Título original: Yoga Malandro
Subtítulo: Liberdade, Sofrimento e Outras Ficções
Autor: Roberto Serafim Simões
Ano da primeira edição: 2020
Editora da primeira edição: Editora Dialética
Local da primeira edição: Brasil
Idioma original: Português (Brasil)
Yoga Malandro investiga aquilo que acontece quando o Yoga, enquanto tradição originária do Sul da Ásia, é transplantado para o contexto brasileiro.
Roberto Simões não pretende determinar se o Yoga praticado no Brasil é mais ou menos “verdadeiro” relativamente a alguma forma indiana original. O seu interesse está precisamente nas transformações que ocorrem quando o Yoga entra em contacto com estruturas sociais, religiosas e culturais brasileiras.
O conceito central do livro é o de “Yoga malandro”. Simões utiliza a malandragem como chave interpretativa de uma espiritualidade marcada por adaptação, improvisação, hibridismo e capacidade de trabalhar com condições adversas. Segundo a descrição do próprio livro, esse Yoga adquire contornos brasileiros através dos seus “sincretismos e paradoxalidades”.
Em vez de estudar prioritariamente a validade científica das práticas ou a exegese das escrituras clássicas, o autor privilegia questões sociológicas, políticas, históricas e antropológicas relacionadas com a forma como yogues brasileiros constroem práticas e identidades próprias.
A importância de Yoga Malandro está em inverter uma pergunta muito frequente nos estudos e discursos populares sobre Yoga.
Em vez de perguntar “até que ponto o Yoga brasileiro continua fiel ao Yoga indiano?”, Simões pergunta o que o Yoga se tornou quando passou a existir dentro da realidade brasileira.
Esta mudança permite tratar sincretismo e hibridização não necessariamente como corrupção de uma tradição original, mas como processos normais de circulação cultural.
O Brasil deixa, assim, de aparecer apenas como receptor passivo do Yoga indiano ou do Yoga moderno internacional e passa a ser entendido como espaço produtor de formas próprias de espiritualidade yóguica.
O conceito de “malandro” é especialmente provocador porque confronta diretamente discursos de pureza, linhagem e autenticidade que frequentemente acompanham a apresentação contemporânea do Yoga.
O interesse de Yoga Malandro para os Estudos do Yoga é muito elevado, sobretudo para Yoga moderno, globalização, América Latina e processos de adaptação cultural. A obra permite compreender que a circulação internacional do Yoga não consiste apenas na exportação de uma tradição indiana para diferentes países: cada contexto produz novas interpretações, identidades, discursos e práticas. O caso brasileiro é particularmente interessante pelo encontro entre Yoga, diversidade religiosa, sincretismo, desigualdades sociais, cultura corporal e diferentes conceções de espiritualidade. O livro oferece, por isso, um contraponto importante a estudos centrados sobretudo na Índia, Reino Unido ou Estados Unidos e contribui para ampliar geograficamente a história do Yoga moderno. Para estudar criticamente autenticidade, apropriação, hibridização e formação de Yogas locais, é uma das obras mais pertinentes de Roberto Simões.
A obra é um bom exemplo de como um título pode constituir parte do próprio argumento académico.
“Malandro” não é usado simplesmente de maneira humorística. O conceito procura evocar uma forma brasileira de adaptação e criatividade perante estruturas sociais difíceis. A descrição editorial afirma que o Yoga malandro procura, mesmo em condições desfavoráveis, “extrair o melhor” dos recursos disponíveis.
Há também uma curiosidade bibliográfica que vale a pena conservar na ficha: o subtítulo aparece alterado em diferentes plataformas. A Editora Dialética apresenta Liberdade, sofrimento e outras ficções; o perfil académico do autor apresenta Sofrimento, Liberdade e Outras Ficções; e algumas livrarias portuguesas apresentam Sofrimento, Libertação e Outras Ficções. Como ISBN e conteúdo coincidem, estamos perante a mesma obra, não três livros diferentes.
Yoga Malandro insere-se nos Estudos do Yoga moderno e contemporâneo através de uma abordagem fortemente influenciada pelas Ciências da Religião, sociologia e antropologia. A obra não pretende reconstruir filologicamente a história antiga do Yoga nem estabelecer a autenticidade de linhagens ou técnicas. O seu objeto é a construção cultural do Yoga brasileiro. Esta abordagem é particularmente relevante porque evidencia fatores frequentemente secundarizados em histórias universais do Yoga: colonialidade, localização cultural, sincretismo, identidade, relações de poder e adaptação religiosa. Ao mesmo tempo, a categoria de “Yoga malandro” deve ser entendida como uma ferramenta interpretativa proposta pelo próprio autor, e não como designação histórica utilizada pelos praticantes brasileiros em geral.
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