Título original: The Presence of Śiva
Autor: Stella Kramrisch
Ano da primeira edição: 1981
Editora da primeira edição: Princeton University Press
Local da primeira edição: Princeton, New Jersey, Estados Unidos.
Idioma original: Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
The Presence of Śiva é uma investigação ampla sobre a formação, evolução e significado religioso da figura de Śiva. Kramrisch começa muito antes do Śiva purânico plenamente desenvolvido, procurando as suas raízes em Rudra e noutras figuras védicas. A partir daí acompanha diferentes transformações da divindade através de mitos, rituais e textos posteriores.
A obra aborda Śiva como uma figura profundamente paradoxal: asceta e erótico, destruidor e criador, selvagem e senhor do cosmos, imóvel e dançante, masculino e andrógino, terrível e benevolente. O índice mostra bem essa amplitude. O livro termina ainda com um importante apêndice sobre o grande templo rupestre de Śiva em Elephanta.
A importância da obra está na tentativa de compreender Śiva não como uma figura mitológica isolada, mas como uma realidade religiosa construída através de vários séculos de textos, rituais, imagens e tradições. Kramrisch explora Śiva como aquilo que ela interpreta como união de opostos: criação e destruição, ascetismo e sexualidade, forma e ausência de forma, permanência e transformação. Esta abordagem é especialmente importante porque permite compreender por que razão Śiva ocupa uma posição tão central em tantas tradições de Yoga e Tantra. A descrição editorial da Princeton resume precisamente esta ideia ao apresentar Śiva como “o Deus Selvagem, “o Grande Yogue” e a soma dos opostos.
O interesse de The Presence of Śiva para os Estudos do Yoga é muito elevado. Śiva aparece repetidamente como yogi, asceta, senhor do Yoga e figura associada a tapas, samādhi, controlo do corpo, sexualidade sublimada, renúncia e transformação da consciência. O livro permite compreender o contexto mítico e religioso no qual Śiva se tornou uma das grandes figuras de referência das tradições yóguicas e tântricas. É particularmente importante para estudar Śaivismo, Haṭhayoga e Tantra, porque muitos desses sistemas desenvolveram-se em ambientes onde Śiva era concebido simultaneamente como divindade suprema, mestre do Yoga e modelo de ascetismo.
Uma curiosidade particularmente interessante é que Kramrisch não parte apenas dos Purāṇas. O livro começa com fontes védicas e procura reconstruir uma longa genealogia de Śiva a partir de Rudra, dos mitos védicos e de figuras relacionadas. Isto significa que a obra tenta cobrir um arco temporal enorme, desde o Ṛgveda até às tradições purânicas e à iconografia medieval. Outra curiosidade é a presença de capítulos dedicados ao liṅga, Ardhanārīśvara, Bhairava e ao templo de Elephanta, mostrando que Kramrisch integra texto, mito e arte numa única interpretação.
The Presence of Śiva é uma obra clássica, mas deve ser lida com algum cuidado metodológico. Kramrisch tende a construir grandes continuidades entre Rudra védico e Śiva posterior. A investigação contemporânea é geralmente mais cautelosa quanto à ideia de uma linha evolutiva única e contínua. Além disso, a autora interpreta frequentemente os mitos como expressões de estruturas metafísicas profundas e relativamente universais. Esta abordagem é característica da sua obra, mas pode por vezes reduzir diferenças históricas e sectárias. Apesar disso, The Presence of Śiva continua extremamente valioso, sobretudo como estudo de síntese sobre mitologia, simbolismo e receção religiosa de Śiva.
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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