Espiritualidade à la carte:
Yoga, mantras e selfies

Há um slogan que aparece em quase todas as publicidades de aulas de Yoga no Ocidente, dita com ar sereno e música ambiente: “o Yoga é espiritual”. Todos acenam com a cabeça, como se isso explicasse tudo. Mas… explica mesmo?
Se formos com calma — e sem incenso — percebemos que esta distinção entre espiritualidade e religião não é assim tão antiga nem tão clara. O próprio universo académico nunca chegou a um consenso absoluto. Autores como Émile Durkheim explicavam a religião como um sistema organizado de crenças e rituais, enquanto outros, como Clifford Geertz, olhavam para ela como uma teia de significados culturais. Já “espiritualidade”, tal como hoje se usa, é quase o oposto: algo individual, flexível, sem regras rígidas — uma espécie de “faça você mesmo” interior.
O problema? Esta separação é muito mais ocidental do que indiana.
Na Índia pré-moderna, não havia propriamente esta necessidade de separar o que é “espiritual” do que é “religioso”. Essa divisão surge mais tarde, em grande parte com movimentos de reforma e adaptação ao olhar ocidental, como o Neo-Vedanta, que procuraram apresentar certas práticas como universais, filosóficas e compatíveis com qualquer pessoa — incluindo europeus do século XIX que torciam o nariz a “religiões exóticas”.
E já que falamos disso, convém esclarecer outra coisa: o próprio termo “hindu” não nasceu dentro daquilo que hoje chamamos “Hinduísmo”. Veio de fora. Deriva de uma palavra persa usada para designar quem vivia para lá do rio Indo. Só mais tarde, durante o período colonial britânico, passou a ser usado como rótulo religioso, agregando tradições extremamente diversas sob uma mesma etiqueta. Investigadores como Brian K. Smith ou David N. Lorenzen mostram precisamente isso: não estamos perante uma religião única e uniforme, mas uma construção que também serviu propósitos administrativos e políticos.
Ou seja, quando hoje dizemos que o Yoga é “espiritual” e vem do “Hinduísmo”, estamos já a simplificar — e bastante.
E, no entanto, entramos numa aula de Yoga em Portugal e encontramos: mantras, cakras, nāḍīs, deuses, avatar, corpo sutil … tudo apresentado como parte natural da prática espiritual. Tudo perfeitamente integrado. Tudo… curiosamente pouco frequentado por indianos.
E aqui entra a pergunta desconfortável (e ligeiramente irónica): se o Yoga é assim tão espiritual — e se essa espiritualidade vem de tradições maioritariamente indianas — onde estão os indianos nas aulas?
Não, não é porque “não sabem o que é Yoga”. Nem porque “não valorizam a espiritualidade”. A questão é bem mais simples — e talvez mais incómoda.
O Yoga que se pratica hoje no Ocidente é, em grande medida, uma versão transformada. Muitas vezes centrada no corpo, no bem-estar, na gestão de stress. “Um lindo par de óculos de sol cor-laranja” – como eu costumo dizer. Uma prática legítima, sim — mas já distante de vários dos seus contextos históricos. Para muitas pessoas indianas, aquilo que no Ocidente se chama “Yoga espiritual” pode não fazer sentido para eles.
E aqui surge o detalhe delicioso: se o Yoga é espiritual, então por que motivo cada aula tem um preço? Não há vouchers de iluminação, nem descontos de grupo para transcendência? É “1 aula, 15€, transcendência extra 10€”. Espiritualidade à la Carte — com recibo e pagamento por MBWAY ou Multibanco. Uma contradição que não passa despercebida, nem aos mais zen.
Em Portugal, não faltam comunidades indianas. Mas também não há templos em cada esquina — nem aulas de Yoga que reflitam necessariamente as suas práticas culturais. Porque o Yoga praticado na Índia não é o mesmo Yoga que se encontra por aqui. O que existe, muitas vezes, é uma versão reinterpretada, filtrada, ensaiada, modificada e temperada com sabores ocidentais. Um Yoga que fala de chakras, de energia sutil… mas em português, com música do Spotify, luz de vela, incensos, leggings de marca, tapete fancy e cartão de multibanco à mão. E claro, o ritual obrigatório: um Añjali Mudrā e um namastê teatral à entrada e à saída, acompanhado de sorrisos amplos, como se isso fosse canalizar toda a energia do universo.
Nada disso é, por si só, errado. O problema começa quando se apresenta essa versão como “A” espiritualidade do Yoga — universal, intemporal, quase obrigatória, sem contradição aceita!
E já que falamos de “espiritualidade”, convém tocar num detalhe que não costuma aparecer nos manuais de Yoga para o Ocidente: o vestuário. Se o Yoga é espiritual, se é sobre introspecção, consciência e conexão interior… então por que razão muitas aulas parecem mais um desfile de Instagram do que um espaço de prática? Algumas participantes usam roupas que desafiam a gravidade e, claro, há sempre quem tira uma fotografia a fazer um Asana em biquíni ou fio dental para o feed das redes sociais, como se o Samadhi ou Kaivalya fosse garantida pela complexidade da postura. Para uma prática que supostamente busca elevação da consciência, não seria razoável que a roupa fosse escolhida para o conforto nos movimentos — e, de preferência, sem transformar a aula num espetáculo para a população masculina? A contradição é quase tão evidente quanto o recibo de pagamento à saída.
Talvez o mais honesto seja reconhecer que estamos perante uma prática em constante transformação. Que o Yoga que hoje se ensina em Lisboa não é o mesmo que foi sistematizado por Patañjali, nem o mesmo que é vivido por milhões de pessoas na Índia contemporânea. E que chamar-lhe apenas “espiritual” pode ser mais uma forma de simplificar do que de esclarecer. A falta de conhecimento histórico/cultural/filosófico do Instrutor, disfarçada com Anjali Mudras e Japamala a volta do pescoço. Dai a urgência de mais formações, workshops, módulos com base em pesquisas académicas internacionais atualizadas e não palpites e gostos pessoais.
No fim, a pergunta mantém-se — não como crítica, mas como convite à reflexão: quando falamos de espiritualidade no Yoga, estamos a falar de uma tradição… ou de um negócio com mantra incluído?
Vic