Iluminados de Teclado

A espiritualidade moderna entre o scroll, o julgamento e as causas obrigatórias

Há uma coisa que me fascina — e, confesso, às vezes me tira do sério — nos comentários das redes socais da Saṃsāra. Partilho um post institucional do ministério AYUESH sobre um āsana, onde num pequeno parágrafo aparece em inglês a palavra “paz interior”… e aparece sempre alguém, muito iluminado, que decide largar: “e a Palestina?”

E pronto. Lá se foi o zen.

Eu percebo a intenção, a sério que percebo. Mas há aqui qualquer coisa que me faz confusão. Desde quando é que falar de paz me obriga automaticamente a comentar todos os conflitos do mundo? Em que momento é que passámos a exigir que qualquer pessoa, em qualquer contexto, tenha uma opinião formada — e pública — sobre tudo?

Isto não é uma questão simples, e não há consenso nenhum. Há quem defenda que ficar em silêncio é ser cúmplice. E há quem diga — com alguma razão — que não podemos exigir opinião informada sobre temas complexos a toda a gente, o tempo todo. Eu, pessoalmente, ainda gosto da ideia de que posso escolher as minhas batalhas. Ainda acho que tenho esse direito.

E depois há o yoga… que, tanto quanto sei, não é sobre impor pensamentos a ninguém. Não é “tens de falar disto”, “tens de posicionar-te sobre aquilo”. Isso já começa a parecer mais um dogma moderno do que uma prática de consciência.

Mas o que mais me inquieta nem é isso.

É que, enquanto estamos todos muito preocupados em lembrar a Palestina nos comentários de um post de yoga, há coisas aqui ao lado que parecem não incomodar tanto. As nossas crianças, por exemplo. Escolas onde o bullying é quase banal, professores exaustos, pais cada vez menos presentes — não por falta de amor, mas por falta de tempo, de energia, de condições. Não será isto também uma forma de violência?

E os nossos velhotes? Aqueles que aparecem nas notícias de vez em quando — maus-tratos em lares, abandono, reformas que mal chegam para viver com dignidade. Mas esses não aparecem nos comentários dos posts de yoga. Não geram a mesma urgência moral. Não são “tema”.

E eu pergunto-me, com toda a honestidade: porquê?

Será porque a Palestina — tal como o Irão, o Venezuela, Cuba e a Ucrânia — está nos telejornais como se fosse uma verdadeira lavagem cerebral quotidiano? Será porque são causas globais, mediáticas, quase obrigatórias? E aquilo que é silencioso, quotidiano, estrutural… fica fora do radar?

Eu não tenho respostas fechadas. E, mais importante, não tenho conhecimento suficiente para comentar em profundidade conflitos internacionais. E isso, para mim, devia ser legítimo dizer. Não saber também é uma posição honesta.

Mas sei uma coisa: não aceito a ideia de que sou obrigada a falar sobre determinado tema só porque alguém decidiu que sim. Não tenho essa obrigação. Ainda vivo numa sociedade onde — pelo menos espero — posso escolher onde coloco a minha atenção, a minha energia, a minha voz.

E posso, sim, dizer em voz alta: e as nossas crianças? E os nossos velhotes? E todas as outras formas de violência que não são trending, que não passam em loop nos noticiários, mas que existem todos os dias, à nossa frente?

Isto não é desvalorizar o sofrimento dos outros. Era preciso muito pouco para perceber isso. É só recusar uma lógica um bocadinho simplista onde só conta o que está em destaque.

O yoga, pelo menos como eu o entendo, não é sobre seguir agendas nem repetir slogans. É sobre consciência. E consciência não se impõe — constrói-se.

Por isso não, não tenho de falar da Palestina.

Mas tenho, sim, de pensar. E, se possível, agir — começando pelo que está mais perto de mim.

Vic

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