Glossário — V

vāc – वाच् – vac, vaac

Tradução literal: Fala; palavra; voz.

Definição – Vāc é um importante conceito da tradição védica e designa a fala, a palavra ou a capacidade de expressão verbal. Nos textos mais antigos da Índia, Vāc não é apenas entendida como linguagem humana, mas como uma força cósmica associada à criação, ao conhecimento e à revelação sagrada. Ao longo da história do pensamento indiano, Vāc tornou-se simultaneamente:

  • A fala humana.
  • A linguagem sagrada dos Vedas.
  • Um princípio cósmico.
  • Uma divindade feminina.

Em algumas tradições, Vāc é identificada ou associada a Sarasvatī, deusa da sabedoria, da eloquência e do conhecimento.

Referências textuais – O Ṛgveda contém um célebre hino dedicado a Vāc (Ṛgveda X.125), no qual a própria deusa fala na primeira pessoa:

अहं राष्ट्री संगमनी वसूनाम्

ahaṃ rāṣṭrī saṅgamanī vasūnām

“Eu sou a soberana, aquela que reúne os poderes divinos.”

Este hino constitui uma das mais importantes expressões da personificação da Palavra na literatura védica.

Notas académicas – Os investigadores consideram Vāc um dos conceitos fundamentais para compreender a visão indiana da linguagem. Nas tradições védicas e posteriores, a palavra não era vista apenas como um meio de comunicação, mas como uma força dotada de eficácia religiosa e poder criador. A reflexão sobre Vāc influenciou profundamente:

  • A gramática sânscrita.
  • A filosofia da linguagem.
  • O ritual védico.
  • O Tantra.
  • As teorias do Mantra.

Em diversas escolas filosóficas indianas, a linguagem é entendida como uma ponte entre a consciência humana e a realidade. A investigação académica considera Vāc uma das mais antigas e influentes conceções da linguagem sagrada presentes nas tradições religiosas da Índia.

Ver tambémSarasvatī (सरस्वती) · Mantra (मन्त्र) · Vedas (वेद) · Śruti (श्रुति) · Mahābhāṣya (महाभाष्य) ·


Vairāgya – वैराग्य – vairagya

Tradução literal – Desapego; despaixão; ausência de apego.

Definição – Vairāgya designa o desapego em relação aos objetos, experiências e desejos que mantêm a mente presa ao ciclo de sofrimento e insatisfação. Nos Yoga Sūtra, constitui um dos dois pilares fundamentais da prática, juntamente com Abhyāsa (prática constante). O desapego não implica rejeição do mundo nem indiferença emocional. Refere-se antes à capacidade de não depender psicologicamente dos objetos de desejo ou aversão.

Referências textuais – Uma definição clássica encontra-se nos Yoga Sūtra I.15:

दृष्टानुश्रविकविषयवितृष्णस्य वशीकारसंज्ञा वैराग्यम्

dṛṣṭānuśravika-viṣaya-vitṛṣṇasya vaśīkāra-saṃjñā vairāgyam

“Vairāgya é o domínio daquele que já não tem sede pelos objetos percebidos ou descritos nas escrituras.”

Notas académicas – O conceito desempenha um papel central em diversas tradições indianas. Nos Yoga Sūtra, Abhyāsa e Vairāgya são apresentados como meios complementares para alcançar a estabilidade mental. A noção de desapego influenciou profundamente o Yoga, o Vedānta, o Budismo e outras correntes filosóficas indianas.

Ver tambémAbhyāsa (अभ्यास) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Samādhi (समाधि) · Kleśa (क्लेश) · Mokṣa (मोक्ष)


Vaiśeṣika – वैशेषिक – Vaisheshika, Vaisesika, Vaisesica

Tradução literal: Doutrina das particularidades; sistema da distinção.

Definição – Vaiśeṣika é uma das seis Darśanas da filosofia hindu. Tradicionalmente atribuída ao sábio Kaṇāda, esta escola dedica-se à investigação da natureza da realidade, procurando compreender os elementos fundamentais que compõem o universo. O nome deriva de viśeṣa, termo que significa “particularidade”, “distinção” ou “característica específica”, refletindo o interesse da escola pela classificação e diferenciação dos fenómenos. Vaiśeṣika desenvolveu uma das mais sofisticadas formas de filosofia natural da Índia antiga, propondo uma análise sistemática da realidade através de categorias fundamentais.

Referências textuais – A obra fundadora da escola é o Vaiśeṣika Sūtra, tradicionalmente atribuído a Kaṇāda. O texto inicia-se com uma investigação sobre o Dharma:

अथातो धर्मं व्याख्यास्यामः

athāto dharmaṃ vyākhyāsyāmaḥ

“Agora explicaremos o Dharma.”

Tal como noutras escolas clássicas indianas, a investigação filosófica é apresentada como um caminho para o conhecimento e para o bem supremo.

Notas académicas – A escola Vaiśeṣika é particularmente conhecida pela sua teoria das categorias (Padārthas). Tradicionalmente, reconhece:

  • Dravya — substância.
  • Guṇa — qualidade.
  • Karma — movimento ou ação.
  • Sāmānya  — universalidade.
  • Viśeṣa — particularidade.
  • Samavāya — inerência.

Posteriormente, algumas tradições acrescentaram:

  • Abhāva  — ausência ou não-existência.

Os investigadores observam que Vaiśeṣika desenvolveu uma forma de atomismo filosófico, defendendo que o mundo material é constituído por partículas indivisíveis (aṇu). Ao longo da história, a escola tornou-se estreitamente associada ao Nyāya, partilhando muitos conceitos epistemológicos e metafísicos. A investigação académica considera Vaiśeṣika uma das mais importantes tradições filosóficas da Índia antiga, particularmente relevante para o estudo da lógica, da metafísica e da filosofia da natureza.

Ver tambémDarśana (दर्शन) · Nyāya (न्याय) · Dharma (धर्म) · Guṇa (गुण) · Karma (कर्म)


Vaiṣṇavismo – वैष्णवमत – vaisnavismo, vaishnavismo, vaishnavism

Tradução literal: Doutrina ou tradição dos devotos de Viṣṇu.

Nota terminológica – O termo “Vaiṣṇavismo” é uma designação moderna utilizada em línguas europeias para descrever as tradições religiosas centradas em Viṣṇu. Nos textos indianos encontram-se mais frequentemente expressões como Vaiṣṇava (वैष्णव), para designar um devoto de Viṣṇu, ou Vaiṣṇava Mata (वैष्णवमत), para designar a doutrina ou tradição vaiṣṇava.

Definição – Vaiṣṇavismo é uma das principais correntes religiosas do Hinduísmo, centrada na devoção a Viṣṇu e às suas diversas manifestações (Avatāras), particularmente Kṛṣṇa e Rāma.

O termo deriva de:

  • Vaiṣṇava (वैष्णव) — devoto de Viṣṇu.
  • Mata (मत) — doutrina, tradição ou sistema de pensamento.

Ao longo da sua história, o Vaiṣṇavismo desenvolveu uma rica tradição de filosofia, teologia, literatura, ritual e devoção (Bhakti), tornando-se uma das correntes religiosas mais influentes da Índia.

Referências textuais – As principais fontes textuais do Vaiṣṇavismo incluem:

  • Bhagavad Gītā
  • Bhāgavata Purāṇa
  • Viṣṇu Purāṇa
  • Mahābhārata
  • Rāmāyaṇa

Um dos versos mais conhecidos da Bhagavad Gītā afirma:

यदा यदा हि धर्मस्य ग्लानिर्भवति भारत

yadā yadā hi dharmasya glānir bhavati bhārata

“Sempre que ocorre um declínio do Dharma, ó Bhārata…”

(Bhagavad Gītā IV.7)

Esta passagem introduz a doutrina dos avatāras de Viṣṇu.

Notas académicas – Os investigadores consideram o Vaiṣṇavismo uma das três grandes correntes históricas do Hinduísmo, juntamente com o Śaivismo e o Śaktismo. Ao longo dos séculos, desenvolveram-se diversas escolas vaiṣṇavas, incluindo:

  • Viśiṣṭādvaita Vedānta de Rāmānuja.
  • Dvaita Vedānta de Madhva.
  • Acintya Bhedābheda associado a Caitanya.

A devoção (Bhakti) ocupa uma posição central nestas tradições, sendo frequentemente considerada o principal caminho para a libertação espiritual. A investigação académica considera o Vaiṣṇavismo uma das mais influentes tradições religiosas da Índia, responsável por uma vasta produção filosófica, literária, artística e devocional.

Ver tambémViṣṇu (विष्णु) · Kṛṣṇa (कृष्ण) · Rāma (राम) · Bhakti (भक्ति) · Bhāgavata Purāṇa (भागवतपुराण) · Rāmānujācārya (रामानुजाचार्य) · Madhvācārya (मध्वाचार्य) · Dvaita Vedānta (द्वैत वेदान्त) · Hinduísmo


Vasiṣṭha – वसिष्ठ – vasistha

Tradução literal: O mais excelente; o mais eminente; o mais ilustre.

Definição – Vasiṣṭha é um dos mais importantes sábios (Ṛṣis) da tradição hindu e uma das figuras mais influentes da literatura védica e pós-védica. É tradicionalmente considerado um dos autores de hinos do Ṛgveda e figura entre os célebres Saptarṣis, os Sete Grandes Sábios da tradição indiana. Ao longo dos séculos, Vasiṣṭha tornou-se uma personagem central de numerosos textos religiosos, filosóficos e épicos, sendo frequentemente retratado como mestre espiritual, conselheiro de reis e símbolo de sabedoria.

Referências textuais – Vasiṣṭha surge em diversos textos fundamentais da tradição hindu, incluindo:

  • Ṛgveda
  • Rāmāyaṇa
  • Mahābhārata

No Rāmāyaṇa, é apresentado como sacerdote e conselheiro da dinastia solar à qual pertence Rāma.

A sua figura encontra-se igualmente associada ao célebre Yoga Vāsiṣṭha, obra filosófica na qual instrui o príncipe Rāma sobre a natureza da realidade, da consciência e da libertação.

Notas académicas – Os investigadores distinguem frequentemente entre:

  • O Vasiṣṭha histórico ou védico associado aos hinos do Ṛgveda.
  • As representações literárias e religiosas desenvolvidas posteriormente.

Ao longo da história da literatura indiana, Vasiṣṭha tornou-se um arquétipo do sábio ideal, reunindo autoridade espiritual, conhecimento filosófico e poder ascético. O Yoga Vāsiṣṭha contribuiu significativamente para a sua projeção como mestre de ensinamentos não-dualistas, embora a composição desta obra seja muito posterior ao período védico. A investigação académica considera Vasiṣṭha uma das figuras mais importantes da tradição sapiencial da Índia, cuja influência atravessa a religião védica, a literatura épica, o Vedānta e as tradições do Yoga.

Ver tambémṚṣi (ऋषि) · Rāma (राम) · Yoga Vāsiṣṭha (योगवासिष्ठ) · Mahābhārata (महाभारत) · Rāmāyaṇa (रामायण) · Vedānta (वेदान्त)


Vāyu – वायु – Vayu, Vaio, Vaiú

Tradução literal – Vento; ar; movimento.

Definição – Vāyu é um termo sânscrito que significa originalmente “vento” ou “ar”, mas que assume significados mais amplos nas tradições do Yoga, da Ayurveda e da filosofia indiana. No contexto do Yoga, Vāyu refere-se frequentemente aos movimentos ou correntes do Prāṇa que atuam no corpo subtil. Os textos clássicos descrevem cinco principais Vāyus (pañca-vāyu):

  • Prāṇa Vāyu (प्राणवायु) – associado à inspiração e à receção.
  • Apāna Vāyu (अपानवायु) – associado à eliminação e ao movimento descendente.
  • Samāna Vāyu (समानवायु) – associado à assimilação e ao equilíbrio.
  • Udāna Vāyu (उदानवायु) – associado à expressão e ao movimento ascendente.
  • Vyāna Vāyu (व्यानवायु) – associado à circulação e distribuição.

Estes cinco movimentos constituem um dos modelos fundamentais da fisiologia subtil do Yoga tradicional.

Referências textuais – Uma referência importante encontra-se na Praśna Upaniṣad (III.5–8), onde são descritas diferentes funções do Prāṇa no organismo. Outra passagem clássica surge na Haṭhapradīpikā (II.2):

चले वाते चलं चित्तं निश्चले निश्चलं भवेत्

cale vāte calaṃ cittaṃ niścale niścalaṃ bhavet

“Quando o vento (vāyu) se move, a mente move-se; quando o vento se torna estável, a mente torna-se estável.”

Esta passagem ilustra a estreita relação entre respiração, energia vital e estados mentais.

Notas académicas – O conceito de Vāyu desempenha um papel importante tanto na Ayurveda como nas tradições yogicas. Os Vāyus não devem ser confundidos com estruturas anatómicas da medicina moderna. Fazem parte de um modelo tradicional de compreensão do corpo, da respiração e da experiência humana. No Haṭha Yoga, numerosas práticas respiratórias e energéticas procuram regular ou harmonizar os diferentes Vāyus.

Ver tambémPrāṇa (प्राण) · Apāna (अपान) · Prāṇāyāma (प्राणायाम) · Nāḍī (नाडी) · Haṭha Yoga (हठयोग)


Vedas – वेद – vedas

Tradução literal – Conhecimento; saber.

Definição – Os Vedas constituem os textos mais antigos e mais autoritativos da tradição hindu. São considerados textos revelados (śruti) e ocupam uma posição central na história religiosa e intelectual da Índia. Os quatro Vedas principais são:

  • Ṛgveda (ऋग्वेद)
  • Yajurveda (यजुर्वेद)
  • Sāmaveda (सामवेद)
  • Atharvaveda (अथर्ववेद)

Cada Veda inclui diferentes camadas textuais, incluindo Saṃhitā, Brāhmaṇa, Āraṇyaka e Upaniṣad.

Referências textuais – Os textos védicos mais antigos foram compostos aproximadamente entre 1500 e 1200 a.C., embora a cronologia continue a ser debatida. O primeiro verso do Ṛgveda afirma:

अग्निमीळे पुरोहितम्

agnim īḷe purohitam

“Eu louvo Agni, o sacerdote.”

Este é o primeiro verso conservado da literatura védica.

Notas académicas – Os Vedas constituem uma das mais antigas tradições literárias contínuas do mundo. Grande parte da filosofia indiana posterior, incluindo Upaniṣads, Vedānta e diversas correntes do Yoga, desenvolveu-se em diálogo com a herança védica. O estudo dos Vedas permanece uma área central da filologia e da história das religiões.

Ver tambémUpaniṣad (उपनिषद्) · Vedānta (वेदान्त) · Śruti (श्रुति) · Brahman (ब्रह्मन्) · Dharma (धर्म)


Vedānta – वेदान्त – vedanta

Tradução literal – Fim dos Vedas; culminação dos Vedas.

Definição – Vedānta é uma das principais escolas filosóficas da Índia e baseia-se principalmente na interpretação dos Upaniṣads, do Bhagavad Gītā e dos Brahma Sūtra. O seu principal interesse consiste na investigação da realidade última, da consciência, da natureza do eu e da libertação espiritual. Ao longo da história, o Vedānta tornou-se uma das correntes filosóficas mais influentes do pensamento hindu, produzindo extensas tradições de comentário, debate e interpretação.

Referências textuais – A expressão Vedānta surge inicialmente para designar os ensinamentos presentes na parte final dos Vedas, especialmente nas Upaniṣads. Uma das passagens mais conhecidas associadas à tradição vedântica encontra-se na Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (1.4.10):

अहं ब्रह्मास्मि

ahaṃ brahmāsmi

“Eu sou Brahman.”

Esta afirmação é considerada um dos principais mahāvākya das Upaniṣads.

Notas académicas – O Vedānta não constitui uma escola única. Ao longo da história desenvolveram-se várias correntes, entre as quais:

  • Advaita Vedānta (अद्वैत वेदान्त)
  • Viśiṣṭādvaita Vedānta (विशिष्टाद्वैत वेदान्त)
  • Dvaita Vedānta (द्वैत वेदान्त)

Estas escolas apresentam interpretações distintas acerca da relação entre Brahman, o mundo e os seres individuais. Entre os principais representantes históricos destacam-se Śaṅkarācārya, Rāmānuja e Madhva. A influência do Vedānta estende-se muito para além da filosofia académica, tendo moldado profundamente a espiritualidade hindu até aos dias de hoje.

Ver tambémUpaniṣad (उपनिषद्) · Brahman (ब्रह्मन्) · Ātman (आत्मन्) · Mokṣa (मोक्ष) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता)


Viniyoga – विनियोग – viniyoga

Tradução literal: Aplicação apropriada; utilização adequada; adaptação.

Definição – Viniyoga é uma abordagem contemporânea do Yoga desenvolvida e divulgada por T. K. V. Desikachar (1938–2016), filho e discípulo de Tirumalai Krishnamacharya (1888–1989).

O termo deriva de:

  • vi — de forma específica, diferenciada.
  • ni — direcionar, aplicar.
  • yoga — união, disciplina ou método.

Pode ser traduzido como “aplicação apropriada” ou “adaptação adequada”. O princípio central do Viniyoga consiste em adaptar a prática às necessidades, capacidades, objetivos e circunstâncias individuais de cada praticante, em vez de exigir que todos sigam um método uniforme. Uma frase frequentemente associada a Krishnamacharya resume esta abordagem:

“Não é a pessoa que se deve adaptar ao Yoga; é o Yoga que se deve adaptar à pessoa.”

Referências textuais – Embora o Viniyoga seja uma abordagem contemporânea, as suas bases encontram-se em textos clássicos estudados e ensinados por Krishnamacharya e Desikachar, incluindo:

  • Yoga Sūtra
  • Bhagavad Gītā 
  • Haṭha Yoga Pradīpikā

Entre as obras mais associadas à divulgação desta abordagem encontra-se: The Heart of Yoga: Developing a Personal Practice (1995), de T. K. V. Desikachar.

Notas académicas – Os investigadores observam que o termo viniyoga já existia no sânscrito clássico muito antes do aparecimento desta abordagem contemporânea, significando simplesmente “aplicação”, “utilização” ou “emprego adequado”. A utilização moderna do termo para designar uma metodologia específica de ensino desenvolveu-se sobretudo a partir do trabalho de T. K. V. Desikachar durante a segunda metade do século XX. O Viniyoga distingue-se pela importância atribuída a:

  • Adaptação individual.
  • Respiração (Prāṇāyāma).
  • Progressão gradual da prática.
  • Objetivos terapêuticos.
  • Integração entre corpo, respiração e mente.

A investigação académica considera o Viniyoga uma das importantes ramificações do legado pedagógico de Krishnamacharya e um exemplo da diversificação do Yoga moderno.

Ver tambémT. K. V. Desikachar · T. Krishnamacharya · Prāṇāyāma (प्राणायाम) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Haṭha Yoga (हठयोग) · Palácio de Mysore


Viśiṣṭādvaita – विशिष्टाद्वैत – vishishtadvaita, visistadvaita

Tradução literal: Não-dualidade qualificada; não-dualismo qualificado.

Definição – Viśiṣṭādvaita é uma das principais escolas do Vedānta e encontra-se tradicionalmente associada ao filósofo e teólogo Rāmānuja (रामानुज, c. 1017–1137). O termo combina:

  • viśiṣṭa (विशिष्ट) — qualificado, particularizado.
  • advaita (अद्वैत) — não-dualidade.

Segundo esta escola, existe uma unidade fundamental da realidade, mas essa unidade não elimina a existência real das almas individuais (jīva) nem do universo (jagat). Ao contrário do Advaita Vedānta de Śaṅkara, que afirma a identidade última entre Ātman e Brahman, o Viśiṣṭādvaita sustenta que os seres individuais e o mundo constituem atributos ou modos reais de Brahman, permanecendo distintos sem serem completamente separados. A realidade é, portanto, simultaneamente una e diversificada.

Referências textuais – Tal como outras escolas do Vedānta, o Viśiṣṭādvaita baseia-se na interpretação das três grandes fontes conhecidas como Prasthānatrayī:

  • Upaniṣads (उपनिषद्)
  • Bhagavad Gītā (भगवद्गीता)
  • Brahma Sūtra (ब्रह्मसूत्र)

Uma passagem frequentemente citada pelos comentadores viśiṣṭādvaita encontra-se na Bhagavad Gītā (10.20):

अहमात्मा गुडाकेश सर्वभूताशयस्थितः

aham ātmā guḍākeśa sarva-bhūtāśaya-sthitaḥ

“Eu sou o Ātman que reside no coração de todos os seres.”

Os comentadores desta tradição interpretam esta passagem como expressão da presença de Brahman em todos os seres sem que a individualidade destes seja anulada.

Notas académicas – O Viśiṣṭādvaita desempenhou um papel central no desenvolvimento das tradições vaiṣṇavas do sul da Índia. Rāmānuja elaborou uma síntese filosófica que procurou conciliar:

  • a unidade da realidade;
  • a existência real do universo;
  • a individualidade das almas;
  • a devoção a Viṣṇu.

A escola exerceu enorme influência sobre movimentos de Bhakti e continua a ser uma das mais importantes correntes filosóficas e teológicas do Hinduísmo. Os estudiosos consideram geralmente o Advaita, o Viśiṣṭādvaita e o Dvaita como as três interpretações clássicas mais influentes do Vedānta.

Ver tambémAdvaita (अद्वैत) · Dvaita (द्वैत) · Vedānta (वेदान्त) · Viṣṇu (विष्णु)


Viṣṇu – विष्णु – Vishnu, Visnu, Vixnu, Vixenu

Tradução literal – Aquele que tudo permeia; o que está presente em toda a parte.

Definição – Viṣṇu é uma das principais divindades do Hinduísmo e ocupa uma posição central nas tradições vaiṣṇavas. É frequentemente associado à preservação e manutenção da ordem cósmica (dharma), sendo tradicionalmente apresentado como membro da tríade divina (Trimūrti), juntamente com Brahmā e Śiva. Uma das características mais importantes da teologia vaiṣṇava é a doutrina dos avatāras, segundo a qual Viṣṇu se manifesta no mundo sob diferentes formas para restaurar o Dharma quando este entra em declínio. Entre os avatāras mais conhecidos encontram-se Rāma e Kṛṣṇa.

Referências textuais – Viṣṇu é mencionado já nos Vedas, embora inicialmente desempenhe um papel menos destacado do que em períodos posteriores. Uma passagem célebre do Ṛgveda (1.154.1) afirma:

विष्णोर्नु कं वीर्याणि प्रवोचम्

viṣṇor nu kaṃ vīryāṇi pravocam

“Proclamarei agora os feitos heroicos de Viṣṇu.”

Este hino constitui uma das mais antigas referências conhecidas à divindade.

Notas académicas – A figura de Viṣṇu desenvolveu-se significativamente ao longo da história religiosa da Índia. Durante os primeiros séculos da Era Comum surgiram importantes movimentos devocionais centrados em Viṣṇu e nos seus avatāras. Textos como o Mahābhārata, a Bhagavad Gītā, o Viṣṇu Purāṇa e o Bhāgavata Purāṇa desempenharam um papel decisivo nesta evoluçãoAtualmente, as tradições vaiṣṇavas constituem uma das maiores correntes religiosas do Hinduísmo.

Ver tambémKṛṣṇa (कृष्ण) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता) · Bhakti Yoga (भक्तियोग) · Dharma (धर्म) · Avatāra (अवतार)


Viṣṇu Purāṇa – विष्णुपुराण – visnu purana, vishnu-purana

Tradução literal: Purāṇa de Viṣṇu.

Definição –Viṣṇu Purāṇa é um dos dezoito Mahāpurāṇas e uma das mais importantes obras da literatura religiosa associada ao Vaiṣṇavismo. O texto apresenta ensinamentos teológicos, cosmológicos e devocionais centrados em Viṣṇu, frequentemente descrito como a realidade suprema, preservador do universo e origem de todas as coisas. Entre os temas abordados encontram-se:

  • Criação e dissolução do universo.
  • Cosmologia hindu.
  • Genealogias de reis e sábios.
  • Doutrina dos avatāras.
  • Dharma.
  • Bhakti.

A obra desempenhou um papel importante no desenvolvimento das tradições vaiṣṇavas e da teologia de Viṣṇu.

Referências textuais – O Viṣṇu Purāṇa contém algumas das mais influentes exposições da doutrina dos Avatāras, incluindo narrativas relacionadas com:

  • Matsya
  • Kūrma
  • Varāha
  • Narasiṃha
  • Vāmana
  • Rāma
  • Kṛṣṇa

O texto apresenta igualmente Viṣṇu como o princípio supremo que sustenta e permeia todo o cosmos.

Notas académicas – Os investigadores situam geralmente a composição do Viṣṇu Purāṇa entre os séculos IV e IX, embora a obra tenha sofrido sucessivas revisões ao longo da sua história. Entre os Purāṇas, é frequentemente considerado um dos textos mais sistemáticos do ponto de vista teológico e cosmológico. A obra exerceu forte influência sobre o desenvolvimento do Vaiṣṇavismo medieval e sobre diversas escolas do Vedānta. Além do seu valor religioso, o texto constitui uma importante fonte para o estudo da mitologia, da cosmologia e da história cultural da Índia. A investigação académica considera o Viṣṇu Purāṇa uma das principais fontes para compreender a evolução da teologia vaiṣṇava e da literatura purânica.

Ver tambémViṣṇu (विष्णु) · Vaiṣṇavismo (वैष्णवमत) · Purāṇa (पुराण) · Mahāpurāṇas (महापुराण) · Bhāgavata Purāṇa (भागवतपुराण) · Avatāra (अवतार) · Kṛṣṇa (कृष्ण) · Rāma (राम) · Bhakti (भक्ति) · Vedānta (वेदान्त)


Vṛtti – वृत्ति – vrtti, vritti

Tradução literal: Movimento; modificação; atividade; funcionamento.

Definição – Vṛtti é um conceito central dos Yoga Sūtra de Patañjali e refere-se às atividades, movimentos ou modificações da mente. No contexto do Yoga Clássico, os Vṛttis correspondem aos diversos processos mentais através dos quais percebemos, interpretamos, recordamos, imaginamos e reagimos ao mundo. Os Vṛttis não são necessariamente negativos. Constituem o funcionamento normal da mente. Contudo, quando não são compreendidos ou controlados, podem obscurecer a perceção da verdadeira natureza da consciência. O conceito surge frequentemente na expressão Citta-vṛtti, que designa as modificações do campo mental.

Referências textuais – O termo aparece na célebre definição de Yoga apresentada por Patañjali:

योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः

yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ

“O Yoga é a cessação das flutuações da mente.”

(Yoga Sūtra I.2)

Nos versos seguintes, Patañjali descreve os diferentes tipos de Vṛtti presentes na experiência humana.

Notas académicas – Nos Yoga Sūtra (I.5–11), os Vṛttis são classificados em cinco categorias:

  • Pramāṇa (प्रमाण) — conhecimento válido.
  • Viparyaya (विपर्यय) — conhecimento erróneo.
  • Vikalpa (विकल्प) — imaginação ou construção conceptual.
  • Nidrā (निद्रा) — sono.
  • Smṛti (स्मृति) — memória.

Os comentadores clássicos observam que o objetivo do Yoga não consiste em eliminar permanentemente todas as funções mentais, mas em desenvolver uma relação consciente e estável com elas. A investigação académica considera o conceito de Vṛtti uma das bases da psicologia do Yoga Clássico, sendo fundamental para compreender a teoria da mente desenvolvida por Patañjali.

Ver tambémCitta (चित्त) · Citta-vṛtti (चित्तवृत्ति) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Samādhi (समाधि) · Smṛti (स्मृति)


Vyākaraṇa – व्याकरण – vyakarana

Tradução literal: Análise; decomposição; gramática.

DefiniçãoVyākaraṇa designa a tradição gramatical do sânscrito e uma das seis disciplinas auxiliares dos Vedas, responsáveis pela preservação, interpretação e transmissão correta dos textos sagrados.

O termo deriva de:

  • vi  — separar, distinguir.
  • ā  — completamente.
  • √kṛ  — fazer.

Assim, Vyākaraṇa pode ser entendido como “análise detalhada” ou “decomposição sistemática da linguagem”. O seu principal objetivo é estudar a estrutura, a formação e o funcionamento da língua sânscrita.

Referências textuais – A obra mais influente desta tradição é a Aṣṭādhyāyī, composta por Pāṇini, provavelmente entre os séculos V e IV a.C.

Outras obras fundamentais incluem:

  • Vārttika de Kātyāyana.
  • Mahābhāṣya de Patañjali.

Estas três obras constituem a base da tradição gramatical clássica do sânscrito.

Notas académicas – Os investigadores académicos consideram o Vyākaraṇa uma das mais sofisticadas tradições linguísticas da história da humanidade. Ao contrário da gramática moderna, o seu objetivo não consistia apenas em descrever uma língua, mas também em preservar a correta recitação dos Vedas e garantir a transmissão precisa do conhecimento religioso. A obra de Pāṇini é frequentemente considerada uma das mais extraordinárias realizações intelectuais da Antiguidade, devido ao seu elevado grau de sistematização e precisão. A investigação académica reconhece igualmente a influência exercida pela tradição gramatical indiana em áreas contemporâneas como a linguística, a filosofia da linguagem e a história das ideias.

Ver tambémSânscrito (संस्कृत) · Pāṇini (पाणिनि) · Mahābhāṣya (महाभाष्य) · Patañjali (पतञ्जलि) · Vedas (वेद) · Indiologia


Vyāsa – व्यास – Vyasa, Viasa

Tradução literal – Compilador; organizador; editor.

Definição – Vyāsa é uma das figuras mais importantes da tradição literária e religiosa da Índia. É tradicionalmente considerado o compilador dos Vedas, o autor do Mahābhārata, dos Purāṇa e dos Brahma Sūtra. Na história do Yoga, Vyāsa assume uma importância particular por lhe ser tradicionalmente atribuído o Yoga Bhāṣya(योगभाष्य), o mais antigo comentário completo conservado sobre os Yoga Sūtra de Patañjali. Embora a existência histórica de uma única pessoa responsável por todas estas obras seja considerada improvável pela maioria dos investigadores contemporâneos, a figura de Vyāsa tornou-se um símbolo da transmissão do conhecimento sânscrito.

Referências textuais – A tradição hindu associa Vyāsa ao período do Mahābhārata, onde surge também como personagem da própria narrativa. Uma passagem frequentemente citada do Mahābhārata afirma:

व्यासाय विष्णुरूपाय व्यासरूपाय विष्णवे

vyāsāya viṣṇurūpāya vyāsarūpāya viṣṇave

“Reverência a Vyāsa, que é a forma de Viṣṇu, e a Viṣṇu, que é a forma de Vyāsa.”

Este verso pertence à tradição devocional posterior e ilustra a elevada veneração atribuída a Vyāsa.

Notas académicas – A investigação contemporânea considera improvável que o autor dos Yoga Bhāṣya, dos Brahma Sūtra e do Mahābhārata tenha sido a mesma pessoa histórica. Muitos especialistas entendem “Vyāsa” como um nome tradicional associado à compilação e transmissão de textos. Apesar destas incertezas históricas, o Yoga Bhāṣya permanece uma fonte indispensável para compreender a interpretação clássica dos Yoga Sūtra. Na prática, muitos dos conceitos associados a Patañjali são conhecidos atualmente através da leitura conjunta dos Yoga Sūtra e do comentário atribuído a Vyāsa.

Ver tambémPatañjali (पतञ्जलि) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Yoga Bhāṣya (योगभाष्य) · Mahābhārata (महाभारत) · Vedānta (वेदान्त)


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