Título original: Ensaios para Yogues Nômades: Livro I
Autor: Roberto Serafim Simões
Ano da primeira edição: 2024
Editora da primeira edição: Yoga Contemporâneo
Local da primeira edição: Florianópolis, Brasil
Idioma original: Português (Brasil)
Ensaios para Yogues Nômades propõe pensar o Yoga contemporâneo a partir de uma posição deliberadamente crítica em relação a ideias rígidas de tradição, autenticidade e identidade.
A expressão “yogue nómada” não se refere simplesmente ao asceta indiano itinerante. Simões utiliza a imagem do nomadismo também num sentido filosófico: o yogue contemporâneo é alguém que atravessa diferentes territórios culturais, filosóficos, religiosos e corporais sem precisar de se fixar definitivamente numa única narrativa sobre aquilo que o Yoga “é”.
Esta perspetiva encontra paralelo no trabalho pedagógico do autor, onde aparecem temas como dualismo e monismo, construção social da realidade, sociedade capitalista, corpo, desejo, “corpo sem órgãos”, pensamento nómada e diferentes formas de existência yóguica.
O livro questiona, assim, formas de Yoga que procuram legitimar-se através de discursos de pureza ou continuidade absoluta com uma tradição antiga e chama a atenção para os processos de transformação, apropriação, tradução e reconstrução pelos quais o Yoga sempre passou.
A obra é especialmente importante porque aborda o Yoga a partir do contexto latino-americano e brasileiro, em vez de repetir exclusivamente narrativas construídas na Índia, Europa ou Estados Unidos.
Roberto Simões tem desenvolvido investigação precisamente sobre os Yogas no Brasil, a relação entre Yoga, ciência, religião e medicina e os processos através dos quais práticas yóguicas são reinterpretadas em contextos modernos. A sua produção académica inclui estudos sobre a autenticidade dos Yogas contemporâneos de matriz não indiana, Yoga esotérico latino-americano e ressignificação biomédica do corpo yóguico.
Ensaios para Yogues Nômades prolonga essas questões num formato mais ensaístico e filosófico.
O livro é particularmente interessante porque recusa a ideia de que a transformação cultural seja necessariamente sinal de degeneração do Yoga. Em vez disso, convida a perguntar quem define o que é autêntico, quais relações de poder estão envolvidas nessa definição e de que forma novos contextos produzem novas maneiras de “yogar”.
O interesse de Ensaios para Yogues Nômades para os Estudos do Yoga é muito elevado, sobretudo nas áreas de Yoga moderno, Yoga contemporâneo e estudos latino-americanos do Yoga. A obra é particularmente útil para questionar conceitos de autenticidade, tradição e linhagem e para compreender que o Yoga contemporâneo não é apenas o resultado da transmissão de práticas indianas para o Ocidente, mas de processos contínuos de adaptação, disputa e produção de novos significados. Também oferece uma perspetiva pouco representada na bibliografia internacional: a experiência brasileira e latino-americana como lugar legítimo de produção de formas próprias de Yoga. Para uma biblioteca dedicada não apenas às fontes históricas, mas também às transformações modernas e contemporâneas do Yoga, eu consideraria este livro bastante importante, sobretudo quando colocado em diálogo com autores como Mark Singleton, Sarah Strauss, Joseph Alter, Andrea Jain, Suzanne Newcombe e Daniela Bevilacqua.
O subtítulo Livro I indica explicitamente que a obra foi concebida como parte de um projeto mais amplo e não necessariamente como volume isolado.
Outra curiosidade está na própria utilização de “nómade”. No projeto pedagógico Yoga Contemporâneo, Simões relaciona esta ideia com filosofia contemporânea e, em particular, com noções como pensamento nómada e “corpo sem órgãos”, associadas a Gilles Deleuze e Félix Guattari. O seu curso inclui inclusivamente conteúdos intitulados “Gilles Deleuze e o Pensamento Nômade”, “Desejo em Yogis Não-Duais (monistas ou ‘nômades’)” e “Como Criar para Si um Corpo Sem Órgãos”.
Ao mesmo tempo, Simões coloca esse nomadismo filosófico em diálogo com os próprios ascetas itinerantes indianos. Num dos seus grupos de estudo, propõe comparar yogins contemporâneos com sādhus errantes, recorrendo a investigadores como Daniela Bevilacqua, Adrián Muñoz, James Mallinson e Jason Birch.
Isto ajuda a perceber que “yogues nómadas” funciona em vários níveis: histórico, social, filosófico e metafórico.
Ensaios para Yogues Nômades deve ser entendido como uma obra ensaística e crítica, e não como uma monografia histórica ou filológica sobre fontes antigas do Yoga. Simões dialoga com Ciências da Religião, filosofia contemporânea, estudos do corpo e investigação sobre Yoga moderno, mas assume também uma posição interpretativa própria. O livro é particularmente pertinente para debates sobre autenticidade, tradição, corpo, modernidade e transformação cultural. Para investigação histórica sobre Yoga antigo ou medieval, deve naturalmente ser complementado por estudos filológicos específicos; para compreender os debates contemporâneos sobre Yoga no Brasil e na América Latina, porém, constitui uma contribuição especialmente relevante.
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