Victoria Texier com um grupo de mulheres em Vasai, na Índia

Do terraço às fontes

A minha paixão pelo Yoga não nasceu de um plano estratégico nem de uma tendência de mercado. Nasceu de uma circunstância muito menos romântica: uma prescrição médica. Foi desse percurso que, anos mais tarde, nasceu a Samsara Yoga Online, atualmente Saṃsāra Centro de Estudos de Yoga.

Em 2011, na Índia, o meu médico de família, o Dr. Sutharia, foi direto ao assunto. Eu tinha duas hérnias discais, estava torta e sentia dores constantes. A recomendação foi clara, sem rodeios nem linguagem espiritual: “Tem de praticar Yoga”. Não houve promessa de transformação interior, nem discurso sobre cakra, nāḍī ou iluminação. Houve apenas a constatação de que o corpo precisava de movimento, disciplina e atenção.

E foi assim que tudo começou.

O terraço, as vizinhas e o Yoga sem ornamentos

A minha prática inicial não aconteceu em estúdios sofisticados nem em retiros silenciosos. Aconteceu no terraço do meu prédio, em Dhanraj Park, no edifício Dhanshree, onde eu vivia, em Vasai West. Praticava às 4h30 com as minhas vizinhas — mulheres comuns, com rotinas exigentes, responsabilidades familiares e corpos cansados, para quem o dia começava cedo.

Não havia tapetes de Yoga. Havia toalhas de banho estendidas no chão, usadas com a naturalidade de quem resolve com aquilo que tem. Vestíamos kurtas, saris e roupa do quotidiano, sem logótipos de marcas famosas. O Yoga não era apresentado como identidade nem como estética; era apenas algo que se praticava.

Nenhuma de nós se apresentava como “praticante espiritual”. Não se falava de deuses, energias ou intenções. Não se cantavam mantras nem se explicavam conceitos. Havia respiração, repetição e atenção suficientes para que o corpo, pouco a pouco, encontrasse alguma estabilidade. E isso bastava.

Sem o saber, aquela prática simples já continha algo essencial daquilo que, mais tarde, eu viria a reconhecer como saṃsāra: a experiência concreta dos ciclos, da repetição e da continuidade sem garantias. Não havia promessa de chegada — apenas a necessidade de recomeçar todos os dias.

O regresso à Europa e o estranhamento

Quando regressei à Europa, trazia comigo os anos vividos em Mahārāṣṭra: muitas cores, muitas gargalhadas, a memória das imagens dos atentados de 26 de novembro de 2008, acompanhados de perto, saudades do Algarve e dos pastéis de nata, e uma relação bastante simples com o Yoga. Por isso, o contraste foi inevitável.

Encontrei aulas em que se cantavam mantras sem explicação, se estabeleciam “intenções” no início da prática e se evocavam conceitos e divindades hindus perante pessoas que, legitimamente, não sabiam o que estavam a repetir. O mais curioso não era a presença desses elementos, mas a ausência de perguntas. Presumia-se que tudo aquilo fazia parte do pacote e que era “normal”.

Mas normal em que contexto?
Normal para quem?
E com que fundamento?

Aquilo que eu tinha vivido como uma prática concreta, situada e despojada surgia agora revestido de uma espiritualidade genérica, frequentemente desligada das suas origens textuais, históricas e culturais. O Yoga aparecia menos como uma prática informada e mais como um produto cuidadosamente encenado, apresentado como caminho de salvação rápida num mundo que raramente tolera processos longos.

Entre a vida real e o estudo

Entretanto, a vida seguia o seu curso. Era mãe solteira, trabalhava e praticava quando era possível — muitas vezes à noite ou ao fim de semana. Progressivamente, o Yoga deixou de ser apenas uma prática pessoal e tornou-se também objeto de estudo e interrogação.

As perguntas acumulavam-se: de onde vêm estas ideias? Quando surgiram? São antigas ou recentes? São tradicionais ou adaptações modernas? As respostas nem sempre eram simples — e isso, longe de constituir um obstáculo, tornou-se um verdadeiro motor de investigação.

De regresso a Portugal, em 2018, comecei a procurar formadores e professores de Yoga que me pudessem orientar num percurso sério de aprendizagem e aprofundamento. Essa procura revelou-se exigente e, em muitos casos, pouco linear, devido à grande diversidade de propostas formativas existentes.

Tornou-se evidente a importância de critérios pedagógicos claros, de um enquadramento teórico consistente e de uma transmissão responsável do conhecimento. Esta experiência ajudou-me a compreender o tipo de formação que procurava e a reconhecer o valor de uma orientação continuada, eticamente consciente e metodologicamente estruturada. Foi neste contexto de procura e discernimento que encontrei uma pessoa que viria a assumir, durante alguns anos, um papel central como mentor no meu percurso formativo.

O meu primeiro curso de Yoga em contexto universitário foi realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Essa experiência marcou uma mudança clara na forma como passei a articular a prática com a reflexão teórica. Mais tarde, segui o mesmo mentor para uma pós-graduação em Yoga, com a duração de dois anos, na Universidade Lusófona.

O primeiro ano desta formação foi particularmente marcante, não apenas porque a pandemia de COVID-19 começou alguns meses depois e trouxe consigo os confinamentos, mas também porque representou uma verdadeira ampliação do meu horizonte de estudo e prática. Aprofundei a anatomia aplicada ao Yoga, estabeleci um contacto estruturado com o sânscrito e desenvolvi a leitura e análise de textos fundamentais, bem como uma relação mais consciente e fundamentada com a prática de āsana.

Muitas das dúvidas que trazia — tanto ao nível da prática postural como da compreensão teórica — começaram, finalmente, a encontrar um enquadramento mais claro e consistente.

O segundo ano revelou-se, no entanto, diferente do esperado. A estrutura repetia, em grande medida, conteúdos já abordados no primeiro ano, e algumas opções pedagógicas deixaram de corresponder ao nível de aprofundamento que eu procurava naquele momento.

Decorria ainda o período da pandemia, e a maioria das aulas, teóricas e práticas, era lecionada por videoconferência, embora se mantivessem o enquadramento e o custo de um regime presencial. Perante esse desajuste, optei por interromper a formação apenas dois meses antes da sua conclusão. Não por rejeição do percurso em si, mas por sentir que aquele formato já não acompanhava a direção que o meu estudo entretanto tinha assumido.

Longe de constituir um impasse, este percurso levou-me a aprofundar o contacto com obras de académicos de referência internacional, a desenvolver uma leitura mais rigorosa das fontes textuais e a conhecer praticantes de quem me tornei próxima — pessoas com quem partilho uma visão do Yoga mais informada, crítica e despojada de excessos.

Foi também nesse processo que percebi encontrar, em formato digital e no meio académico internacional, mais informação verificável do que aquela a que conseguia aceder presencialmente em língua portuguesa. Essa constatação não deixou de me causar algum desalento.

Porque nasceu a Saṃsāra Centro de Estudos de Yoga

O recurso ao estudo do Yoga em formato online não nasceu de uma mera conveniência tecnológica, mas de uma necessidade que reconheci no meu próprio percurso. Em Portugal, encontrei pouca oferta, sobretudo em língua portuguesa, que articulasse a prática com as fontes textuais, a investigação académica e o enquadramento histórico.

Entre os conteúdos disponíveis, deparei-me frequentemente com explicações excessivamente simplificadas, embelezadas ou adaptadas sem que fossem identificadas as suas origens ou transformações. O problema não está no diálogo entre tradições — o próprio Yoga possui uma história plural e marcada por múltiplas influências —, mas na apresentação de práticas e símbolos como se fossem intemporais, universais ou inerentes ao Yoga, sem qualquer contextualização.

Referências a espiritualidades genéricas, apropriações vagas de “culturas orientais” e elementos simbólicos retirados dos seus contextos tornaram-se comuns em certos ambientes contemporâneos. Muitas vezes, estes elementos não são apresentados como objetos de estudo, mas como ornamentos destinados a sugerir profundidade ou autenticidade.

Um exemplo é a vipassanā, termo em pāli associado a tradições budistas de meditação e às suas reformulações modernas. A sua presença num retiro de Yoga não é, em si mesma, ilegítima, mas deveria ser devidamente identificada e contextualizada. O mesmo se aplica a imagens do Buda, mandalas, pedras empilhadas ou taças habitualmente designadas como tibetanas. Uma taça numa sala não torna uma prática mais antiga, tal como uma decoração indiana não transforma automaticamente um espaço num āśrama.

Cria-se, por vezes, uma linguagem visual cuidadosamente construída para sugerir um espaço sagrado, mas raramente acompanhada de explicação histórica ou cultural. Nos contextos que conheci pessoalmente na Índia, o Yoga surgia muitas vezes em espaços simples e informais, onde a prática não dependia do cenário, mas da transmissão, do contexto e da continuidade.

Entre a prática vivida e o estudo rigoroso

É neste desfasamento — entre a prática vivida, algumas das suas representações contemporâneas e a escassez de ensino rigoroso e acessível — que o estudo online ganha relevância no contexto português.

Quando bem estruturado, pode facilitar o acesso a fontes fidedignas, docentes qualificados e conteúdos que dificilmente estariam disponíveis localmente, contribuindo para um conhecimento mais crítico e informado das tradições do Yoga.

A paixão pelo ensino do Haṭha Yoga nasceu desta caminhada: da prática simples num terraço em Vasai, Mahārāṣṭra; do estranhamento sentido ao regressar à Europa; do estudo realizado em horários improváveis; dos encontros com as pessoas, os autores e as fontes certas; e da constatação de que, demasiadas vezes, a escolha de uma aula depende mais do preço do que do rigor e da qualidade do seu conteúdo.

A Saṃsāra Centro de Estudos de Yoga não nasceu para competir com estúdios, escolas ou outros formadores. Nasceu para tornar mais acessível um estudo do Yoga assente em investigação académica, fontes primárias, contextualização histórica e pensamento crítico.

Estas são apenas as primeiras pedras. Não são conclusões finais.

O caminho continua — devagar, como sempre foi.

Vic

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