The Law Code of Viṣṇu

The Law Code of Viṣṇu

Título original: Vaiṣṇavadharmaśāstra वैष्णवधर्मशास्त्र

Subtítulo: A Critical Edition and Annotated Translation of the Vaiṣṇava-Dharmaśāstra

Autor: Desconhecido

Traduzido por: Patrick Livelle

Ano da primeira edição: 2009

Editora da primeira edição: Harvard University Press

Local da primeira edição: Cambridge, Massachusetts, Estados Unidos da América

Idioma original: Sânscrito/Inglês

Existe edição em língua portuguesa? Não

Resumo

The Law Code of Viṣṇu apresenta a primeira edição crítica acompanhada por uma tradução inglesa anotada do Vaiṣṇavadharmaśāstra, também conhecido como Viṣṇusmṛti. A obra pertence à tradição sânscrita do Dharmaśāstra, constituída por textos dedicados ao dharma: normas religiosas, rituais, sociais, jurídicas e morais consideradas necessárias à preservação da ordem individual e coletiva.

O texto encontra-se dividido em cem capítulos e combina prosa com versos. Trata de assuntos como as categorias sociais, os deveres do rei, a administração da justiça, os contratos, as dívidas, os testemunhos, as provas judiciais, a herança, os funerais, a pureza e a impureza, o casamento, as obrigações familiares, as penitências, as oferendas aos antepassados, a vida doméstica, a vida ascética e a meditação em Viṣṇu.

A obra distingue-se de outros textos da literatura do Dharmaśāstra pelo enquadramento explicitamente vaiṣṇava. A narrativa começa após a dissolução de um ciclo cósmico, quando a Terra permanece submersa nas águas. Viṣṇu assume a forma de Varāha, o javali, e resgata-a. Preocupada com o futuro da ordem do mundo, a Terra pergunta quem a sustentará. Viṣṇu responde que será sustentada pelas pessoas que observarem o dharma correspondente às categorias sociais e aos modos de vida.

A partir desta moldura narrativa, a deusa Terra pede a Viṣṇu que explique as normas destinadas aos diferentes grupos sociais. Ao contrário do que sucede em alguns tratados normativos, onde a narrativa inicial praticamente desaparece após os primeiros capítulos, o diálogo entre Viṣṇu e a Terra continua a enquadrar a exposição.

A identidade do autor histórico é desconhecida. Patrick Olivelle considera provável que tenha sido um brâmane conhecedor da tradição do Dharmaśāstra, pertencente à escola Kāṭhaka do Yajurveda Negro e simultaneamente ligado a uma tradição vaiṣṇava próxima do Pañcarātra.

Olivelle situa a composição da obra aproximadamente no século VII d.C. e propõe a Caxemira como o seu contexto geográfico. Esta localização baseia-se em elementos linguísticos, religiosos e, sobretudo, nas descrições iconográficas das formas de Viṣṇu. Uma formulação cronológica mais prudente coloca o texto entre os séculos VI e VIII. A data e a proveniência propostas por Olivelle são argumentos filológicos e históricos, não informações fornecidas explicitamente por um manuscrito datado.

Porque é importante

O Vaiṣṇavadharmaśāstra é importante porque permite observar a aproximação entre a literatura normativa bramânica e a religiosidade devocional dedicada a Viṣṇu. Outros Dharmaśāstras mencionam divindades e rituais, mas nesta obra a devoção vaiṣṇava ocupa uma posição estrutural e não apenas acessória.

A autoridade do dharma é apresentada dentro de uma cosmologia na qual Viṣṇu preserva o mundo. A observância das normas sociais e religiosas transforma-se, assim, numa forma de sustentação da própria Terra. O texto associa a ordem social à devoção, ao ritual, às peregrinações, às oferendas e à contemplação da divindade.

A obra também possui interesse para a história regional da Índia. A localização proposta na Caxemira permite relacionar o texto com o desenvolvimento da iconografia e das tradições vaiṣṇavas naquela região. Entre os Dharmaśāstraspreservados, é uma das obras cuja proveniência Olivelle considera possível determinar com maior precisão.

O texto recorre amplamente a materiais normativos anteriores, incluindo tradições associadas a Manu e Yājñavalkya. Contudo, não se limita a reproduzi-las. Reorganiza os conteúdos dentro de uma perspetiva vaiṣṇava e inclui assuntos que adquiriram maior importância na religiosidade medieval, como o culto de imagens, a peregrinação a lugares sagrados e formas devocionais de expiação.

O Vaiṣṇavadharmaśāstra foi utilizado por autores de compêndios jurídicos e religiosos medievais. Embora não tenha alcançado a autoridade ou a difusão do Mānavadharmaśāstra, determinadas secções foram citadas extensamente por compiladores posteriores, o que demonstra a sua circulação dentro da tradição erudita do dharma.

A edição de Olivelle representa um contributo decisivo porque estabelece o texto sânscrito através da comparação de quinze manuscritos. O volume reúne introdução histórica e filológica, tradução anotada, edição crítica, variantes manuscritas, paralelos com outros textos normativos, índices e apêndices terminológicos.

Interesse para o estudo do Yoga

A relação de The Law Code of Viṣṇu com o Yoga é indireta, mas relevante para a história do ascetismo, da meditação devocional e da disciplina religiosa. A obra não é um tratado sistemático de Yoga, não apresenta o Yoga de oito membros de Patañjali e não ensina técnicas de Haṭha Yoga.

O texto dedica passagens aos modos de vida do eremita e do renunciante. Apresenta normas sobre alimentação, redução das posses, celibato, mendicância, domínio dos sentidos, disciplina corporal e afastamento das obrigações domésticas. Estes elementos pertencem ao universo ascético mais amplo no qual diferentes tradições de Yoga se desenvolveram.

A vida ascética é integrada numa conceção bramânica dos āśramas, os modos ou etapas de vida. O texto procura conciliar o ideal da renúncia com a ordem social e ritual, atribuindo lugares específicos ao estudante, ao chefe de família, ao habitante da floresta e ao asceta. Esta organização normativa não deve ser confundida com uma descrição de todos os ascetas históricos, muitos dos quais viveram fora das estruturas prescritas pelos Dharmaśāstras.

O capítulo dedicado à meditação em Viṣṇu apresenta o interesse mais direto para os Estudos do Yoga. A contemplação da divindade é integrada numa prática religiosa marcada pela devoção, pela visualização e pela concentração. Esta orientação aproxima a obra de formas medievais de Yoga devocional, embora não constitua uma exposição completa de um sistema yóguico.

A presença da bhakti é particularmente significativa. O texto mostra que meditação, disciplina e libertação podiam ser enquadradas por uma relação devocional com uma divindade pessoal. Para o estudo histórico do Yoga, ajuda a ultrapassar a ideia de que a meditação indiana se desenvolveu exclusivamente dentro de sistemas filosóficos não teístas ou de práticas orientadas apenas para o isolamento da consciência.

O vocabulário de autocontrolo, pureza, penitência e domínio dos sentidos pode ser comparado com conceitos encontrados no Pātañjalayogaśāstra, na Bhagavadgītā e noutros textos ascéticos. Contudo, a presença de conceitos semelhantes não demonstra dependência direta nem identidade doutrinal. Estas ideias circulavam por diferentes tradições e eram adaptadas aos seus respetivos contextos religiosos.

Curiosidade bibliográfica

A obra é conhecida tanto como Viṣṇusmṛti como Vaiṣṇavadharmaśāstra. O primeiro título significa aproximadamente “tradição recordada de Viṣṇu”; o segundo identifica-a como um tratado vaiṣṇava sobre o dharma. Patrick Olivelle prefere Vaiṣṇavadharmaśāstra por considerar que este título exprime melhor a identidade religiosa e o género textual da obra.

O Vaiṣṇavadharmaśāstra é o primeiro texto da tradição do Dharmaśāstra preservado a mencionar explicitamente a possibilidade de uma viúva morrer na pira funerária do marido. A passagem não demonstra que a prática fosse comum, universal ou socialmente incontestada. A presença de uma prescrição num texto normativo apenas comprova que o tema era conhecido pelo seu autor e integrado no seu projeto religioso.

O único comentário integral preservado foi composto por Nandapaṇḍita em 1622 e recebeu o título Keśavavaijayantī. A distância cronológica entre o tratado e este comentário mostra que a sua receção exegética foi menos extensa do que a de textos como as obras atribuídas a Manu e Yājñavalkya.

Antes da edição de Olivelle, a tradução inglesa mais conhecida era The Institutes of Vishnu, preparada por Julius Jolly e publicada em 1880 no volume VII da coleção Sacred Books of the East. A tradução de Jolly mantém valor histórico, mas foi realizada antes do desenvolvimento dos atuais métodos de crítica textual e não se baseia na reconstrução estabelecida por Olivelle.

Nota académica

A palavra “lei” no título inglês não deve ser interpretada no sentido restrito do direito moderno. O Vaiṣṇavadharmaśāstracombina matérias jurídicas com ritual, pureza, cosmologia, penitência, devoção, peregrinação e libertação. A separação contemporânea entre direito, religião e moral não corresponde à organização conceptual da obra.

O texto é uma fonte normativa bramânica e não uma descrição imparcial da sociedade indiana. As suas prescrições exprimem os interesses e valores de uma determinada tradição erudita. Não demonstram que todas as comunidades da Caxemira ou da Índia observassem as mesmas normas.

A obra contém hierarquias baseadas no nascimento, no género e na posição ritual. Também apresenta punições diferenciadas conforme o estatuto social e normas que restringem a autonomia das mulheres e de grupos considerados inferiores pela estrutura de varṇa. Estas passagens devem ser contextualizadas criticamente e não apresentadas como princípios universais do hinduísmo.

A referência à morte da viúva na pira funerária exige especial prudência. O texto constitui uma das primeiras evidências normativas conhecidas dessa prática na literatura do Dharmaśāstra, mas não permite determinar a sua frequência histórica. Prescrição textual, ocorrência social e aceitação religiosa são questões distintas.

A datação no século VII e a localização na Caxemira representam a conclusão defendida por Patrick Olivelle através de argumentos textuais e iconográficos. Embora esta proposta seja influente, as datas atribuídas ao Viṣṇusmṛti variaram amplamente na investigação anterior. Deve, portanto, ser apresentada como a reconstrução mais recente do editor, e não como um facto documental absolutamente estabelecido.

Disponibilidade

Edições disponíveis

Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga