Título original: Nāsadīya Sūkta नासदीय सूक्त
Autor: Vasudeva S. Agrawala
Traduzido por: Vasudeva S. Agrawala
Ano da primeira edição: 1963
Editora da primeira edição: Vasudeva S. Agrawala
Local da primeira edição: Varanasi, Índia
Idioma original: Sânscrito/Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
Hymn of Creation é um estudo dedicado ao Nāsadīya Sūkta, o hino 129 do décimo livro do Ṛgveda. Composto por apenas sete estrofes, este texto tornou-se uma das passagens mais conhecidas da literatura védica devido à forma interrogativa e filosoficamente aberta com que aborda a origem do universo.
O hino começa por declarar que, no princípio, não existiam claramente nem o não-ser, asat, nem o ser, sat. Não havia espaço, céu, morte ou imortalidade, nem a distinção habitual entre noite e dia. Em vez de apresentar imediatamente uma divindade criadora perfeitamente definida, o poema descreve uma condição primordial que ultrapassa as categorias empregadas para compreender o mundo manifestado.
Agrawala examina o vocabulário e as imagens do hino dentro do pensamento cosmogónico védico. A criação não é apresentada simplesmente como o fabrico do mundo por um deus exterior. O poema procura pensar a passagem de uma realidade indiferenciada para a multiplicidade, a ordem e a consciência.
Um dos momentos centrais é o aparecimento de kāma, “desejo”, descrito como a primeira semente da mente. Neste contexto, o desejo não significa apenas paixão individual. Representa o impulso inicial por meio do qual a manifestação e a diferenciação se tornam possíveis. Os sábios procuram então descobrir, através da reflexão interior, a ligação entre o ser e o não-ser.
O hino menciona também tapas, termo que pode designar calor, ardor ou potência criadora. Em textos indianos posteriores, a palavra será associada à austeridade e à disciplina ascética, mas no contexto védico possui uma dimensão cosmogónica: o calor ou energia através dos quais algo emerge da condição primordial.
As últimas estrofes tornam o texto particularmente invulgar. O poeta pergunta quem conhece verdadeiramente a origem do universo e se os próprios deuses poderiam conhecê-la, uma vez que surgiram depois da criação. A conclusão admite até a possibilidade de que o observador supremo, situado no céu mais elevado, saiba ou talvez não saiba como tudo começou.
Agrawala interpreta esta linguagem como expressão de uma investigação védica profunda sobre a unidade, a manifestação e os limites do conhecimento humano. A obra combina explicação filológica com uma leitura simbólica e filosófica característica dos seus estudos sobre a cultura indiana.
O livro chama a atenção para a complexidade intelectual da poesia védica. O Nāsadīya Sūkta não oferece uma narrativa cosmogónica simples nem apresenta uma doutrina dogmática sobre a criação. Constrói a reflexão através de paradoxos, perguntas e negações.
A suspensão do juízo presente na última estrofe é especialmente significativa. O texto reconhece que a origem do universo pode exceder tanto o conhecimento humano como as categorias religiosas convencionais. Por isso, é frequentemente considerado um dos primeiros exemplos preservados de especulação cosmológica e de reflexão sobre os limites do conhecimento no sul da Ásia.
A obra também é importante para compreender o método de Agrawala. O autor procura interpretar palavras, imagens e símbolos védicos como partes de uma visão coerente da realidade. A sua abordagem pertence a uma geração de investigadores indianos que procurou estudar o património védico a partir do domínio das fontes sânscritas e não apenas através das interpretações produzidas pela indologia europeia.
A relação com o Yoga é indireta. O Nāsadīya Sūkta não ensina posturas, controlo respiratório, concentração ou um caminho sistemático de libertação. Foi composto muitos séculos antes da formação do Yoga clássico associado a Patañjali.
Contudo, conceitos como tapas, kāma, mente, unidade e investigação interior adquiriram grande importância nas tradições ascéticas e filosóficas posteriores. A afirmação de que os sábios procuraram no coração, através da reflexão, a ligação entre o ser e o não-ser pode ser comparada com formas posteriores de contemplação, desde que não seja apresentada como uma descrição direta de meditação yóguica.
Para os Estudos do Yoga, o volume ajuda a compreender o ambiente especulativo mais antigo do qual emergiram perguntas sobre consciência, existência, manifestação e conhecimento. A sua relevância é principalmente histórica e filosófica, não prática.
A designação Nāsadīya Sūkta deriva das palavras iniciais do hino, nāsad āsīn no sad āsīt tadānīm: “então não existia o não-ser, nem existia o ser”. A expressão “Hino da Criação” é um título moderno e conveniente, mas pode ser enganadora, porque o texto não afirma de maneira inequívoca que tenha ocorrido uma criação deliberada.
As traduções variam consideravelmente. Termos como sat, asat, tapas e kāma possuem campos semânticos amplos e não correspondem perfeitamente a “ser”, “não-ser”, “austeridade” e “desejo” nas suas aceções modernas.
A interpretação de Agrawala deve ser lida como uma proposta erudita, mas historicamente situada. A investigação contemporânea não considera que o Ṛgveda apresente uma única cosmologia uniforme. Os diferentes hinos preservam conceções diversas sobre a origem e a organização do universo.
As leituras metafísicas e simbólicas de Agrawala podem iluminar as relações internas do texto, mas não representam consenso académico. O caráter interrogativo da última estrofe deve ser preservado: transformar o hino numa afirmação definitiva de monismo, teísmo, ateísmo ou ceticismo elimina deliberadamente a sua ambiguidade poética.
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
Utilizamos cookies necessários ao funcionamento do site e, mediante o seu consentimento, cookies estatísticos e serviços externos, como conteúdos de vídeo. Pode aceitar, recusar ou gerir as suas preferências. A recusa ou retirada do consentimento poderá limitar algumas funcionalidades.