Título original: সুরেন্দ্রনাথ দাশগুপ্ত
Autor: Surendranath Dasgupta
Ano da primeira edição: 1922
Editora da primeira edição: Cambridge University Press
Local da primeira edição: Cambridge, Reino Unido
Idioma original: Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
A History of Indian Philosophy, Volume I é o primeiro volume do grande projeto de Surendranath Dasgupta dedicado à reconstrução histórica e sistemática da filosofia indiana. A obra procura demonstrar que as tradições intelectuais da Índia constituem sistemas filosóficos complexos, fundados em argumentos, debates, métodos de conhecimento e análises da realidade, e não apenas conjuntos de crenças religiosas ou especulações místicas.
O volume começa com a literatura védica e examina as conceções religiosas e cosmológicas encontradas nos Vedas e nos Brāhmaṇas. Dasgupta procura identificar nestes materiais antigos os problemas que mais tarde seriam desenvolvidos pelas escolas filosóficas: a origem do universo, a natureza do ritual, a eficácia da palavra sagrada, a relação entre seres humanos e deuses e a procura de um princípio fundamental da realidade.
A interpretação do período védico reflete o estado da investigação disponível no início do século XX. Dasgupta procura organizar textos compostos ao longo de vários séculos numa sequência de desenvolvimento intelectual. Algumas das suas cronologias e reconstruções históricas foram posteriormente revistas, mas o esforço de relacionar a literatura ritual com a formação da filosofia indiana permanece relevante.
O capítulo dedicado às primeiras Upaniṣads analisa a passagem de uma preocupação centrada no sacrifício exterior para formas de interiorização ritual e investigação sobre o ser humano. Conceitos como ātman, brahman, ação, renascimento e libertação são apresentados como resultados de um processo de reflexão desenvolvido em diferentes textos e contextos.
Dasgupta não trata as Upaniṣads como expressão de uma doutrina inteiramente uniforme. Reconhece a existência de diferentes formulações sobre o ser, a consciência, o princípio cósmico e o destino depois da morte. Contudo, tende a organizar essas diferenças em direção a uma compreensão progressivamente mais sistemática da unidade entre ātman e brahman.
Depois das fontes védicas, o autor apresenta observações gerais sobre os sistemas de filosofia indiana. Examina temas comuns como a autoridade dos textos, a libertação, o sofrimento, a ação kármica, o renascimento, a natureza do conhecimento e os meios de conhecimento válido, ou pramāṇas.
O budismo recebe uma análise extensa. Dasgupta discute a vida e o ensinamento do Buda, as quatro nobres verdades, a origem dependente, a impermanência, a ausência de um eu permanente e as diferentes teorias budistas sobre a consciência e a realidade.
O autor procura acompanhar a passagem dos ensinamentos budistas antigos para formulações filosóficas associadas a diferentes escolas. A reconstrução foi realizada antes de muitos dos avanços posteriores nos estudos budistas, incluindo a publicação de novos manuscritos e o desenvolvimento de métodos mais precisos para distinguir fontes em pāli, sânscrito, tibetano e chinês.
O jainismo é apresentado como uma tradição filosófica independente. Dasgupta discute a conceção jainista da alma, da matéria, do karma, da libertação e da pluralidade dos pontos de vista. Dedica atenção às doutrinas de anekāntavāda, segundo a qual a realidade possui múltiplos aspetos, e de syādvāda, relacionada com a formulação condicionada dos juízos.
Uma das partes mais importantes do livro é o capítulo intitulado “The Kapila and the Pātañjala Sāṃkhya (Yoga)”. Dasgupta examina conjuntamente o Sāṃkhya atribuído à tradição de Kapila e o Yoga associado a Patañjali. Para o autor, as duas escolas partilham grande parte da sua estrutura metafísica, apesar de apresentarem diferenças teológicas e práticas.
O Sāṃkhya é exposto através da distinção entre puruṣa, a consciência, e prakṛti, a natureza primordial. A evolução do mundo ocorre através da transformação de prakṛti, produzindo o intelecto, o sentido de individualidade, a mente, as capacidades sensoriais e motoras e os elementos da realidade material.
Os três guṇas — sattva, rajas e tamas — são apresentados como constituintes fundamentais de prakṛti. A diversidade da experiência resulta das diferentes proporções e relações entre estas qualidades. A libertação ocorre quando se produz o conhecimento discriminativo entre a consciência e a natureza.
Na secção sobre o Yoga de Patañjali, Dasgupta analisa a definição do Yoga como cessação ou controlo das atividades mentais, as diferentes condições da mente, as formas de concentração, o papel das aflições, o karma, o samādhi e o caminho de oito membros.
Os oito membros — yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi — são interpretados como componentes de um processo destinado a disciplinar o corpo e a mente e a conduzir ao discernimento libertador. A postura ocupa apenas uma parte limitada deste sistema.
Dasgupta também discute Īśvara, o “Senhor especial” reconhecido no Yogasūtra. Considera que a aceitação de Īśvara constitui uma das diferenças mais evidentes entre o Yoga de Patañjali e determinadas formulações não teístas do Sāṃkhya. A relação histórica entre os dois sistemas, porém, é mais complexa do que uma simples oposição entre Sāṃkhya ateu e Yoga teísta.
O volume prossegue com o Nyāya e o Vaiśeṣika. Dasgupta examina as teorias da inferência, perceção, linguagem, substâncias, qualidades, movimento, universalidade e causalidade. Estas escolas mostram que a filosofia indiana desenvolveu formas sofisticadas de lógica, epistemologia e análise ontológica.
A Mīmāṃsā é apresentada através da defesa da autoridade do Veda, da interpretação das prescrições rituais, da natureza da linguagem e da teoria da ação. O autor explica como os pensadores desta escola procuraram justificar a validade intrínseca do conhecimento e a eternidade da relação entre palavras e significados.
O volume termina com a escola de Śaṅkara e o Advaita Vedānta. Dasgupta analisa a relação entre brahman, ātman, mundo e ignorância, bem como a teoria segundo a qual a libertação depende do conhecimento da realidade não dual. A exposição do Advaita continua no segundo volume.
A History of Indian Philosophy foi uma das primeiras tentativas modernas de apresentar, em inglês e numa escala monumental, o desenvolvimento das filosofias indianas através de um estudo direto das fontes. A obra contribuiu para estabelecer a filosofia indiana como área legítima de investigação académica internacional.
Dasgupta possuía formação em sânscrito, filosofia indiana e filosofia europeia. Esta combinação permitiu-lhe apresentar os sistemas indianos a leitores habituados às categorias da história da filosofia ocidental, sem depender exclusivamente das interpretações produzidas por orientalistas europeus.
A obra surgiu num contexto colonial em que a filosofia indiana era frequentemente reduzida a religião, misticismo ou sabedoria intemporal. Dasgupta demonstrou que as tradições indianas discutiam questões de lógica, linguagem, causalidade, consciência, ontologia e epistemologia através de argumentos altamente especializados.
O primeiro volume é particularmente importante por incluir tradições bramânicas, budistas e jainistas. Embora a organização continue a dar grande peso aos chamados sistemas ortodoxos, o autor reconhece o papel decisivo das controvérsias entre diferentes comunidades na formação da filosofia indiana.
A apresentação conjunta do Sāṃkhya e do Yoga influenciou profundamente o estudo moderno destas tradições. Dasgupta mostrou que o Yogasūtra não pode ser compreendido apenas como manual de meditação: pressupõe uma estrutura metafísica, psicológica e soteriológica relacionada com o Sāṃkhya.
A obra também possui importância historiográfica. Permite observar como um investigador indiano do início do século XX procurou construir uma história nacional da filosofia durante o período colonial. As escolhas de Dasgupta refletem simultaneamente domínio filológico, compromisso com a tradição intelectual indiana e diálogo com modelos europeus de história da filosofia.
O primeiro volume é uma das obras de Dasgupta mais relevantes para os Estudos do Yoga. O capítulo dedicado ao Sāṃkhya de Kapila e ao Yoga de Patañjali apresenta uma exposição extensa das bases metafísicas, psicológicas e práticas do Yoga clássico.
Dasgupta explica o Yoga através da relação entre puruṣa e prakṛti. A consciência encontra-se aparentemente envolvida nas transformações da mente e da matéria, embora permaneça distinta delas. A prática procura eliminar essa identificação e produzir o discernimento necessário à libertação.
A mente não é tratada como equivalente à consciência. Pertence ao domínio de prakṛti e inclui processos de perceção, memória, imaginação, aflição e construção da identidade. Esta distinção é essencial para compreender por que motivo o Yoga procura restringir as atividades mentais sem defender a destruição da consciência.
A exposição de citta–vṛtti-nirodha ajuda a contrariar a redução moderna do Yoga a relaxamento ou exercício físico. No sistema analisado, a disciplina possui uma finalidade soteriológica: libertar a consciência da identificação com os processos mentais e com os resultados da ação.
Dasgupta examina os cinco kleśas — ignorância, egoidade, apego, aversão e apego à continuidade da vida — e relaciona-os com o karma e o renascimento. O Yoga é, assim, apresentado como resposta a uma teoria específica do sofrimento e não apenas como técnica de bem-estar.
O tratamento do samādhi é particularmente importante. Dasgupta distingue diferentes formas de absorção e procura explicar a passagem de estados apoiados num objeto de concentração para níveis em que as sementes das atividades mentais deixam de produzir novos efeitos.
Algumas interpretações do autor foram revistas pela investigação posterior. O conhecimento atual do Pātañjalayogaśāstra, dos comentários, do budismo, do Sāṃkhya e das tradições ascéticas permite formular de maneira mais complexa a história do Yoga clássico.
A investigação recente também questiona a separação excessivamente nítida entre sistemas filosóficos. O Yoga de Patañjali desenvolveu-se num ambiente de interação com tradições budistas, jainistas e bramânicas. A presença de conceitos semelhantes não significa que uma tradição tenha simplesmente copiado outra, mas demonstra um contexto intelectual partilhado.
Para a Saṃsāra, este volume possui valor simultaneamente histórico e historiográfico. É uma fonte clássica para estudar a interpretação do Yoga no início do século XX e uma introdução erudita à relação entre Yoga, Sāṃkhya e as restantes tradições filosóficas indianas.
Dasgupta concebeu inicialmente a obra como um projeto de vários volumes. A publicação prolongou-se por mais de três décadas: o primeiro volume apareceu em 1922 e o quinto em 1955.
O quinto volume, dedicado sobretudo às tradições śaivas do sul da Índia, foi publicado após a morte do autor. Inclui uma memória biográfica escrita por Surama Dasgupta, sua esposa, que ajudou a preservar e organizar o trabalho deixado pelo investigador.
O primeiro volume encontra-se atualmente em domínio público em várias jurisdições e foi amplamente digitalizado. Algumas reproduções comerciais são simples fac-símiles da edição antiga e podem apresentar baixa qualidade de impressão, páginas inclinadas ou erros introduzidos pelo reconhecimento automático de caracteres.
A palavra “History” no título não significa que a obra apresente apenas datas e biografias. Grande parte do livro consiste na reconstrução sistemática dos argumentos, conceitos e relações internas de cada escola.
Dasgupta escreveu posteriormente obras mais especializadas, entre as quais Yoga as Philosophy and Religion e Yoga Philosophy in Relation to Other Systems of Indian Thought. O primeiro volume de A History of Indian Philosophy fornece o enquadramento geral dentro do qual esses estudos mais específicos podem ser compreendidos.
A obra permanece uma referência clássica, mas não representa o estado atual da investigação. Foi escrita antes da descoberta, edição ou estudo adequado de muitas fontes hoje disponíveis. As suas cronologias, genealogias textuais e classificações devem ser comparadas com trabalhos posteriores.
A própria ideia de uma história organizada em “sistemas” pode criar a impressão de que cada escola possuía fronteiras fixas e uma doutrina completamente uniforme. Na realidade, Nyāya, Vaiśeṣika, Sāṃkhya, Yoga, Mīmāṃsā e Vedānta desenvolveram-se ao longo de séculos e incluem divergências internas importantes.
A categoria tradicional dos seis darśanas bramânicos não constitui uma descrição neutra de toda a filosofia indiana. Resulta de processos históricos de classificação que privilegiaram determinadas tradições. Budismo, jainismo, materialismo, gramática e outras correntes participaram igualmente nos debates filosóficos da Índia.
A apresentação do Yoga como “Pātañjala Sāṃkhya” é historicamente útil, mas deve ser empregada com prudência. O Yoga de Patañjali partilha conceitos fundamentais com o Sāṃkhya, mas possui características próprias, e a história de ambos não pode ser reduzida a um único sistema.
As datas atribuídas por Dasgupta às Upaniṣads, ao Buda, a Patañjali, aos sūtras e aos comentários refletem o conhecimento disponível no início do século XX. Algumas continuam plausíveis em termos gerais; outras foram amplamente debatidas ou reformuladas.
A leitura deve ainda considerar o contexto colonial e nacionalista da obra. Dasgupta procurava demonstrar a profundidade e a racionalidade da filosofia indiana perante um meio académico frequentemente eurocêntrico. Este objetivo não invalida a investigação, mas ajuda a compreender determinadas escolhas, comparações e valorizações.
Por fim, o livro é uma fonte secundária, não um texto clássico do Yoga. Para estudar o Yoga de Patañjali, deve ser lido juntamente com o Pātañjalayogaśāstra, os seus comentários e as edições críticas contemporâneas. O seu valor principal encontra-se na qualidade da síntese histórica e no papel que desempenhou na formação moderna dos Estudos da Filosofia Indiana e do Yoga.
Inglês — idioma original
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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