Cārvāka — Cārvāka — Charvaka, Chārvāka, Carvaka; Lokāyata

Tradução literal: Etimologia incerta; designação de uma tradição materialista ou naturalista indiana.

Definição

Cārvāka é a designação atribuída a correntes materialistas, naturalistas e críticas da autoridade religiosa na filosofia indiana. O termo aparece frequentemente associado a Lokāyata, embora não seja possível demonstrar que os dois nomes tenham designado sempre uma única escola perfeitamente organizada.

As doutrinas atribuídas aos Cārvākas incluem geralmente:

  • rejeição da autoridade dos Vedas;
  • negação de um criador divino;
  • rejeição de uma alma independente do corpo;
  • crítica ao renascimento e à eficácia do ritual;
  • explicação da consciência como dependente dos elementos materiais;
  • valorização da perceção como fonte de conhecimento.

A tradição Cārvāka é importante porque demonstra que o pensamento filosófico indiano não se limitou às escolas religiosas ou às doutrinas de libertação. Incluiu também posições céticas, ateias e materialistas.

Referências textuais

Os textos fundamentais produzidos pelos próprios Cārvākas não se conservaram de forma segura. Uma obra denominada Bṛhaspatisūtra é tradicionalmente associada à escola, mas o texto encontra-se perdido e a sua autoria e conteúdo não podem ser reconstruídos com certeza.

Grande parte da informação disponível provém de autores que pretendiam refutar o materialismo. Entre as fontes encontram-se:

  • textos budistas e jainistas;
  • o Śāntiparvan do Mahābhārata;
  • o Sarvasiddhāntasaṅgraha, atribuído a Śaṅkara;
  • o Ṣaḍdarśanasamuccaya de Haribhadra;
  • o Tattvasaṅgraha de Śāntarakṣita;
  • o Sarvadarśanasaṅgraha de Mādhava.

O primeiro capítulo do Sarvadarśanasaṅgraha apresenta uma exposição do sistema Cārvāka. Contudo, trata-se de uma obra bastante posterior, escrita por um autor que não pertencia à tradição e que organiza as doutrinas com intenção crítica.

O Tattvopaplavasiṃha, de Jayarāśi Bhaṭṭa, constitui uma rara obra sobrevivente de caráter profundamente cético. Alguns investigadores relacionam Jayarāśi com uma vertente da tradição materialista de Bṛhaspati; outros consideram problemática a sua classificação direta como Cārvāka.

Notas académicas

A reconstrução do pensamento Cārvāka enfrenta um problema fundamental: quase todas as fontes preservadas foram escritas por adversários. Não sabemos até que ponto essas fontes reproduzem posições autênticas, simplificam argumentos ou constroem uma caricatura destinada a ser refutada.

A ideia de que os Cārvākas defendiam apenas o prazer imediato e uma vida sem ética provém principalmente de fontes hostis. É possível que algumas correntes tenham valorizado o prazer, mas não existe documentação suficiente para concluir que todos os materialistas indianos defendiam um hedonismo irresponsável.

Também não é consensual que Cārvāka e Lokāyata tenham sido sempre sinónimos. Lokāyata teve diferentes sentidos históricos, podendo referir-se ao materialismo, à argumentação sobre o mundo ou a determinadas formas de debate.

A etimologia de Cārvāka permanece incerta. Algumas explicações tradicionais relacionam o nome com cāru, “agradável”, e vāc, “discurso”, interpretando-o como “de fala agradável”. Outras apresentam Cārvāka como nome de um mestre. Estas explicações não estão historicamente demonstradas.

A tradição não deve ser incluída entre os seis darśanas bramânicos considerados ortodoxos, pois rejeita a autoridade dos Vedas. Na classificação tradicional, é uma posição nāstika. Este termo significa, conforme o contexto, a negação da autoridade védica ou de determinados princípios religiosos, não simplesmente “ateísmo” no sentido europeu moderno.

Ver também: Darśana · Vedas · Ātman · Karma · Budismo · Jainismo

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