Tantra: Muito mais do que o que o Sting nos fez acreditar

Quando alguém em Portugal ouve “Tantra”, a primeira coisa que lhe vem à cabeça é… sexo. E não, não estamos a exagerar: parte da culpa é do Sting. Sim, o mesmo cantor loiro que cantava sobre um “bife” meio perdido nas ruas de Nova Iorque. E o Finch do “American Pie 2“, para a felicidade da mãe do Stifler (mais carinhosamente conhecida por “MILF“). Estes artistas de gerações diferentes acabaram por glorificar a mínima fração do yoga onde se trabalha a energia sexual. Resultado: em muitas conversas, Tantra tornou-se sinónimo de sexo promíscuo, orgasmo prolongados e bacanais. Triste, mas é a pura verdade. E infelizmente, nos retiros em Portugal, esta ideia ainda reina em linhas pequenas, quando casais entram de mente aberta — e com expectativas muito “adultas”.

Mas o Tantra original é muito mais do que isso. Surgido na Índia e também presente no Budismo, o Tantra é uma tradição espiritual que trabalha a consciência, o corpo, a energia e a mente, utilizando técnicas complexas como mudrābandha, cakra e práticas de meditação profundas. O Tantra ensina a transformar a energia vital e a de viver a realidade de forma mais integrada — sexo incluído, mas apenas como uma pequena parte de um quadro muito maior. Não, não é só sobre como os casais devem se entreolhar ou “enrolar” no tapete do yoga.

No Tantra budista, encontramos também distinções importantes:

  • Caminho da Mão Direita (Right-Hand Tantra): foca a disciplina, meditação e prática ritual sem quebrar tabus sociais ou morais. É mais “respeitável” e menos chocante para quem vem do Ocidente.
  • Caminho da Mão Esquerda (Left-Hand Tantra): incorpora práticas mais controversas, como rituais fora do convencional, visualizações de divindades e, sim, algumas práticas que envolvem sexualidade ritualizada. É aqui que a imaginação ocidental tende a ficar presa, associando automaticamente Tantra a sexo.

O que muitas pessoas chamam de Neo-Tantra é uma espécie de remix ocidental: workshops de casais, massagens com “happy endings”, exploração sexual consciente — tudo isto com muito marketing e pouca tradição textual ou filosófica. Enquanto o Tantra autêntico é complexo, ritualizado, cheio de textos e técnicas meditativas, o Neo-Tantra é o lado “hipster” do conceito, com playlists, velas aromáticas e, claro, promessas de orgasmos iluminados.

Além disso, no universo tântrico, encontramos os yogis e yoginis, praticantes de yoga que dedicam a vida à exploração da consciência e da energia. Eles são mestres na arte de integrar corpo, mente e espírito, muito para além de qualquer mal-entendido popular.

Curiosamente, grande parte do haṭha yoga que conhecemos também é uma forma de Yoga tântrico.

O verdadeiro Tantra pede abertura de mente e coração. Não é apenas sobre casais — é sobre o relacionamentos “com o eu”, com os outros, com o universo.

Que os workshops e retiros em Portugal reforcem esta mensagem: entrar num retiro de Tantra exige curiosidade, respeito e, sim, algumas linhas pequenas de advertência para casais que chegam pensando que tudo é sexualidade. Porque a prática é profunda, mas a reputação… bem, essa já levou o Sting como embaixador involuntário.

Em resumo: Tantra é mais cérebro que cama, mais energia que erotismo, mais consciência que Instagram.

Mas se conseguires rir-te da confusão que se fez, já estás meio caminho andado para praticar o verdadeiro Tantra.

Vic

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