Espiritualidade sem ética é só abuso com incenso
Como confiança, devoção e silêncio podem abrir caminho para comportamentos abusivos no Yoga contemporâneo
O Yoga promete libertação. Mas, curiosamente, há quem saia das aulas mais preso do que entrou.
Não ao corpo — esse até alonga — mas a ideias, a figuras, a dinâmicas que ninguém explicou no início da aula. Porque entre o “inspira profundamente” e o “entrega-te ao processo”, raramente aparece um aviso essencial: atenção à pessoa que está à tua frente.
A figura do mestre espiritual continua a exercer um fascínio quase automático. Fala devagar, usa palavras em sânscrito, mantém contacto visual prolongado — pronto, autoridade instalada. E, de repente, um instrutor com 200 ou 300 horas de formação transforma-se, na perceção de alguns alunos, numa espécie de guia existencial com acesso privilegiado à verdade.
O problema não é o Yoga. É o que se constrói à volta dele.
E os exemplos não são poucos — nem propriamente escondidos.
Bikram Choudhury construiu um império global com salas aquecidas e um ego à mesma temperatura. Durante anos, foi tratado como génio. Depois surgiram várias acusações e ações judiciais. Em 2016, um júri atribuiu à sua antiga assessora jurídica cerca de 7,4 milhões de dólares por assédio, discriminação, retaliação e despedimento abusivo. Mais tarde, foi emitido um mandado de detenção relacionado com o incumprimento do pagamento. Ainda assim, continua a ter seguidores. Porque no Yoga, ao que parece, a flexibilidade também se aplica à memória.
O caso de Pattabhi Jois é mais desconfortável. Diversas mulheres relataram publicamente toques sexualmente inapropriados, apresentados durante anos como ajustes de posturas. Como Jois morreu em 2009, estas acusações nunca foram apreciadas num processo judicial. A comunidade dividiu-se entre o reconhecimento dos abusos relatados e a defesa do legado do mestre. E, no meio, permanece a pergunta que ninguém gosta de fazer: porque é que isto não foi questionado antes?
Talvez porque questionar um “guru” ainda soa, para alguns, a falta de evolução espiritual. O que é curioso, porque em qualquer outro contexto isso se chamaria… pensamento crítico.
Entretanto, organizações como a Sivananda Yoga Vedanta Centers também foram alvo de denúncias envolvendo líderes históricos. Mais uma vez, relatos, investigações, negações. O padrão repete-se com uma consistência quase zen.
No Brasil, uma investigação da Agência Pública sobre Uberto Gama, fundador da Vidya Yoga, reuniu testemunhos e documentos relativos a alegados crimes sexuais, violência psicológica, tortura, hierarquias rígidas e controlo sobre a vida dos discípulos. Gama foi preso preventivamente e a sua defesa negou as acusações. Mais uma vez, reaparecem o segredo, a obediência e a promessa de evolução espiritual como instrumentos de poder. Quando histórias diferentes começam a apresentar a mesma estrutura, talvez já não estejamos perante simples coincidências.
E não, isto não é “lá fora”.
Em Portugal, o caso de Jorge Veiga e Castro foi amplamente noticiado. A Polícia Judiciária declarou ter encontrado fortes indícios de crimes de violação e coação sexual, mas o Ministério Público arquivou o inquérito por as queixas terem sido apresentadas depois de terminado o prazo legal então aplicável. Traduzindo: os factos não chegaram a ser julgados. Não houve condenação, mas o arquivamento também não correspondeu a uma absolvição quanto ao mérito das acusações.
Mas se alguém ainda acha que isto são “casos isolados”, convém olhar para algo maior.
Osho construiu um movimento global com uma proposta aparentemente libertadora: menos repressão, mais consciência, mais liberdade — incluindo sexual. Parecia moderno. Parecia progressista. Parecia… conveniente.
Depois veio Ma Anand Sheela. E com ela, vigilância ilegal, manipulação política e o célebre 1984 Rajneeshee bioterror attack. Um pequeno detalhe na história de uma comunidade espiritual: contaminar comida para influenciar eleições.
Osho negou responsabilidade direta. E aqui começa a parte interessante: até que ponto um líder é responsável pelo que acontece dentro de uma estrutura construída à sua volta? Não há consenso. Mas há uma constante: quando o poder se concentra, a responsabilidade tende a dispersar-se.
Do ponto de vista académico, isto não é surpreendente. Max Weber já descrevia há mais de um século a chamada autoridade carismática: líderes que não precisam de regras formais porque a sua legitimidade vem da perceção dos seguidores. O problema? Esse tipo de autoridade não costuma vir com mecanismos de controlo.
E no Yoga contemporâneo, isso encaixa demasiado bem.
Uma linguagem bonita — “entrega”, “confiança”, “devoção” — combinada com ausência de regulação, formações inconsistentes e uma procura quase desesperada por sentido. Resultado: um terreno fértil para abusos que não parecem abusos… até ser tarde demais.
Depois há a desculpa favorita: “é cultural”.
Não, não é.
As tradições clássicas do Yoga falam de ahiṃsā e brahmacarya. Nada disso sugere que ultrapassar limites físicos ou emocionais seja aceitável. A ideia de que “no Oriente é diferente” é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, uma estratégia conveniente.
Dito de forma simples: não é espiritualidade. É poder com vocabulário exótico.
E poder, quando não é questionado, raramente se comporta bem.
No meio disto tudo, há uma ironia quase perfeita: práticas que prometem autonomia podem criar dependência. Discursos sobre consciência podem silenciar desconforto. E a palavra “entrega” — repetida vezes sem conta — pode deixar de ser escolha para se tornar pressão.
O Yoga não precisa de ser salvo.
Mas talvez precise, urgentemente, de ser observado com menos reverência e mais lucidez.
Vic
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