encontram-se o Yoga Bhāṣya, tradicionalmente atribuído a Vyāsa, e os comentários posteriores de Vācaspati Miśra, Vijñānabhikṣu e Bhoja. A importância dos Yoga Sūtra no Yoga moderno deve-se em grande parte às interpretações desenvolvidas durante os séculos XIX e XX por autores como Vivekānanda e diversos movimentos de reforma do Yoga.

Ver também – Patañjali (पतञ्जलि) · Samādhi (समाधि) · Kaivalya (कैवल्य) · Sāṃkhya (सांख्य) · Īśvara (ईश्वर)


Yoga Vāsiṣṭha – योगवासिष्ठ – yoga vasistha, ioga vasishtha

Tradução literal: O Yoga de Vasiṣṭha; os ensinamentos de Yoga de Vasiṣṭha.

Definição – O Yoga Vāsiṣṭha é uma das mais importantes obras da tradição filosófica indiana, especialmente associada ao Vedānta não-dualista e a correntes contemplativas do Yoga. A obra apresenta-se sob a forma de um diálogo entre o sábio Vasiṣṭha (वसिष्ठ) e o príncipe Rāma (राम), abordando temas como:

  • A natureza da realidade.
  • A consciência.
  • A ilusão (Māyā).
  • A libertação (Mokṣa).
  • A mente (Citta).
  • O conhecimento espiritual (Jñāna).

Ao contrário dos Yoga Sūtra de Patañjali, o Yoga Vāsiṣṭha centra-se sobretudo na investigação filosófica e contemplativa da natureza da consciência.

Referências textuais – Uma das passagens mais citadas da obra afirma:

मन एव मनुष्याणां कारणं बन्धमोक्षयोः

mana eva manuṣyāṇāṃ kāraṇaṃ bandha-mokṣayoḥ

“A mente é a causa tanto da escravidão como da libertação dos seres humanos.”

Esta ideia resume um dos temas centrais da obra: a libertação depende da transformação da compreensão e da perceção da realidade.

Notas académicas – A datação do Yoga Vāsiṣṭha permanece objeto de debate entre os investigadores. A forma atualmente conhecida do texto terá sido composta entre os séculos IX e XIII, embora incorpore materiais de épocas anteriores. A obra existe em diferentes versões, incluindo:

  • Laghu Yoga Vāsiṣṭha (लघु योगवासिष्ठ) — versão abreviada.
  • Bṛhat Yoga Vāsiṣṭha (बृहत् योगवासिष्ठ) — versão extensa.

Os investigadores observam que o texto combina elementos provenientes de diversas tradições, incluindo:

  • Vedānta.
  • Sāṃkhya.
  • Yoga.
  • Budismo.
  • Correntes não-dualistas do pensamento indiano.

Yoga Vāsiṣṭha exerceu profunda influência sobre a espiritualidade e a filosofia indianas, sendo frequentemente considerado uma das mais importantes exposições da não-dualidade em sânscrito.

Ver também – Vasiṣṭha (वसिष्ठ) · Rāma (राम) · Vedānta (वेदान्त) · Advaita (अद्वैत) · Māyā (माया) · Mokṣa (मोक्ष) · Jñāna (ज्ञान)


Saṃsāra – Centro de Estudos do Yoga