Yoga para crianças não é brincadeira …
Nos últimos anos, tenho assistido a um crescimento enorme das aulas de Yoga para crianças. À primeira vista, parece algo positivo — afinal, quem não quer ver crianças mais calmas, mais focadas, mais equilibradas? Mas, quanto mais observo, mais me inquieta uma questão simples: quem está realmente preparado para trabalhar com crianças?
Antes de mais, quero deixar isto claro: eu não sou contra o Yoga para crianças. Acredito no seu potencial quando é bem aplicado — com conhecimento, responsabilidade e respeito pelo desenvolvimento infantil. O problema não está no Yoga. Está, muitas vezes, em quem o ensina.
E aqui, para mim, há uma linha que não pode ser ignorada.
Se olharmos para outras áreas ligadas à infância, o nível de exigência é altíssimo. Os profissionais da educação de infância estudam durante anos, fazem estágios obrigatórios e são avaliados em contexto real. O mesmo acontece em áreas como a pedopsiquiatria ou a psicologia do desenvolvimento. E isso não é por acaso — trabalhar com crianças exige preparação, conhecimento e experiência.
Então, por que razão, no Yoga para crianças, isso parece não importar?
Hoje em dia, qualquer pessoa pode fazer um curso rápido, presencial ou online, e começar a dar aulas. Sem estágio. Sem contacto real com crianças. Sem supervisão. Sem formação pedagógica sólida. Estamos a falar de crianças — não de um público qualquer.
Será que isto faz sentido?
Se uma profissional com formação na área da infância decide complementar o seu percurso com Yoga, sou a primeira a apoiar. A divulgar. A recomendar. E a ajudar a encontrar um espaço onde possa lecionar essas aulas aos nossos rebentos. Porque existe uma base — há conhecimento do desenvolvimento infantil, há prática, há responsabilidade.
Mas, quando vejo pessoas que vêm de áreas completamente diferentes e entram no Yoga infantil porque “está na moda” ou porque existe uma oportunidade de rendimento… aí não consigo ignorar.
E sim, é importante dizê-lo de forma clara: há quem esteja a entrar nesta área não por vocação, mas porque há dinheiro a ganhar.
Formações rápidas. Certificados fáceis — por vezes promovidos por entidades formadoras certificadas pela DGERT, certificação que incide sobre a entidade e os seus processos formativos, mas que não constitui, por si só, uma validação científica ou profissional específica de cada curso — acabam por transmitir uma aparência de credibilidade a uma área que nem sequer é reconhecida como profissão regulamentada. Promessas de um mercado em crescimento. E, no meio de tudo isto… crianças.
Ao mesmo tempo, o próprio Yoga para crianças tem vindo a sofrer uma transformação que me levanta muitas dúvidas. Aquilo que, em determinados contextos educativos indianos, foi desenvolvido para promover disciplina, foco e respeito surge hoje, em muitos contextos ocidentais, diluído em jogos constantes, histórias e músicas.
Atenção: brincar é essencial no desenvolvimento infantil. Mas será que tudo precisa de ser transformado em entretenimento?
Ou será que estamos a perder completamente a essência?
Ver práticas como a Saudação ao Sol transformadas em músicas protegidas por direitos de autor é, para mim, um sinal claro de que algo se perdeu pelo caminho. O que antes era uma prática estruturada torna-se hoje um produto.
E depois há questões ainda mais sensíveis.
A introdução de elementos como o Om ou os cakras em aulas para crianças. Quantos pais sabem que estes conteúdos estão presentes? Alguém explica? Alguém pede autorização?
Num contexto educativo que se assume como laico, isto não deveria ser tratado com mais cuidado?
A tudo isto junta-se uma realidade pouco falada: muitas escolas escolhem instrutores não pela sua formação, mas pelo preço que cobram. O mais barato entra. Mesmo sem base pedagógica. Mesmo sem experiência com crianças.
Mais uma vez, a pergunta impõe-se: estamos mesmo a proteger as crianças?
E depois há a promessa quase milagrosa: o Yoga como solução para acalmar, focar e equilibrar. Mas será justo colocar esse peso numa aula semanal de 45 minutos? Ou estaremos a tentar compensar, através do Yoga, aquilo que exige tempo, presença e responsabilidade dos adultos?
O Yoga pode ser uma ferramenta valiosa — mas não substitui o papel dos pais, nem o da educação, nem o acompanhamento adequado.
No fundo, o que me preocupa não é o Yoga para crianças. É a forma como está a ser usado, vendido e, muitas vezes, banalizado.
Yoga para crianças com profissionais preparados? Sim. Sempre.
Yoga para crianças porque está na moda, com formações rápidas e sem base pedagógica? Não.
Porque, quando se trata de crianças, não estamos a falar de tendências. Estamos a falar de responsabilidade.
E a responsabilidade não pode ser improvisada.
Vic