Religion, Espirituality and Public Health

Religion, Espirituality and Public Health

Título original: Religion, Espirituality and Public Health

Subtítulo: Competing and Complementary Epistemes

Autor: Karen O’Brien-Kop & Suzanne Newcombe

Ano da primeira edição: 2025

Editora da primeira edição: The British Academy, em colaboração com a Liverpool University Press

Local da primeira edição: Liverpool, Reino Unido

Idioma original: Inglês

Existe edição em língua portuguesa? Não

Resumo

Religion, Spirituality, and Public Health: Competing and Complementary Epistemes é uma obra interdisciplinar dedicada às diferentes formas através das quais indivíduos e comunidades constroem conhecimento sobre saúde, doença, cura e bem-estar. O conceito central do livro é o de episteme, entendido, de forma geral, como um modo de conhecer, estabelecer a verdade e justificar determinadas decisões ou práticas.

O volume toma a pandemia de COVID-19 como um contexto privilegiado para analisar os encontros e conflitos entre conhecimento biomédico, crenças religiosas, experiências espirituais, medicinas tradicionais, terapias complementares e discursos difundidos através da Internet. As editoras argumentam que os períodos de crise tornam particularmente visíveis as diferentes conceções de verdade e autoridade que orientam as decisões individuais e coletivas sobre a saúde.

A obra não se limita a confrontar ciência e religião como dois domínios necessariamente incompatíveis. Os diferentes estudos de caso mostram relações de oposição, negociação, adaptação e complementaridade. A medicina biomédica ocupa uma posição institucional dominante, mas as suas recomendações são interpretadas de maneiras diversas de acordo com contextos culturais, religiosos, políticos e sociais. Simultaneamente, o livro examina criticamente as reivindicações de autoridade produzidas dentro de ambientes espirituais e de saúde alternativa.

Os capítulos analisam assuntos como as epistemologias da religião vivida, a hesitação vacinal, as teorias de conspiração difundidas na Internet, a medicina Siddha no sul da Índia, as relações entre autoridade religiosa e medicina moderna no Irão, as práticas de cura entre comunidades pentecostais africanas no Reino Unido, o xamanismo coreano, as religiões afro-brasileiras, os efeitos placebo, o conceito chinês de , a meditação daoista, as terapias psicadélicas, o Yoga e as estratégias através das quais diferentes práticas procuram adquirir legitimidade científica.

Porque é importante

A primeira parte, intitulada “Nuancing Concepts in Health Epistemology”, apresenta o enquadramento teórico do volume. O capítulo introdutório, escrito conjuntamente por Suzanne Newcombe e Karen O’Brien-Kop, analisa as relações entre religião, ciência e verdade durante uma crise de saúde pública. O capítulo seguinte, da autoria de Karen O’Brien-Kop, propõe uma filosofia pluriversal da religião vivida e examina como crenças, experiências corporais e conceções de racionalidade influenciam as decisões relacionadas com a saúde.

A segunda parte aborda ontologias concorrentes e diferentes interpretações da verdade, incluindo espiritualidades transreligiosas, bem-estar, COVID-19, hesitação vacinal, QAnon e políticas da crença. A terceira examina as relações entre poder, autoridade e conhecimento através de estudos sobre medicina tradicional na Índia e sobre o encontro entre autoridade clerical e medicina moderna no Irão.

A quarta parte é dedicada a formas pragmáticas de complementaridade entre religião, espiritualidade e saúde. Inclui estudos sobre cura pentecostal em comunidades africanas residentes no Reino Unido, conceções de doença no musokcoreano e tecnologias espirituais de cura nas religiões afro-brasileiras.

A última parte analisa estratégias de aproximação entre experiência pessoal e investigação biomédica. São discutidos os efeitos placebo, o , a intenção, a meditação daoista em contextos psicadélicos e as reivindicações de conhecimento associadas ao Yoga e às medicinas indianas. O volume termina com uma reflexão de Chakravarthi Ram-Prasad sobre as distinções entre epistemes, epistemologias e saúde pública.

Interesse para o estudo do Yoga

A importância do livro encontra-se na sua tentativa de compreender por que razão diferentes pessoas respondem de formas tão distintas às recomendações de saúde pública. Em vez de reduzir essas diferenças à oposição simplista entre pessoas racionais e irracionais, os autores investigam os sistemas de conhecimento, valores, experiências e relações de confiança que fundamentam cada decisão.

Esta abordagem não significa que todas as afirmações sobre saúde sejam consideradas igualmente verdadeiras ou eficazes. O reconhecimento da diversidade epistemológica não elimina a necessidade de avaliar evidências, riscos, resultados clínicos e possíveis danos. O contributo da obra consiste precisamente em mostrar que a eficácia de uma política de saúde pública depende não apenas da qualidade dos dados científicos, mas também da forma como esses dados são comunicados, recebidos e interpretados em diferentes comunidades.

O volume é também importante por analisar criticamente tanto a autoridade biomédica como as estratégias de legitimação utilizadas por movimentos religiosos, espirituais e terapêuticos. Em vez de apresentar um modelo no qual a biomedicina está sempre correta e as práticas alternativas estão sempre erradas, ou o contrário, os autores procuram compreender como as diferentes reivindicações de conhecimento são construídas e como devem ser avaliadas.

Curiosidade bibliográfica

A obra possui um interesse direto para os Estudos do Yoga, sobretudo através do capítulo de Suzanne Newcombe intitulado “The Importance of Interrogating the Experiential Episteme: Yoga, Indian Medicine and Rhetorical Strategies of Epistemic Capital”. O capítulo ocupa as páginas 246 a 271 e analisa o valor atribuído à experiência pessoal como forma de conhecimento nas comunidades de Yoga e de medicina indiana.

Newcombe examina a maneira como expressões como “funcionou comigo”, “é uma sabedoria antiga” ou “a ciência está finalmente a comprovar aquilo que o Yoga sempre soube” podem ser utilizadas para conferir autoridade a uma prática. A experiência pessoal pode fornecer informações relevantes sobre sensações, bem-estar e significado subjetivo, mas não permite, por si só, estabelecer relações clínicas de causa e efeito nem demonstrar que uma intervenção será segura e eficaz para todas as pessoas.

O conceito de “capital epistémico” ajuda a compreender como indivíduos, professores e instituições adquirem autoridade para falar sobre saúde. No Yoga, essa autoridade pode resultar de uma linhagem, de uma viagem à Índia, de muitos anos de prática, de um título tradicional, de uma certificação profissional ou da utilização seletiva de vocabulário científico. O capítulo convida a analisar como essas formas de autoridade são construídas e quais os limites do conhecimento que efetivamente sustentam.

O estudo aborda ainda a participação de alguns praticantes e influenciadores de Yoga em movimentos de oposição às medidas de saúde pública durante a pandemia de COVID-19. Newcombe observa que certos ambientes ligados ao Yoga e ao bem-estar difundiram teorias alternativas sobre a origem do vírus, as vacinas e a autoridade das instituições médicas. A autora não apresenta estas posições como representativas de todos os praticantes, mas procura explicar como a valorização da intuição, da experiência individual, da “imunidade natural” e da desconfiança em relação às instituições pode favorecer a circulação de informações sem sustentação adequada.

Para a Saṃsāra, este livro é especialmente pertinente porque permite distinguir os benefícios subjetivos relatados pelos praticantes das afirmações clínicas que exigem investigação científica. Ajuda também a compreender por que razão o Yoga moderno é frequentemente apresentado simultaneamente como prática espiritual, método terapêutico, forma de exercício físico e intervenção de saúde pública.

Nota académica

O livro utiliza conceitos como episteme, epistemologia, ontologia e conhecimento experiencial. Estes termos não são inteiramente equivalentes. Uma episteme pode designar uma estrutura ou modo culturalmente situado de produzir conhecimento, enquanto epistemologia se refere à reflexão sistemática sobre a natureza, as fontes e a justificação do conhecimento. O capítulo final de Chakravarthi Ram-Prasad chama precisamente a atenção para a necessidade de conservar estas distinções conceptuais.

Também é necessário evitar uma interpretação relativista da obra. Reconhecer que as pessoas constroem conhecimento dentro de diferentes contextos religiosos e culturais não implica aceitar que todas as alegações médicas possuem o mesmo valor. Uma experiência pessoal pode ser autêntica e significativa para quem a vive sem constituir evidência suficiente da eficácia clínica de uma prática.

Da mesma forma, a crítica à hegemonia biomédica não deve ser confundida com uma rejeição da medicina baseada em evidências. O livro mostra que instituições médicas e governamentais também são atravessadas por relações de poder, interesses económicos e desigualdades sociais. No entanto, a avaliação de uma intervenção de saúde continua a exigir métodos adequados, transparência, análise de riscos e possibilidade de revisão dos resultados.

No contexto do Yoga, esta distinção é fundamental. Afirmações sobre relaxamento, significado pessoal ou perceção subjetiva de bem-estar não têm o mesmo estatuto que alegações segundo as quais uma postura, técnica respiratória ou meditação pode prevenir, tratar ou curar uma doença específica. Estas últimas exigem evidência clínica proporcional à afirmação realizada.

Disponibilidade

Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga