Eu dou aulas ao ‘resto’ — e ainda bem.

Quando o Yoga fala de inclusão… mas só até certo tipo de corpo entrar na sala.

Há conversas que ficam. Não porque foram profundas, mas porque revelam mais do que deviam.

Durante uma formação de Yoga na capital há anos atrás, surgiu um daqueles temas clássicos: “o perfil do praticante de Yoga contemporâneo em Portugal”. Alguém mencionou um estudo recente — desses que aparecem da autoria duma alma iluminada com ares de doutor — onde o estereótipo era claro: mulher, jovem, cabelos compridos, entre os 25 e os 30, corpo esbelto, estética cuidada, tatuada, independente e sem filhos. Basicamente, aquilo que vemos todos os dias no Instagram.

Até aqui, nada de novo. Esse “perfil” já foi amplamente discutido, sobretudo quando se fala da forma como o Yoga foi reinterpretado no Ocidente. A questão é que há aqui um detalhe importante: muitas destas ideias vivem mais na imagem do que na realidade. São construções culturais, não necessariamente retratos fiéis.

E foi aí que eu disse, com toda a naturalidade: “Olha que nas minhas aulas, não é nada assim.”

E era verdade. Por alguns segundos, vi caras. Vi o Sr. Quim (75 anos) fazendo a espargata. A Maria (portuguesa de origem cabo-verdiana) empregada de limpeza; a Anabela e os seus 90 quilos (cozinheira); o Miguel e o seu braço esquerdo paralisado; a Joana e seus ataques de ansiedade (auxiliar de ação educativa). O Nuno (45 anos) solteiro e bom rapaz procurando a alma gémea nas aulas de Yoga. O Tó e as suas sete hérnias discais e tremores. A minha Paula, comercial hospitalar chegando aos 50 anos, viciada em exercicio fisico. E o Domingos (reformado) com a sua enorme barriga de cerveja mas que já consegue atar os sapatos de novo. (Nomes fictícios, claro!)

Disse que tinha pessoas de várias idades — dos 40 aos 75. Pessoas magras, gordas, de etnias e origens diferentes. Pessoas reais. Sem filtros. Sem aquela estética padronizada. Leggings e t-shirt, o mais comum possível. Gente que vai praticar, não posar.

Silêncio.

E depois veio a frase do meu formador:

“Então tu dás aulas ao resto.”

Assim. Simples. Limpo. Direto.

Confesso que na altura fiquei meio sem reação. Não porque não tivesse resposta — mas porque, às vezes, o que choca não é a agressividade, é a naturalidade com que certas coisas são ditas.

“O resto.”

Fiquei a pensar nisso.

“O resto” de quê, exatamente?
O resto de quem?
O resto comparado com qual modelo?

E, quanto mais pensava, mais aquilo me parecia estranho — não só pelo que foi dito, mas pelo contraste com aquilo que eu própria tinha vivido antes.

Quando comecei o meu caminho no Yoga, não foi por moda, nem por estética. Foi por indicação médica. E foi na Índia, em Vasai (West), Maharashtra, que tive o primeiro contacto sério com a prática.

As minhas vizinhas acolheram-me.

Com o meu hindi básico — quase inexistente — houve paciência. Demonstraram, repetiram, corrigiram. Explicaram-me o sopro, o alinhamento, o movimento. Sem pressa. Sem julgamento. Sem qualquer preocupação com aparência, idade ou “tipo de corpo”.

No Yoga que aprendi ali … não havia “o resto”.

Havia pessoas.

E talvez tenha sido por isso que aquele comentário me chocou tanto. Porque não foi apenas uma frase infeliz — foi um choque cultural. Ouvir, no meu próprio país, uma redução tão simplista de algo que, na sua origem vivida por mim, nunca foi organizado dessa forma.

Porque, se quisermos inverter a perspetiva — e isto é desconfortável, mas necessário — então quem é “o resto”?

Se olharmos a partir do contexto indiano, tradicional, quotidiano — aquele que não aparece nas redes sociais nem nos retiros de luxo — será que não somos nós, com os nossos estereótipos ocidentais, que parecemos… deslocados?

Afinal de contas, aquela imagem da praticante jovem, loira, perfeitamente alinhada com um certo ideal estético… não é exatamente representativa da maioria das pessoas que praticam Yoga na Índia.

Mas é essa imagem que domina.

E é essa imagem que cria hierarquias.

Porque, no fundo, é isso que estava naquela frase.

Não era só uma descrição. Era uma classificação.

Há um “tipo ideal” — e depois há todos os outros.

“O resto.”

O problema é que isto não é só semântica. É estrutural. Influencia quem entra numa aula, quem se sente deslocado, quem acha que “isto não é para mim”. E, talvez mais preocupante ainda, influencia a forma como olhamos para os nossos próprios alunos.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. Uma prática associada a princípios como não-violência e aceitação consegue, no seu formato contemporâneo, reproduzir exatamente o contrário — de forma subtil, educada, quase invisível.

E é por isso que esta conversa importa.

Porque, se eu dou aulas ao “resto”, então quem são os “outros”?
E quem decidiu isso?

Da minha experiência — prática, concreta, vivida entre contextos diferentes — o Yoga não pertence a um corpo específico, nem a uma estética dominante.

Pertence a quem pratica.

E, felizmente, essas pessoas não são todas iguais.

Se isso é “o resto”, então talvez esteja na altura de rever o que estamos a considerar como principal.

Vic

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