Título original: Asian Medicine and Globalization
Autor: <a class="samsara-academico-link" href="https://samsarayogaonline.com/academico/joseph-s-alter/">Joseph S. Alter</a>, Vivienne Lo, Sylvia Schroer, S. Irfan Habib, Dhruv Raina, Deepak Kumar, Cecilia Van Hollen, Nancy N. Chen, Martha Ann Selby & Susan Brownell.
Ano da primeira edição: 2005
Editora da primeira edição: University of Pennsylvania Press
Local da primeira edição: Filadélfia, Pensilvânia, Estados Unidos da América.
Idioma original: Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
Asian Medicine and Globalization é uma colectânea de estudos antropológicos e históricos sobre a circulação internacional de sistemas médicos associados à Ásia. O volume examina como práticas como o Āyurveda, a medicina chinesa, a acupunctura, a medicina Unani e determinadas formas de cirurgia são transformadas quando atravessam fronteiras nacionais, instituições científicas, mercados comerciais e discursos de saúde global.
O ponto de partida da obra é uma tensão fundamental. Os sistemas médicos são frequentemente identificados com uma cultura ou nação específica, como acontece quando se fala em “medicina indiana” ou “medicina chinesa”. Ao mesmo tempo, esses sistemas afirmam possuir conhecimentos sobre o corpo e a saúde aplicáveis a qualquer pessoa, independentemente da nacionalidade. Esta pretensão de universalidade facilita a sua circulação transnacional, mas também cria disputas sobre autenticidade, origem, propriedade cultural e legitimidade científica.
Na introdução, “The Politics of Culture and Medicine”, Joseph S. Alter apresenta a relação paradoxal entre nacionalismo e transnacionalismo. Quando um sistema médico é promovido como património nacional, pode simultaneamente ser reorganizado para alcançar um mercado mundial. A globalização não elimina as identidades nacionais; frequentemente reforça-as, porque a associação a uma tradição antiga ou a uma cultura específica pode tornar-se um recurso de legitimidade e comercialização.
No capítulo “Āyurvedic Acupuncture—Transnational Nationalism”, Alter analisa uma forma de acupunctura apresentada como autenticamente āyurvédica. O caso permite-lhe estudar como a origem de determinado conhecimento médico pode ser reconstruída através de analogias entre nāḍī, prāṇa, pontos corporais, técnicas de punção e conceitos associados à medicina chinesa. A questão principal não é apenas determinar se a técnica é “realmente” indiana ou chinesa, mas compreender como as afirmações de origem e autenticidade são produzidas.
Vivienne Lo e Sylvia Schroer estudam as transformações do conceito de “ares desviantes” ou agentes externos naquilo que passou a ser identificado como medicina tradicional chinesa. O capítulo mostra que a tradição médica chinesa não constitui um sistema completamente uniforme e que a sua apresentação moderna depende de selecções, classificações e reformulações históricas.
S. Irfan Habib e Dhruv Raina analisam a reinvenção da medicina tradicional na Índia colonial tardia. O seu estudo concentra-se nas alterações metodológicas, institucionais e industriais associadas à fabricação de medicamentos. A produção em escala, a padronização de substâncias e a criação de instituições modernas modificaram profundamente os modos de apresentação e transmissão dos conhecimentos médicos.
Deepak Kumar compara as políticas de saúde e medicina na Índia britânica e nas Índias Orientais Neerlandesas. O capítulo evidencia que o colonialismo não produziu uma única relação entre biomedicina europeia e conhecimentos locais; essa relação variou de acordo com as estruturas administrativas, as políticas imperiais e as circunstâncias sociais de cada território.
Cecilia Van Hollen examina a mobilização política da chamada medicina tradicional indiana no contexto do VIH/SIDA. A autora analisa como nacionalismo, mercado, expectativas terapêuticas e discursos de autenticidade podem influenciar a apresentação pública de tratamentos. Este capítulo é particularmente importante por mostrar que as afirmações de tradição ou origem nacional não constituem, por si mesmas, provas de eficácia clínica.
Nancy N. Chen estuda a relação entre ciência, medicina e construção nacional na China. O capítulo mostra como a cartografia do conhecimento médico participa na produção de fronteiras entre ciência, tradição, superstição e identidade nacional.
Martha Ann Selby analisa a mercantilização das ginecologias sânscritas nos discursos pós-modernos sobre saúde feminina, medicina alternativa e espiritualidade New Age. A autora examina como materiais médicos antigos podem ser seleccionados, reinterpretados e comercializados para responder a preocupações contemporâneas, frequentemente separados dos seus contextos textuais e sociais de origem.
Susan Brownell encerra o volume com um estudo sobre cirurgia estética, reconstrução corporal e nacionalismo na China durante o período das reformas. A cirurgia cosmética surge como espaço de negociação entre modelos locais de corpo, padrões globais de beleza, modernidade, género e identidade nacional.
O livro é importante porque mostra que categorias como “medicina tradicional”, “medicina alternativa” e “medicina asiática” não descrevem simplesmente conjuntos antigos e imutáveis de práticas. São categorias históricas produzidas por instituições, governos, investigadores, médicos, empresas, movimentos nacionalistas e consumidores.
A obra contribui para ultrapassar uma oposição simplista entre tradição e modernidade. A industrialização de medicamentos āyurvédicos, a padronização da medicina chinesa ou a utilização de textos sânscritos em mercados contemporâneos não representam apenas a sobrevivência de tradições antigas. São processos modernos que seleccionam e reorganizam elementos do passado.
O volume é igualmente importante por examinar criticamente a ideia de autenticidade. Quando uma prática atravessa fronteiras, a reivindicação de uma origem antiga ou nacional pode funcionar como argumento de autoridade. Alter e os restantes colaboradores demonstram que essa autenticidade é frequentemente negociada e reconstruída, em vez de constituir uma qualidade simples e verificável.
A colectânea oferece ainda instrumentos para analisar a transformação do conhecimento médico em mercadoria global. Tratamentos, medicamentos, conceitos corporais e práticas terapêuticas podem ser retirados dos seus contextos institucionais, traduzidos para novas linguagens e vendidos como alternativas naturais, espirituais ou tradicionais.
O interesse do livro para os Estudos do Yoga é indirecto, mas significativo. O volume não é uma história do Yoga e não analisa sistematicamente linhagens, textos ou práticas yóguicas. O seu contributo encontra-se no estudo dos processos de globalização que também transformaram o Yoga.
A descrição editorial reconhece explicitamente que práticas médicas asiáticas atravessaram fronteiras ocidentais através da crescente popularidade do Yoga e da fitoterapia. O Yoga aparece, assim, como um dos principais veículos culturais através dos quais conceitos de saúde, energia, alimentação, respiração e corpo subtil foram associados a uma ideia globalizada de medicina asiática.
A análise da “acupunctura āyurvédica” é especialmente útil para compreender processos semelhantes no Yoga contemporâneo. Conceitos como prāṇa, nāḍī, cakra e marma podem ser combinados com meridianos chineses, anatomia biomédica, psicologia e terapias energéticas. Essas combinações podem produzir práticas novas que são posteriormente apresentadas como sistemas antigos ou integralmente tradicionais.
O livro ajuda também a compreender a medicalização do Yoga. Quando a prática é apresentada como terapia para doenças específicas, entra em espaços regulados por investigação clínica, instituições de saúde, seguros, formação profissional e legislação. A autoridade tradicional e a experiência pessoal passam a coexistir, nem sempre pacificamente, com exigências de evidência, segurança e padronização.
Para a Biblioteca Saṃsāra, esta obra é particularmente relevante nas áreas de Yoga moderno, Āyurveda, globalização, apropriação cultural e mercantilização da espiritualidade. Permite analisar de forma crítica como determinados conhecimentos asiáticos são seleccionados e reformulados para públicos internacionais.
Embora muitos catálogos comerciais apresentem Joseph S. Alter como “autor”, a folha de rosto e a editora identificam-no como editor. Ele escreveu a introdução e um capítulo, mas os restantes capítulos pertencem a investigadores diferentes. A referência bibliográfica deve, por isso, incluir “ed.” ou “editor” depois do seu nome.
A edição original apresenta 187 páginas numeradas, mas a editora e as plataformas digitais indicam 200 páginas. A divergência resulta da inclusão ou exclusão das páginas preliminares, dos agradecimentos e de outros elementos não contabilizados na paginação principal.
A edição digital apresenta outra pequena divergência cronológica. A plataforma De Gruyter indica 1 de Janeiro de 2011 como data do eBook, enquanto a University of Pennsylvania Press apresenta 26 de Março de 2013. Estes registos poderão corresponder a diferentes momentos de conversão, distribuição ou relançamento digital. A primeira edição intelectual da obra permanece inequivocamente a edição impressa de 2005.
A expressão “medicina asiática” deve ser utilizada com prudência. A Ásia não possui um sistema médico único, e o volume reúne tradições chinesas, indianas e coloniais com histórias, textos, instituições e epistemologias distintas. O título funciona como categoria comparativa, não como afirmação de unidade cultural.
Da mesma forma, “medicina tradicional” não significa necessariamente antiga, estável ou transmitida sem alterações. Muitas formas hoje classificadas como tradicionais foram institucionalizadas, padronizadas ou parcialmente reconstruídas durante os períodos colonial e pós-colonial.
A análise antropológica das afirmações de eficácia não equivale à validação clínica de um tratamento. Quando os autores estudam terapias para o VIH/SIDA, saúde feminina ou outras condições, investigam discursos, instituições, políticas e práticas sociais. O livro não fornece evidência de que todas as terapias analisadas sejam clinicamente eficazes ou seguras.
A obra foi publicada em 2005 e deve ser complementada por estudos mais recentes sobre saúde global, regulamentação de medicinas tradicionais, circulação digital de desinformação terapêutica e crescente integração do Yoga em contextos clínicos. Ainda assim, a sua análise da relação entre nacionalismo, autenticidade e circulação transnacional permanece conceptualmente relevan
Inglês — idioma original
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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