Título original: Bhagavad-Gītā — भगवद्गीता
Autor: Vyāsa, no contexto do Mahābhārata
Traduzido por: Huberto Rohden
Ano da primeira edição: 1963
Editora da primeira edição: Livraria Freitas Bastos
Local da primeira edição: Rio de Janeiro, Brasil
Idioma original: Sânscrito - Português (Brasil)
O Bhagavad-Gītā constitui um diálogo entre o guerreiro Arjuna e Kṛṣṇa, inserido no Mahābhārata. Perante a iminência da batalha de Kurukṣetra e confrontado com o dever de combater familiares, mestres e conhecidos, Arjuna entra numa profunda crise moral e recusa-se inicialmente a agir. Kṛṣṇa responde desenvolvendo uma reflexão sobre ação, dever, conhecimento, disciplina, devoção e libertação. Ao longo dos dezoito capítulos, o texto articula diferentes caminhos de Yoga, particularmente karma-yoga, jñāna-yoga e bhakti-yoga, procurando conciliar a ação no mundo com a busca da libertação espiritual. Na versão de Huberto Rohden, o texto é acompanhado por uma interpretação fortemente marcada pela sua própria filosofia universalista e pela ideia de autorrealização.
O Bhagavad-Gītā é um dos textos fundamentais para a história intelectual e religiosa do Yoga. A sua importância reside, entre outros aspetos, na ampliação do conceito de Yoga para além das práticas ascéticas ou meditativas, integrando ação, conhecimento, devoção e disciplina interior. A versão de Rohden possui adicionalmente interesse histórico por ter contribuído para disponibilizar a Gītā em português brasileiro a um público não especializado. As numerosas reedições documentadas sugerem uma circulação significativa da sua tradução no Brasil durante as últimas décadas do século XX.
O interesse para os Estudos do Yoga é direto e muito elevado, porque a Bhagavad-Gītā constitui uma das fontes fundamentais para compreender a evolução histórica do conceito de Yoga. O texto apresenta diferentes modelos de disciplina yóguica e procura resolver uma questão central: como alcançar libertação sem necessariamente abandonar a ação no mundo. O karma-yoga, em particular, apresenta a ação sem apego aos seus frutos como caminho espiritual, enquanto outras passagens desenvolvem dimensões contemplativas, cognitivas e devocionais do Yoga. A edição de Rohden acrescenta uma segunda dimensão de interesse: permite estudar como a Bhagavad-Gītā e o Yoga foram apresentados e reinterpretados para leitores de língua portuguesa no Brasil durante o século XX.
A tradução de Rohden teve uma longa história editorial. Encontramos, por exemplo, uma edição da Alvorada de 1984, com 192 páginas, e referências à 10.ª edição, publicada em São Paulo pela Alvorada em 1989. Posteriormente, a obra entrou no catálogo da Martin Claret e continuou a circular em novas edições. Esta sucessão de reedições torna a obra interessante não apenas como tradução da Gītā, mas como testemunho da receção popular brasileira da filosofia indiana durante o século XX.
A tradução de Huberto Rohden deve ser compreendida simultaneamente como tradução e interpretação filosófico-espiritual. Rohden não era um indólogo ou filólogo do sânscrito no sentido académico contemporâneo, e a sua leitura da Bhagavad-Gītā encontra-se marcada pela Filosofia Univérsica e por uma perspetiva comparativa e universalista das tradições religiosas. Por essa razão, a edição possui considerável valor para a história da receção da filosofia indiana no Brasil e no mundo lusófono, mas não deve ser utilizada isoladamente como tradução filológica de referência. Para investigação textual, é aconselhável confrontá-la com edições críticas do Mahābhārata, estudos especializados e traduções académicas realizadas diretamente a partir do sânscrito.
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