Título original: Descobrir Buda
Subtítulo: Estudos e Ensaios sobre a Via do Despertar
Autor: Paulo Borges
Ano da primeira edição: 2010
Editora da primeira edição: Âncora Editora
Local da primeira edição: Lisboa, Portugal
Idioma original: Português
Descobrir Buda reúne estudos dedicados a diferentes dimensões daquilo que Paulo Borges designa como a “Via do Buda” ou “Via do Despertar”. O próprio título é programático: “Descobrir Buda” não significa apenas adquirir conhecimento histórico sobre Siddhārtha Gautama, mas descobrir ou revelar uma potencialidade de consciência, sabedoria e compaixão que, na interpretação apresentada pelo autor, se encontra velada pelos hábitos de separação, apego e aversão.
O livro aborda aspetos filosóficos e práticos do Budismo sem se restringir a uma única corrente. Entre os estudos que integram a obra encontram-se textos sobre identidade pessoal, morte e impermanência, experiência contemplativa e questões associadas ao Budismo tântrico. A própria bibliografia académica de Paulo Borges permite identificar, por exemplo, os ensaios “Budismo e Identidade Pessoal”, “A Morte no Budismo” e “Experiência Sexual e Iluminação na Tradição Tântrica”, este último publicado no volume entre as páginas 155 e 183.
A preocupação central não é apenas descrever doutrinas budistas, mas explorar as suas implicações para a transformação da consciência e da experiência humana.
A obra é importante no contexto português porque reúne reflexão filosófica sobre Budismo escrita originalmente em português por um académico português, colocando em diálogo investigação, tradição contemplativa e experiência contemporânea.
Em vez de reduzir o Budismo a religião institucional, filosofia abstrata ou técnica de meditação, Paulo Borges apresenta-o como uma via de transformação que envolve conhecimento, ética, meditação e questionamento da própria identidade.
O livro é também relevante porque aborda temas que se tornariam centrais na produção posterior do autor. Meditação, natureza da mente, consciência, identidade e transformação interior reaparecem em obras como O Coração da Vida, Meditação, a Liberdade Silenciosa, O Sorriso do Buda e Presença Plena. O próprio autor apresenta Descobrir Buda como uma das suas obras anteriores de referência sobre Budismo e meditação.
O interesse de Descobrir Buda para os Estudos do Yoga é moderado a elevado, sobretudo numa perspetiva comparativa. Embora a obra seja dedicada predominantemente ao Budismo e não à história das tradições yóguicas, aborda questões fundamentais para compreender o ambiente mais amplo em que diferentes formas de Yoga se desenvolveram: meditação, disciplina da mente, identidade pessoal, impermanência, libertação e transformação da consciência. O estudo do Budismo é particularmente relevante para a história do Yoga antigo porque tradições budistas e bramânicas partilharam e disputaram vocabulários, técnicas contemplativas e modelos de libertação durante séculos. Os textos do volume dedicados ao Budismo tântrico acrescentam ainda interesse para compreender contextos em que práticas meditativas, corporais e tântricas budistas se desenvolveram paralelamente às tradições śaivas e yóguicas.
Um dos ensaios mais interessantes do volume tem o título “Se vires o Buda, mata-o”, expressão derivada da tradição Chan/Zen. Paulo Borges esclarece que a formulação aparentemente provocadora pretende mostrar que mesmo as representações religiosas do Buda podem tornar-se obstáculos se forem transformadas em objetos de apego ou idolatria.
Outra particularidade é a diversidade temática da coletânea. O livro inclui não apenas questões doutrinais, mas também estudos sobre morte, identidade e Tantra. O ensaio “Experiência Sexual e Iluminação na Tradição Tântrica”, por exemplo, mostra que o volume ultrapassa uma apresentação introdutória do Budismo e aborda aspetos mais especializados das tradições Vajrayāna.
Descobrir Buda situa-se numa zona intermédia entre ensaio filosófico, estudo das religiões e reflexão contemplativa. Alguns capítulos possuem uma orientação claramente académica, enquanto outros desenvolvem interpretações filosóficas e espirituais assumidas pelo próprio autor. Por isso, não deve ser utilizado como se fosse uma história crítica e exaustiva do Budismo, mas como uma coletânea de estudos que combina análise textual e filosófica com uma leitura comprometida da tradição budista. Esta característica é também parte do interesse da obra, pois permite observar como o Budismo é recebido e interpretado no pensamento filosófico português contemporâneo.
Português — idioma original
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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