Porque é que os alunos de yoga não ficam?

(talvez por causa dos macaquinhos de imitação)

Há um momento que qualquer instrutor de yoga conhece — mesmo que não goste de admitir. Aquele aluno que vinha sempre, que parecia “alinhado”, quase garantido… desaparece. Sem aviso, sem drama, sem despedida. E fica a pergunta: porque é que os alunos não ficam?

Más notícias: não é karma. E provavelmente também não é o universo a testar a tua paciência espiritual.

É mais simples do que isso.

Os alunos não são teus.

Não pertencem a ninguém, não assinam contratos de fidelidade energética e não têm obrigação de gostar de ti para sempre. Vão onde faz sentido. Ficam enquanto faz sentido. E saem quando deixa de fazer.

O problema é que, no mundo do yoga moderno, ainda há muita gente convencida de que uma aula “bonita” cria automaticamente alunos fiéis. Spoiler: não cria. No máximo, cria curiosidade inicial.

Depois vem a realidade.

Ao longo dos anos, com prática contínua, estudo, leitura de autores como James MallinsonDavid Gordon White e Mark Singleton, e mergulho em temas como mitologia hindu ou práticas ascéticas, há uma coisa que nunca desapareceu: a sensação de que o yoga é demasiado complexo para caber numa explicação simples.

E ainda bem.

Porque não há consenso absoluto sobre o que “é” yoga. Há tradições, há interpretações, há história, há contradições. E quanto mais se estuda, mais se percebe que uma formação de 200 horas não resolve isso.

É um começo. Não é um certificado de profundidade.

E depois há a experiência real.

Vivi oito anos na Índia, numa zona perto de Mumbai, no estado de Maharáshtra. E não — isso não me deu “respostas finais”. Deu-me exatamente o contrário.

Deu-me um choque cultural real. Mesmo com abertura, houve um momento em que percebi que tinha de desligar completamente o meu olhar europeu para conseguir observar sem filtrar tudo pela minha própria lógica.

Demorou tempo.

Muito tempo.

E é aqui que a pergunta se impõe: se viver anos num contexto não é suficiente para “compreender tudo”… o que se passa numa formação de 200 horas de yoga?

Pois.

E depois chegamos ao fenómeno que, para mim, explica muita coisa.

Os “macaquinhos de imitação”.

Mas atenção!!!! Todos começamos por imitar. Isso faz parte do processo.

Estou a falar de outra coisa.

Estou a falar de aulas onde o instrutor se coloca à frente, no seu tapete (muitas vezes numa plataforma), pratica, entoa um Mantra, enumera os āsana do Sūrya Namaskāra … e o resto que se desenrasque. Sem explicação, sem correção, sem adaptação. Se conseguires acompanhar, ótimo. Se não conseguires… olha, temos pena.

Não é uma aula.

É uma performance.

E aqui entra o ego — aquele que toda a gente diz que está a trabalhar, mas que aparece com muita facilidade em cima de um tapete.

Porque ensinar yoga não é ser o centro da sala. Não é executar melhor. Não é ser o mais flexível, o mais “fluido” ou o mais instagramável.

Ensinar implica responsabilidade. Mesmo se a aula parar.

Ensinar implica explicar, corrigir, observar, adaptar. Implica sair do “olhem para mim” e entrar no “deixa-me ajudar-te a perceber”.

Quando isso não acontece, o aluno não fica. Nem deve ficar.

Depois há a questão da autenticidade… ou daquilo que parece autenticidade.

Roupas indianas, bindi na testa, símbolos tatuados, incensos e estatuas de Ganesha, uma estética cuidadosamente construída. Tudo muito bonito.

Mas chamar autenticidade a isso é, no mínimo, discutível.

Durante os anos que vivi na Índia, usei elementos culturais locais — mangalasutra, pulseiras vermelhas, anéis de prata nos pés, saree. Mas havia contexto. Havia integração. Havia vida real ali.

Quando voltei à Europa, deixei isso para trás.

Porque o contexto mudou.

E no yoga, ignorar o contexto é meio caminho andado para criar uma versão simplificada e, muitas vezes, superficial da prática. Em vez de usarem o bindi, roupas indianas, incenso e tapete de cortiça, deveriam mergulhar em workshops, estudos, formações de anatomia postural, livros e estudos académicos sérios. Porque é assim que podemos tornar o yoga mais autentico na sua essência … Mesmo se escolhermos um Yoga moderno como o Ashtanga de Jois, todos os yogas praticados têm por base o Hatha yoga (mesmo se também houve mutações na sua pratica).

Mas em Portugal, muitos ficam pelas 200 hrs de instrutores de yoga

Resultado?

Abrem atividade. Dão aulas e não desenvolvem mais. Os alunos desaparecem.

E depois voltamos ao início.

Porque é que os alunos não ficam?

Porque não encontram profundidade.
Porque sentem repetição.
Porque fazem perguntas e não obtêm respostas.
Porque percebem — mesmo sem saber explicar — que estão perante mais aparências do que conteúdo.

E porque, no meio de tudo isso, não estão à procura de um espetáculo.

Estão à procura de uma prática.

No fim, talvez a pergunta nunca tenha sido “porque é que os alunos vão embora”.

Talvez seja outra.

O que é que os faria querer ficar?

E a resposta não está no que parece.

Está no que sustenta.

Vic

Similar Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *