Yama, Niyama e … fatura com IVA
Como sobreviver à indústria multi-milionária do yoga sem perder o sentido da prática
Há algo quase inevitável quando se fala de Yama e Niyama: soam profundos, antigos, cheios de significado. E são. Mas também levantam uma questão muito concreta — e pouco romântica — para quem ensina Yoga hoje: onde é que isto cabe, exatamente, numa aula de 60 ou 90 minutos?
Nos textos clássicos, em particular no Yoga Sūtra de Patañjali, estes princípios integram um sistema mais amplo — o aṣṭāṅga-yoga, ou “Yoga de oito membros”. São eles: Yama (relação ética com os outros), Niyama (disciplina pessoal), āsana (postura), prāṇāyāma (regulação da respiração), pratyāhāra (recolhimento dos sentidos), dhāraṇā (concentração), dhyāna (meditação) e samādhi (absorção meditativa). O que é evidente é que, no contexto contemporâneo, a prática tende a centrar-se sobretudo em āsana e prāṇāyāma, deixando os restantes membros numa presença mais implícita do que explícita.
Dentro deste quadro, Yama e Niyama são frequentemente descritos como fundamentos éticos. Os Yama incluem ahiṃsā(não-violência), satya (veracidade), asteya (não roubar), brahmacarya (moderação, com interpretações diversas) e aparigraha (não apego). Já os Niyama referem-se a práticas internas: śauca (pureza ou limpeza), santoṣa(contentamento), tapas (disciplina), svādhyāya (estudo de si e dos textos) e Īśvarapraṇidhāna (entrega a Īśvara, um conceito particularmente debatido fora do seu contexto original). À primeira vista, parecem princípios universais. Mas a sua aplicação concreta está longe de ser linear, sobretudo quando transposta para a realidade de um estúdio de Yoga contemporâneo.
E é aqui que começa o verdadeiro desafio.
Já ouviram falar dos cursos de Yoga nas redes sociais, todos com preçários diferentes: uma pós-graduação de 3.000 euros em Lisboa ou uma formação inicial de 200 horas que pode variar entre 1.200 e 5.000 euros — em cenários paradisíacos no meio da natureza, em serras e quintas bem portuguesas ou nas falésias “dos Algarves”. E, como se não bastasse, ainda nos são oferecidos pagamentos em várias prestações e descontos de Black Friday, do Coelhinho da Páscoa ou do Pai Natal — quase parece que estamos a comprar um carro em vez de uma formação profissional. O paradoxo é delicioso: ensinamos o não apego, o contentamento e a disciplina…
Depois de termos a certificação no bolso, temos de organizar um espaço e atrair “futuros” praticantes para podermos ensinar esta filosofia e espiritualidade pela qual nos apaixonámos.
Honestamente, ninguém entra numa aula de Yoga à espera de uma exposição sobre ética clássica indiana. E, no entanto, estes princípios continuam a atravessar a prática — muitas vezes de forma silenciosa. Quando um instrutor sugere que não vale a pena forçar uma postura, está a trabalhar ahiṃsā. Quando incentiva a consistência, mesmo sem motivação, aproxima-se de tapas. Quando lembra que não é necessário comparar-se com o colega do lado, abre espaço para santoṣa. E quando convida à observação da respiração ou das reações internas, toca em svādhyāya. Não é necessário nomear. Está presente na forma como a aula é conduzida.
Mas esta dimensão ética não se limita ao que acontece no tapete.
O Yoga contemporâneo existe dentro de estruturas concretas: estúdios com rendas, professores com encargos fiscais, seguros, formações contínuas e, muitas vezes, afiliações a entidades como a Yoga Alliance. Estes custos são reais e elevados. Explicam, em parte, a rigidez de muitos modelos de funcionamento: aulas particulares a preço de luxo, mensalidades fixas com aumentos de seis em seis meses, aulas com prazo de validade e muitas políticas pouco flexíveis. Do ponto de vista económico, fazem sentido.
Mas, à luz de princípios como aparigraha ou ahiṃsā, geram tensão.
O que significa falar de não apego quando o aluno sente que não pode faltar para não “perder” as aulas que já pagou?
Onde entra a não-violência quando alguém pratica cansado ou doente porque não pode recuperar as aulas?
E, no meio disto, há histórias muito concretas.
Alunos que reorganizam o orçamento para conseguirem continuar a frequentar as aulas. Que cortam pequenas despesas — as bicas na pastelaria ao fim da tarde — para manterem a prática. E, do outro lado, professores que, conhecendo essas dificuldades, optam por flexibilizar. Por vezes, deixando passar uma mensalidade sem pagamento. Não como caridade, mas como reconhecimento de uma realidade social onde, cada vez mais, as pessoas são tratadas como funções produtivas e não como indivíduos com circunstâncias variáveis.
Curiosamente — e isto merece ser dito com alguma cautela — esse tipo de gesto não tende a gerar abuso. Pelo contrário. Em vários casos, os alunos permanecem, tornam-se mais fiéis e não voltam a repetir a situação. Como se a confiança, quando é real, convocasse responsabilidade.
O mesmo acontece ao nível da organização das aulas.
Ao abdicar de um controlo rígido — com aulas avulsas e responsabilidade partilhada na gestão de faltas e recuperações — pode surgir um grupo mais estável e comprometido. Parte-se de um princípio simples: estamos a lidar com adultos. Pessoas capazes de gerir o seu tempo sem necessidade de vigilância constante. E, de forma algo inesperada, os alunos que antes eram mais rígidos — quase obsessivos em “não perder aulas” — acabam por relaxar. Não no sentido de abandono, mas no sentido de aliviar a pressão. A prática deixa de ser uma obrigação contabilística e volta a ser uma escolha.
Nada disto constitui um modelo universal. Nem há evidência empírica robusta que permita generalizar estas experiências. Mas há, pelo menos, um dado relevante: quando Yama e Niyama deixam de ser apenas conceitos e passam a informar decisões concretas — pedagógicas, relacionais e até económicas —, o impacto pode ir além da prática individual.
E talvez seja aqui que a questão inicial encontra uma resposta possível.
Yama e Niyama não cabem numa aula de 60 minutos como conteúdo. Mas podem atravessar essa aula como intenção. Na forma como se orienta uma postura. Na forma como se fala. Na forma como se organiza um espaço. E até na forma como se lida com dinheiro, faltas e imprevistos.
Menos discurso. Menos incenso. Mais coerência.
Com algum humor, o paradoxo mantém-se: estamos a tentar viver princípios éticos milenares num sistema moderno feito de rendas, impostos e horários fixos.
Mas, ocasionalmente, ao ajustar pequenas decisões — dentro e fora do tapete — talvez nos aproximemos um pouco mais daquilo que o Yoga, pelo menos em teoria, propõe.
Vic