O Mito Do Eterno Retorno

O Mito Do Eterno Retorno

Título original: Le Mythe de l’éternel retour

Autor: Mircea Eliade

Ano da primeira edição: 1949

Editora da primeira edição: Gallimard

Local da primeira edição: Paris, França

Idioma original: Romeno

Existe edição em língua portuguesa? Sim

Resumo

O Mito do Eterno Retorno investiga a maneira como diferentes sociedades tradicionais concebiam o tempo, a história e a repetição ritual. Eliade contrapõe aquilo que chama de conceção “arcaica” do tempo à conceção histórica característica da modernidade.

Segundo a sua interpretação, muitas sociedades tradicionais não atribuíam valor absoluto aos acontecimentos simplesmente porque tinham ocorrido num determinado momento histórico. As ações humanas adquiriam significado ao repetir gestos exemplares realizados por deuses, antepassados ou heróis num tempo mítico primordial.

Rituais, festas, fundações de cidades, casamentos, iniciações e outros acontecimentos podiam assim atualizar modelos míticos anteriores. A repetição permitia simbolicamente regressar ao tempo das origens e renovar o mundo.

Eliade desenvolve ainda a ideia de regeneração periódica do tempo, analisando mitos de criação, ciclos cósmicos, ritos de Ano Novo, catástrofes e diferentes conceções da repetição da história.

Porque é importante

A importância da obra está sobretudo na formulação de algumas das ideias que se tornariam centrais no pensamento de Eliade: a oposição entre tempo sagrado e tempo profano, o valor dos arquétipos míticos, a repetição ritual e a necessidade humana de conferir significado ao acontecimento histórico.

O livro exerceu enorme influência na História das Religiões do século XX porque propôs uma interpretação comparativa de tradições pertencentes a contextos culturais muito diferentes.

Para Eliade, o ritual não é simplesmente uma comemoração simbólica. Através da repetição do modelo mítico, o participante procura participar novamente no acontecimento primordial e restaurar a ordem do cosmos.

A obra ajuda, por isso, a compreender a importância que Eliade atribui ao mito como realidade ativa na experiência religiosa.

Interesse para o estudo do Yoga

O interesse desta obra para os Estudos do Yoga é indireto, mas relevante para compreender a interpretação religiosa que Eliade faz das tradições indianas. O livro ajuda a contextualizar conceitos como tempo cíclico, renovação cósmica, repetição ritual, karma, saṃsāra e libertação dentro do quadro comparativo que orientou grande parte da sua investigação. Para o estudo histórico do Yoga, a obra é especialmente útil não como fonte sobre técnicas ou textos yóguicos específicos, mas para compreender a metodologia através da qual Eliade interpretou a experiência religiosa indiana e a oposição entre existência condicionada pelo tempo e procura de transcendência. Esta perspetiva reaparece de forma muito mais diretamente aplicada ao Yoga em obras como Yoga: Immortality and Freedom, tornando O Mito do Eterno Retorno um complemento importante para compreender o pensamento geral de Eliade sobre tempo, história e libertação.

Curiosidade bibliográfica

Um pormenor bibliográfico particularmente interessante é que a edição francesa de 1949 não corresponde simplesmente a um original escrito diretamente em francês. A BnF identifica expressamente Jean Gouillard e Jacques Soucasse como tradutores do romeno.

A primeira edição integrou a coleção Les Essais da Gallimard e tinha 255 páginas. Existem pequenas divergências entre catálogos quanto ao número exato atribuído ao volume dentro da coleção, mas a BnF confirma inequivocamente editora, lugar e ano da primeira publicação.

O título tornou-se também uma das expressões mais associadas ao pensamento de Eliade, embora “eterno retorno” tenha uma história filosófica anterior e apareça, por exemplo, em Nietzsche com um sentido muito diferente.

Nota académica

O Mito do Eterno Retorno constitui uma obra fundamental para compreender a abordagem comparativa e fenomenológica de Mircea Eliade, mas vários dos seus conceitos devem hoje ser utilizados com cautela. A oposição entre sociedades “arcaicas” orientadas pelo mito e sociedades modernas orientadas pela história tende a agrupar culturas muito diferentes dentro de categorias demasiado abrangentes, enquanto a noção de arquétipo em Eliade não corresponde exatamente ao conceito psicológico desenvolvido por Carl Gustav Jung. Apesar destas limitações, a obra continua extremamente importante para a história dos Estudos Religiosos e para compreender como mito, ritual e temporalidade foram conceptualizados na segunda metade do século XX. A sua atual relevância é, portanto, simultaneamente teórica e historiográfica.

Disponibilidade

Edições disponíveis

Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga