Quando o mundo gira e não é Samadhi: Yoga com Síndrome de Ménière
Entre posturas, vertigens e egos equilibrados — o que a doença me ensinou sobre prática, limites e… desculpas criativas
Há cinco anos, o meu corpo decidiu introduzir um novo āsana na minha vida: a inesperada, imprevisível e absolutamente não solicitada doença de Ménière. Não é particularmente elegante, não melhora a flexibilidade e, definitivamente, não vem com certificado de iluminação espiritual.
Para quem não está familiarizado, trata-se de uma doença do ouvido interno que pode provocar vertigens intensas, zumbidos, sensação de pressão no ouvido e perda auditiva. Não tem cura conhecida — pelo menos segundo o consenso médico atual — e a sua evolução varia bastante de pessoa para pessoa. A sua causa exata permanece incerta. Sabe-se que os sintomas estão associados a alterações da endolinfa, o fluido existente no ouvido interno, mas continuam a ser investigados os mecanismos que originam esse desequilíbrio.
Traduzindo isto para a prática: há dias em que o mundo roda como se estivesse num retiro de meditação… dentro de uma máquina de lavar roupa.
E, no entanto, não parei de dar aulas. Não houve um momento dramático de “retiro forçado” nem uma reinvenção mística da carreira. Houve adaptação. Aprendi — por necessidade, não por iluminação — a movimentar o corpo e a cabeça mais devagar. Muito mais devagar. Evitar movimentos bruscos tornou-se menos uma recomendação e mais uma estratégia de sobrevivência pedagógica. Olhar demasiado para baixo ou para cima? Potencial convite ao caos.
Confesso que nem sempre correu bem. Já tive quedas no meio da aula que, vistas de fora, teriam sido dignas de um pequeno festival de comédia física. Nada de grave, felizmente — apenas o suficiente para me obrigar a interromper a sequência, recuperar a dignidade possível e, claro, pedir desculpa aos alunos por não ter tido a decência de oferecer um shot de medronho antes da aula para acompanhar o espetáculo.
Brincadeiras à parte, estes momentos têm um lado pedagógico involuntário: mostram, de forma bastante concreta, que o equilíbrio não é garantido — nem para quem está a guiar a prática.
Antes deste diagnóstico, confesso que tinha uma relação relativamente simples com as queixas dos alunos. “Tonturas? Respira fundo.” “Vertigens? Fixa o olhar.” “Não consegues fazer a postura? Tenta outra vez.” Nada de particularmente cruel, apenas o típico otimismo ligeiramente ingénuo de quem nunca teve a sala a girar sem aviso prévio. Hoje, a história é outra.
A experiência direta da vertigem muda radicalmente a forma como se olha para uma aula de Yoga. Não é apenas desconfortável — pode ser incapacitante. Posturas que envolvem inversões, mudanças rápidas de posição ou mesmo movimentos aparentemente banais podem tornar-se desafios sérios. E aqui entra uma das primeiras lições: nem tudo o que parece “falta de vontade” é, de facto, falta de vontade. Às vezes é o sistema vestibular a fazer greve.
Isto não significa, claro, que todas as desculpas sejam legítimas. Seria intelectualmente desonesto — e pedagogicamente pouco útil — afirmar isso. Quem ensina Yoga há tempo suficiente conhece bem o espectro: desde o aluno genuinamente limitado até ao artista performativo da evasão subtil. O clássico “hoje estou um bocadinho tonto” pode ser a descrição rigorosa de uma experiência real… ou uma estratégia altamente sofisticada para evitar aquela postura que todos sabemos qual é.
A diferença, aprendi eu, não está na suspeita permanente nem na credulidade ingénua. Está em reconhecer que um professor de Yoga não dispõe de critérios clínicos para decidir, apenas pela observação, se uma vertigem é “real”, qual é a sua causa ou qual é a sua gravidade.
Instabilidade, dificuldade em focar o olhar, ansiedade ou necessidade de parar podem acompanhar uma crise, mas também podem ter outras explicações. E até o “tontinho estratégico” que recupera milagrosamente quando a aula entra no relaxamento final merece o benefício da dúvida. Convenhamos que o Śavāsana já produziu recuperações igualmente milagrosas em alunos perfeitamente saudáveis.
O desafio, portanto, não é separar “quem diz a verdade” de “quem inventa”, como se estivéssemos num tribunal. É criar um espaço onde as adaptações sejam possíveis sem transformar a aula num interrogatório nem o professor num especialista improvisado em doenças vestibulares. E aqui a doença de Ménière foi, paradoxalmente, uma professora exigente, mas útil.
Hoje, quando um aluno refere tonturas ou vertigens, a minha abordagem é diferente. Faço mais perguntas, ofereço mais opções e procuro perceber o que a pessoa consegue fazer naquele momento. Na minha forma de orientar a aula, isso pode significar evitar movimentos bruscos, adaptar ou retirar inversões, recorrer a um ponto visual estável ou usar uma cadeira e outros apoios.
Sobretudo, significa respeitar o limite real — aquele que não melhora com força de vontade nem com frases inspiradoras. Ou simplesmente propor outra postura, para que a pessoa possa continuar a praticar sem se sentir posta de parte. Quando os episódios são novos, recorrentes ou intensos, a avaliação pertence, naturalmente, a um profissional de saúde.
Também há mais humildade. Porque a prática de Yoga, por mais disciplinada que seja, não imuniza ninguém contra a fisiologia básica. O corpo não lê manuais de filosofia nem se impressiona com sequências bem estruturadas. Responde ao que está a acontecer — e, às vezes, o que está a acontecer é simplesmente um ouvido interno em desordem.
No meu caso, aprendi também a integrar isto como parte de mim, não como um obstáculo externo que tenho obrigatoriamente de eliminar. As vertigens não são constantes. As crises mais intensas surgem por episódios, mas a instabilidade, o cansaço e a sensação de desequilíbrio podem permanecer durante dias ou, em fases menos simpáticas, acompanhar-me durante semanas.
Essa imprevisibilidade obriga a uma escuta contínua do corpo e a uma flexibilidade real, não apenas conceptual. E, às vezes, obriga também ao acompanhamento da minha filha de 25 anos, para ter a certeza de que a mãe não se espalha no meio da rua ou nas escadas.
E talvez seja aqui que esta experiência ganha um valor que ultrapassa o desconforto. Porque, sem grande romantização, se torna um exemplo vivo para os alunos: Yoga não é apenas conseguir fazer posturas difíceis nos dias bons. É, sobretudo, saber adaptar a prática nos dias em que o corpo impõe limites — temporários ou não.
É aceitar que há variação, que há falhas, que há instabilidade.
Isso também é Yoga.
Curiosamente, esta condição trouxe uma espécie de clarificação pedagógica. Obriga-me a distinguir entre esforço útil e esforço absurdo, entre disciplina e teimosia, entre prática e performance. E isso, ironicamente, aproxima-me mais do espírito do Yoga do que muitas execuções tecnicamente perfeitas.
No fim, talvez o mais desconfortável não sejam as vertigens em si, mas o confronto com a ideia de controlo. Gostamos de acreditar que, com prática suficiente, conseguimos dominar o corpo, a mente e o equilíbrio. A doença de Ménière — com a sua capacidade de fazer o chão desaparecer sem aviso — vem lembrar que essa narrativa tem limites.
E talvez isso não seja uma falha da prática.
Talvez seja, precisamente, parte dela.
Vic