Glossário — V

Vairāgya – वैराग्य – vairagya

Tradução literal – Desapego; despaixão; ausência de apego.

Definição – Vairāgya designa o desapego em relação aos objetos, experiências e desejos que mantêm a mente presa ao ciclo de sofrimento e insatisfação. Nos Yoga Sūtra, constitui um dos dois pilares fundamentais da prática, juntamente com Abhyāsa (prática constante). O desapego não implica rejeição do mundo nem indiferença emocional. Refere-se antes à capacidade de não depender psicologicamente dos objetos de desejo ou aversão.

Referências textuais – Uma definição clássica encontra-se nos Yoga Sūtra I.15:

दृष्टानुश्रविकविषयवितृष्णस्य वशीकारसंज्ञा वैराग्यम्

dṛṣṭānuśravika-viṣaya-vitṛṣṇasya vaśīkāra-saṃjñā vairāgyam

“Vairāgya é o domínio daquele que já não tem sede pelos objetos percebidos ou descritos nas escrituras.”

Notas académicas – O conceito desempenha um papel central em diversas tradições indianas. Nos Yoga Sūtra, Abhyāsa e Vairāgya são apresentados como meios complementares para alcançar a estabilidade mental. A noção de desapego influenciou profundamente o Yoga, o Vedānta, o Budismo e outras correntes filosóficas indianas.

Ver tambémAbhyāsa (अभ्यास) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Samādhi (समाधि) · Kleśa (क्लेश) · Mokṣa (मोक्ष)


Vāyu – वायु – Vayu, Vaio, Vaiú

Tradução literal – Vento; ar; movimento.

Definição – Vāyu é um termo sânscrito que significa originalmente “vento” ou “ar”, mas que assume significados mais amplos nas tradições do Yoga, da Ayurveda e da filosofia indiana. No contexto do Yoga, Vāyu refere-se frequentemente aos movimentos ou correntes do Prāṇa que atuam no corpo subtil. Os textos clássicos descrevem cinco principais Vāyus (pañca-vāyu):

  • Prāṇa Vāyu (प्राणवायु) – associado à inspiração e à receção.
  • Apāna Vāyu (अपानवायु) – associado à eliminação e ao movimento descendente.
  • Samāna Vāyu (समानवायु) – associado à assimilação e ao equilíbrio.
  • Udāna Vāyu (उदानवायु) – associado à expressão e ao movimento ascendente.
  • Vyāna Vāyu (व्यानवायु) – associado à circulação e distribuição.

Estes cinco movimentos constituem um dos modelos fundamentais da fisiologia subtil do Yoga tradicional.

Referências textuais – Uma referência importante encontra-se na Praśna Upaniṣad (III.5–8), onde são descritas diferentes funções do Prāṇa no organismo. Outra passagem clássica surge na Haṭhapradīpikā (II.2):

चले वाते चलं चित्तं निश्चले निश्चलं भवेत्

cale vāte calaṃ cittaṃ niścale niścalaṃ bhavet

“Quando o vento (vāyu) se move, a mente move-se; quando o vento se torna estável, a mente torna-se estável.”

Esta passagem ilustra a estreita relação entre respiração, energia vital e estados mentais.

Notas académicas – O conceito de Vāyu desempenha um papel importante tanto na Ayurveda como nas tradições yogicas. Os Vāyus não devem ser confundidos com estruturas anatómicas da medicina moderna. Fazem parte de um modelo tradicional de compreensão do corpo, da respiração e da experiência humana. No Haṭha Yoga, numerosas práticas respiratórias e energéticas procuram regular ou harmonizar os diferentes Vāyus.

Ver também – Prāṇa (प्राण) · Apāna (अपान) · Prāṇāyāma (प्राणायाम) · Nāḍī (नाडी) · Haṭha Yoga (हठयोग)


Vedas – वेद – vedas

Tradução literal – Conhecimento; saber.

Definição – Os Vedas constituem os textos mais antigos e mais autoritativos da tradição hindu. São considerados textos revelados (śruti) e ocupam uma posição central na história religiosa e intelectual da Índia. Os quatro Vedas principais são:

  • Ṛgveda (ऋग्वेद)
  • Yajurveda (यजुर्वेद)
  • Sāmaveda (सामवेद)
  • Atharvaveda (अथर्ववेद)

Cada Veda inclui diferentes camadas textuais, incluindo Saṃhitā, Brāhmaṇa, Āraṇyaka e Upaniṣad.

Referências textuais – Os textos védicos mais antigos foram compostos aproximadamente entre 1500 e 1200 a.C., embora a cronologia continue a ser debatida. O primeiro verso do Ṛgveda afirma:

अग्निमीळे पुरोहितम्

agnim īḷe purohitam

“Eu louvo Agni, o sacerdote.”

Este é o primeiro verso conservado da literatura védica.

Notas académicas – Os Vedas constituem uma das mais antigas tradições literárias contínuas do mundo. Grande parte da filosofia indiana posterior, incluindo Upaniṣads, Vedānta e diversas correntes do Yoga, desenvolveu-se em diálogo com a herança védica. O estudo dos Vedas permanece uma área central da filologia e da história das religiões.

Ver também – Upaniṣad (उपनिषद्) · Vedānta (वेदान्त) · Śruti (श्रुति) · Brahman (ब्रह्मन्) · Dharma (धर्म)


Vedānta – वेदान्त – vedanta

Tradução literal – Fim dos Vedas; culminação dos Vedas.

Definição – Vedānta é uma das principais escolas filosóficas da Índia e baseia-se principalmente na interpretação dos Upaniṣads, do Bhagavad Gītā e dos Brahma Sūtra. O seu principal interesse consiste na investigação da realidade última, da consciência, da natureza do eu e da libertação espiritual. Ao longo da história, o Vedānta tornou-se uma das correntes filosóficas mais influentes do pensamento hindu, produzindo extensas tradições de comentário, debate e interpretação.

Referências textuais – A expressão Vedānta surge inicialmente para designar os ensinamentos presentes na parte final dos Vedas, especialmente nas Upaniṣads. Uma das passagens mais conhecidas associadas à tradição vedântica encontra-se na Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (1.4.10):

अहं ब्रह्मास्मि

ahaṃ brahmāsmi

“Eu sou Brahman.”

Esta afirmação é considerada um dos principais mahāvākya das Upaniṣads.

Notas académicas – O Vedānta não constitui uma escola única. Ao longo da história desenvolveram-se várias correntes, entre as quais:

  • Advaita Vedānta (अद्वैत वेदान्त)
  • Viśiṣṭādvaita Vedānta (विशिष्टाद्वैत वेदान्त)
  • Dvaita Vedānta (द्वैत वेदान्त)

Estas escolas apresentam interpretações distintas acerca da relação entre Brahman, o mundo e os seres individuais. Entre os principais representantes históricos destacam-se Śaṅkarācārya, Rāmānuja e Madhva. A influência do Vedānta estende-se muito para além da filosofia académica, tendo moldado profundamente a espiritualidade hindu até aos dias de hoje.

Ver também – Upaniṣad (उपनिषद्) · Brahman (ब्रह्मन्) · Ātman (आत्मन्) · Mokṣa (मोक्ष) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता)


Viśiṣṭādvaita – विशिष्टाद्वैत – vishishtadvaita, visistadvaita

Tradução literal: Não-dualidade qualificada; não-dualismo qualificado.

Definição – Viśiṣṭādvaita é uma das principais escolas do Vedānta e encontra-se tradicionalmente associada ao filósofo e teólogo Rāmānuja (रामानुज, c. 1017–1137). O termo combina:

  • viśiṣṭa (विशिष्ट) — qualificado, particularizado.
  • advaita (अद्वैत) — não-dualidade.

Segundo esta escola, existe uma unidade fundamental da realidade, mas essa unidade não elimina a existência real das almas individuais (jīva) nem do universo (jagat). Ao contrário do Advaita Vedānta de Śaṅkara, que afirma a identidade última entre Ātman e Brahman, o Viśiṣṭādvaita sustenta que os seres individuais e o mundo constituem atributos ou modos reais de Brahman, permanecendo distintos sem serem completamente separados. A realidade é, portanto, simultaneamente una e diversificada.

Referências textuais – Tal como outras escolas do Vedānta, o Viśiṣṭādvaita baseia-se na interpretação das três grandes fontes conhecidas como Prasthānatrayī:

  • Upaniṣads (उपनिषद्)
  • Bhagavad Gītā (भगवद्गीता)
  • Brahma Sūtra (ब्रह्मसूत्र)

Uma passagem frequentemente citada pelos comentadores viśiṣṭādvaita encontra-se na Bhagavad Gītā (10.20):

अहमात्मा गुडाकेश सर्वभूताशयस्थितः

aham ātmā guḍākeśa sarva-bhūtāśaya-sthitaḥ

“Eu sou o Ātman que reside no coração de todos os seres.”

Os comentadores desta tradição interpretam esta passagem como expressão da presença de Brahman em todos os seres sem que a individualidade destes seja anulada.

Notas académicas – O Viśiṣṭādvaita desempenhou um papel central no desenvolvimento das tradições vaiṣṇavas do sul da Índia. Rāmānuja elaborou uma síntese filosófica que procurou conciliar:

  • a unidade da realidade;
  • a existência real do universo;
  • a individualidade das almas;
  • a devoção a Viṣṇu.

A escola exerceu enorme influência sobre movimentos de Bhakti e continua a ser uma das mais importantes correntes filosóficas e teológicas do Hinduísmo. Os estudiosos consideram geralmente o Advaita, o Viśiṣṭādvaita e o Dvaita como as três interpretações clássicas mais influentes do Vedānta.

Ver também – Advaita (अद्वैत) · Dvaita (द्वैत) · Vedānta (वेदान्त) · Rāmānuja (रामानुज) · Viṣṇu (विष्णु)


Viṣṇu – विष्णु – Vishnu, Visnu, Vixnu, Vixenu

Tradução literal – Aquele que tudo permeia; o que está presente em toda a parte.

Definição – Viṣṇu é uma das principais divindades do Hinduísmo e ocupa uma posição central nas tradições vaiṣṇavas. É frequentemente associado à preservação e manutenção da ordem cósmica (dharma), sendo tradicionalmente apresentado como membro da tríade divina (Trimūrti), juntamente com Brahmā e Śiva. Uma das características mais importantes da teologia vaiṣṇava é a doutrina dos avatāras, segundo a qual Viṣṇu se manifesta no mundo sob diferentes formas para restaurar o Dharma quando este entra em declínio. Entre os avatāras mais conhecidos encontram-se Rāma e Kṛṣṇa.

Referências textuais – Viṣṇu é mencionado já nos Vedas, embora inicialmente desempenhe um papel menos destacado do que em períodos posteriores. Uma passagem célebre do Ṛgveda (1.154.1) afirma:

विष्णोर्नु कं वीर्याणि प्रवोचम्

viṣṇor nu kaṃ vīryāṇi pravocam

“Proclamarei agora os feitos heroicos de Viṣṇu.”

Este hino constitui uma das mais antigas referências conhecidas à divindade.

Notas académicas – A figura de Viṣṇu desenvolveu-se significativamente ao longo da história religiosa da Índia. Durante os primeiros séculos da Era Comum surgiram importantes movimentos devocionais centrados em Viṣṇu e nos seus avatāras. Textos como o Mahābhārata, a Bhagavad Gītā, o Viṣṇu Purāṇa e o Bhāgavata Purāṇa desempenharam um papel decisivo nesta evoluçãoAtualmente, as tradições vaiṣṇavas constituem uma das maiores correntes religiosas do Hinduísmo.

Ver também – Kṛṣṇa (कृष्ण) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता) · Bhakti Yoga (भक्तियोग) · Dharma (धर्म) · Avatāra (अवतार)


Vyāsa – व्यास – Vyasa, Viasa

Tradução literal – Compilador; organizador; editor.

Definição – Vyāsa é uma das figuras mais importantes da tradição literária e religiosa da Índia. É tradicionalmente considerado o compilador dos Vedas, o autor do Mahābhārata, dos Purāṇa e dos Brahma Sūtra. Na história do Yoga, Vyāsa assume uma importância particular por lhe ser tradicionalmente atribuído o Yoga Bhāṣya(योगभाष्य), o mais antigo comentário completo conservado sobre os Yoga Sūtra de Patañjali. Embora a existência histórica de uma única pessoa responsável por todas estas obras seja considerada improvável pela maioria dos investigadores contemporâneos, a figura de Vyāsa tornou-se um símbolo da transmissão do conhecimento sânscrito.

Referências textuais – A tradição hindu associa Vyāsa ao período do Mahābhārata, onde surge também como personagem da própria narrativa. Uma passagem frequentemente citada do Mahābhārata afirma:

व्यासाय विष्णुरूपाय व्यासरूपाय विष्णवे

vyāsāya viṣṇurūpāya vyāsarūpāya viṣṇave

“Reverência a Vyāsa, que é a forma de Viṣṇu, e a Viṣṇu, que é a forma de Vyāsa.”

Este verso pertence à tradição devocional posterior e ilustra a elevada veneração atribuída a Vyāsa.

Notas académicas – A investigação contemporânea considera improvável que o autor dos Yoga Bhāṣya, dos Brahma Sūtra e do Mahābhārata tenha sido a mesma pessoa histórica. Muitos especialistas entendem “Vyāsa” como um nome tradicional associado à compilação e transmissão de textos. Apesar destas incertezas históricas, o Yoga Bhāṣya permanece uma fonte indispensável para compreender a interpretação clássica dos Yoga Sūtra. Na prática, muitos dos conceitos associados a Patañjali são conhecidos atualmente através da leitura conjunta dos Yoga Sūtra e do comentário atribuído a Vyāsa.

Ver também – Patañjali (पतञ्जलि) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Yoga Bhāṣya (योगभाष्य) · Mahābhārata (महाभारत) · Vedānta (वेदान्त)


Saṃsāra – Centro de Estudos do Yoga