Espiritualidade sem ética é só abuso com incenso

Como confiança, devoção e silêncio podem abrir caminho para comportamentos abusivos no Yoga contemporâneo

hand reaching home altar
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O Yoga promete libertação. Mas, curiosamente, há quem saia das aulas mais preso do que entrou.

Não ao corpo — esse até alonga — mas a ideias, a figuras, a dinâmicas que ninguém explicou no início da aula. Porque entre o “inspira profundamente” e o “entrega-te ao processo”, raramente aparece um aviso essencial: atenção à pessoa que está à tua frente.

A figura do mestre espiritual continua a exercer um fascínio quase automático. Fala devagar, usa palavras em sânscrito, mantém contacto visual prolongado — pronto, autoridade instalada. E, de repente, um instrutor com 200 ou 300 horas de formação transforma-se, na perceção de alguns alunos, numa espécie de guia existencial com acesso privilegiado à verdade.

O problema não é o Yoga. É o que se constrói à volta dele.

E os exemplos não são poucos — nem propriamente escondidos.

Bikram Choudhury construiu um império global com salas aquecidas e um ego à mesma temperatura. Durante anos, foi tratado como génio. Depois vieram os processos por assédio sexual, decisões judiciais, indemnizações milionárias — e uma saída estratégica dos Estados Unidos. Ainda assim, continua a ter seguidores. Porque no Yoga, ao que parece, a flexibilidade também se aplica à memória.

O caso de Pattabhi Jois é mais desconfortável. Não porque haja consenso — não há — mas precisamente porque não há. Testemunhos de toques inapropriados durante décadas, revelados após a sua morte, dividiram a comunidade. Uns chamam “ajustes tradicionais”. Outros chamam outra coisa. E no meio, a pergunta que ninguém gosta: porque é que isto não foi questionado antes?

Talvez porque questionar um “guru” ainda soa, para alguns, a falta de evolução espiritual. O que é curioso, porque em qualquer outro contexto isso se chamaria… pensamento crítico.

Entretanto, organizações como a Sivananda Yoga Vedanta Centers também foram alvo de denúncias envolvendo líderes históricos. Mais uma vez, relatos, investigações, negações. O padrão repete-se com uma consistência quase zen.

No Brasil, o caso de DeRose — divulgado pela Agência Pública — trouxe descrições de controlo psicológico, hierarquias rígidas e relações assimétricas. Tudo alegado, tudo contestado. E, no entanto, familiar. Porque quando diferentes histórias começam a soar iguais, talvez já não sejam coincidência.

E não, isto não é “lá fora”.

Em Portugal, o caso de Jorge Veiga e Castro foi amplamente noticiado. Denúncias de assédio sexual, investigações com indícios relevantes — e um processo arquivado por questões processuais. Traduzindo: não houve julgamento dos factos. Não houve condenação. Mas também não houve absolvição substantiva. Um daqueles finais jurídicos que deixam toda a gente desconfortável — exceto, talvez, quem beneficia do silêncio.

Mas se alguém ainda acha que isto são “casos isolados”, convém olhar para algo maior.

Osho construiu um movimento global com uma proposta aparentemente libertadora: menos repressão, mais consciência, mais liberdade — incluindo sexual. Parecia moderno. Parecia progressista. Parecia… conveniente.

Depois veio Ma Anand Sheela. E com ela, vigilância ilegal, manipulação política e o célebre 1984 Rajneeshee bioterror attack. Um pequeno detalhe na história de uma comunidade espiritual: contaminar comida para influenciar eleições.

Osho negou responsabilidade direta. E aqui começa a parte interessante: até que ponto um líder é responsável pelo que acontece dentro de uma estrutura construída à sua volta? Não há consenso. Mas há uma constante: quando o poder se concentra, a responsabilidade tende a dispersar-se.

Do ponto de vista académico, isto não é surpreendente. Max Weber já descrevia há mais de um século a chamada autoridade carismática: líderes que não precisam de regras formais porque a sua legitimidade vem da perceção dos seguidores. O problema? Esse tipo de autoridade não costuma vir com mecanismos de controlo.

E no Yoga contemporâneo, isso encaixa demasiado bem.

Uma linguagem bonita — “entrega”, “confiança”, “devoção” — combinada com ausência de regulação, formações inconsistentes e uma procura quase desesperada por sentido. Resultado: um terreno fértil para abusos que não parecem abusos… até ser tarde demais.

Depois há a desculpa favorita: “é cultural”.

Não, não é.

As tradições clássicas do Yoga falam de ahiṃsā e brahmacarya. Nada disso sugere que ultrapassar limites físicos ou emocionais seja aceitável. A ideia de que “no Oriente é diferente” é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, uma estratégia conveniente.

Dito de forma simples: não é espiritualidade. É poder com vocabulário exótico.

E poder, quando não é questionado, raramente se comporta bem.

No meio disto tudo, há uma ironia quase perfeita: práticas que prometem autonomia podem criar dependência. Discursos sobre consciência podem silenciar desconforto. E a palavra “entrega” — repetida vezes sem conta — pode deixar de ser escolha para se tornar pressão.

O Yoga não precisa de ser salvo.

Mas talvez precise, urgentemente, de ser observado com menos reverência e mais lucidez.

Vic

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