“Entre a missa dominical e o yoga à terça-feira”

Yoga? Isso não é coisa do Demó?

Há projetos que nascem com um propósito claro. E há outros que, aparentemente, precisam primeiro de passar pelo crivo invisível da política local — esse grande mestre espiritual contemporâneo. O meu não foi exceção: uma primeira proposta de Yoga para Seniores rejeitada, silêncio institucional, eleições autárquicas pelo meio… e, subitamente, uma segunda oportunidade. Coincidência? Talvez. Ou talvez este seja apenas o primeiro ensinamento prático de karma aplicado à burocracia.

Mas o verdadeiro desafio nem foi esse.

Quando comecei a trabalhar com seniores, rapidamente percebi que não estava apenas a introduzir uma prática corporal. Estava, na verdade, a entrar num campo simbólico muito mais delicado: o da representação cultural e religiosa do yoga em Portugal.

Para uma parte significativa destes “velhotes” — muitos ainda profundamente ligados à prática católica, com missa ao domingo incluída e comunhão, SFF — a palavra “yoga” não evoca mobilidade, respiração ou bem-estar. Evoca… suspeita. Em alguns casos, uma suspeita bastante concreta: a ideia de que o yoga implica invocar entidades estranhas, “deuses hindus” ou, na versão mais dramática, algo próximo de “coisas do demó”, como se diz em bom Algarvio.

O problema, não é o yoga em si, mas a forma como ele foi (e continua a ser) representado, simplificado e, por vezes, sensacionalizado. Em Portugal, essa representação oscila entre dois extremos igualmente redutores: ou é visto como uma prática quase mística, carregada de exotismo religioso oriental; ou como uma atividade fitness desprovida de qualquer enquadramento.

Nenhuma destas imagens ajuda.

E é aqui que o trabalho começa antes mesmo do primeiro āsana.

Antes de ensinar um movimento, explico o que não vamos fazer:
não vamos rezar, não vamos invocar nada, não vamos substituir crenças pessoais.
Vamos respirar, mexer o corpo e, com alguma sorte, rir um pouco pelo caminho.

Curiosamente, este esclarecimento inicial tem um efeito quase imediato. Dissipa resistências, abre espaço para a experiência direta e devolve a prática ao seu lugar mais simples: o de uma ferramenta.

Depois disso, sim — começamos.

Começámos com 16 pessoas. Sentadas. Sempre sentadas.
Hoje há dias onde são mais de 24 — ainda sentadas — numa sala que claramente não foi desenhada para acolher um mini congresso de articulações em movimento. A logística obriga à criatividade: aqui, o yoga desmonta-se em peças. Há dias de “parte de cima” e dias de “parte de baixo”. O Vīrabhadrāsana II acontece só dos ombros para cima. O Gomukhāsana surge com cinto e paciência. E o Garudāsana… bem, esse ganhou uma nova vida só com os braços — e um sucesso inesperado estilo discos pedidos em cada sessão.

Há uma certa poesia em ver mãos marcadas por décadas de trabalho tentarem, com uma concentração quase filosófica, entrelaçar dedos que já viram muito mais do que qualquer tapete de yoga contemporâneo. Não há pressa. Não há estética. Há tentativa — e isso basta.

A respiração, claro, é outro capítulo.

O Nāḍī Śodhana rapidamente se transforma num exercício coletivo de improviso: entre dedos que não obedecem, “Esquerda” que se transforma em “Direita” (e vis-versa), narinas que se confundem e mudra que parece mais saído dum concerto de rock do que de um tratado clássico. Já tive versões “heavy metal”, fazer um manguito sem querer, “Hang Loose” havaiano, e ocasionalmente, a solução mais direta: um dedo decidido dentro de cada narina. Funciona? Não me parece. Mas rimo-nos — e isso, do ponto de vista fisiológico, também conta.

As práticas são curtas. Não por falta de vontade, mas por respeito. O corpo — e o cérebro — habituaram-se a determinados padrões respiratórios e metabólicos ao longo de décadas. Alterá-los abruptamente não é só inútil; pode ser contraproducente. Por isso, aqui pratica-se com medida. QB, como diria qualquer receita portuguesa.

E depois há as pequenas vitórias.

A Luisa que já consegue levantar os braços sem dor.
O Xavier que descobriu que ainda tem equilíbrio.
O grupo que percebe, quase com surpresa, que a idade não é uma sentença funcional absoluta — é, no máximo, uma variável a considerar.

Não há fotografias. Nem “antes e depois”. Nem poses estrategicamente captadas para redes sociais. E aqui convém ser clara: nunca compreendi bem esta necessidade de documentar alunos em práticas que, vistas de fora, são… previsíveis. Quantas versões diferentes existem, afinal, de um grupo em Adho Mukha Śvānāsana? Ou de olhos fechados, sem sorrir, em meditação? A diferença não está na imagem. Está na experiência — e essa não é fotogénica.

O ponto alto, curiosamente, chega no fim.

O relaxamento. Na cadeira, claro.

É aí que entra uma relíquia pessoal: um CD que trouxe de Xangai, nos tempos em que trabalhava em paquetes de Luxo. Um equilíbrio quase científico entre sons de pássaros e música subtil — suficientemente neutro para não distrair, suficientemente rico para acolher. E, de repente, a sala transforma-se: há quem viaje para memórias antigas, quem tente identificar o som do “mar bravo” ou a espécie dos pássaros, e há quem simplesmente… adormeça (a maior parte lol).

Talvez seja isso.

Talvez o maior obstáculo nunca tenha sido a idade, nem a rigidez, nem a falta de mobilidade.
Talvez tenha sido — e continue a ser — a ideia errada sobre o que é o yoga.

E quando essa ideia cai, o resto… vem atrás.

No fim de tudo, ainda me convidam para lanchar, bolos, sandes e chá de camomila.

Se isto não é karma yoga, então — com todo o respeito — talvez o problema nunca tenha sido o yoga.

Vic

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