Título original: Meditação A Liberdade Silenciosa
Subtítulo: Da mindfulness ao despertar da consciência
Autor: Paulo Borges
Ano da primeira edição: 2017
Editora da primeira edição: Edições Mahatma
Local da primeira edição: Lisboa, Portugal
Idioma original: Português
O livro analisa a meditação num momento em que práticas de origem sobretudo asiática, em particular budistas, passaram a ocupar um lugar cada vez mais importante na cultura ocidental.
Paulo Borges começa por enquadrar historicamente a meditação, discutindo a sua presença não apenas nas tradições asiáticas, mas também na Antiguidade greco-latina e no Cristianismo. Dedica depois particular atenção ao Budismo e à redescoberta moderna das práticas contemplativas.
Uma parte central do livro é dedicada à mindfulness. O autor reconhece as suas potencialidades, mas questiona a transformação da meditação numa técnica isolada do contexto ético, filosófico e espiritual em que tradicionalmente se desenvolveu.
Borges contrapõe, assim, aquilo que entende como uma meditação orientada para o despertar da consciência a formas de prática que podem ser utilizadas apenas para melhorar desempenho, reduzir desconforto ou tornar o indivíduo mais funcional dentro das mesmas estruturas sociais que produzem ansiedade, aceleração e cansaço.
O livro termina com uma dimensão prática, propondo reflexões e exercícios meditativos associados ao projeto O Coração da Vida.
A importância da obra está sobretudo na crítica à apropriação contemporânea da meditação como simples técnica de bem-estar.
Paulo Borges não rejeita a mindfulness, mas questiona aquilo que acontece quando ela é separada do contexto mais amplo de transformação da consciência, ética, compaixão e sabedoria.
Um dos temas mais interessantes do livro é precisamente a tensão entre duas possibilidades: a meditação pode contribuir para uma transformação profunda da relação consigo próprio e com o mundo, mas também pode ser convertida numa mercadoria ou numa ferramenta destinada apenas a adaptar melhor o indivíduo às exigências da sociedade contemporânea. A própria editora resume a proposta do livro como uma tentativa de distinguir entre uma meditação que “desperta” e uma meditação instrumentalizada pela cultura dominante.
O interesse de Meditação, a Liberdade Silenciosa para os Estudos do Yoga é moderado a elevado, sobretudo para estudar práticas contemplativas contemporâneas e a forma como técnicas provenientes de tradições asiáticas são reinterpretadas no Ocidente. O livro não é especificamente dedicado ao Yoga e o seu enquadramento principal é budista e filosófico, mas questões como meditação, atenção, consciência, transformação interior, ética e relação entre prática tradicional e cultura contemporânea são igualmente centrais para a história recente do Yoga. É particularmente útil para pensar criticamente processos semelhantes aos ocorridos com o Yoga moderno: secularização, adaptação terapêutica, comercialização, separação entre técnica e contexto religioso e transformação de práticas de libertação em instrumentos de bem-estar. Nesse sentido, funciona muito bem como obra complementar numa secção dedicada à meditação, mindfulness e práticas contemplativas contemporâneas.
A estrutura do livro mostra claramente a progressão do argumento. A primeira parte é dedicada à redescoberta da meditação entre Oriente e Ocidente; a segunda aborda a sociedade contemporânea, a aceleração e a necessidade de recuperar uma dimensão contemplativa da existência; a terceira centra-se nas ambiguidades da mindfulness; e a quarta apresenta O Coração da Vida, com reflexões e práticas meditativas.
O livro retoma e desenvolve questões que Paulo Borges já havia introduzido em O Coração da Vida: Visão, meditação, transformação integral, publicado em 2015. O próprio autor descreve Meditação, a Liberdade Silenciosa como um desenvolvimento da reflexão iniciada nessa obra anterior.
É também interessante que o livro tenha sido publicado em 2017, precisamente num período em que mindfulness já se encontrava amplamente integrada em contextos de saúde, empresas, educação e desenvolvimento pessoal, tornando particularmente atual a crítica do autor à sua possível descontextualização.
Meditação, a Liberdade Silenciosa não é uma monografia académica no sentido estrito nem uma investigação histórica da meditação. Trata-se de um ensaio filosófico e contemplativo em que Paulo Borges combina reflexão crítica sobre a cultura contemporânea com elementos provenientes sobretudo do Budismo e das tradições meditativas. A sua análise da mindfulness insere-se num debate académico e cultural mais vasto sobre a secularização, medicalização e comercialização das práticas contemplativas. Para uma utilização académica, é importante distinguir entre as posições filosóficas defendidas pelo autor e os resultados de investigação histórica, psicológica ou neurocientífica sobre meditação.
Português — idioma original
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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