Título original: Religion and The Sense of Self
Autor: Theodora Wildcroft
Ano da primeira edição: 2026
Editora da primeira edição: Equinox Publishing
Local da primeira edição: Sheffield, Reino Unido
Idioma original: Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
Religion and the Sense of Self é uma obra coletiva dedicada às relações entre religião, identidade, corporalidade e experiência subjetiva. O seu ponto de partida é a constatação de que as conceções humanas de identidade ocupam um lugar central tanto nas filosofias religiosas como nas disciplinas académicas que as estudam, mas são frequentemente tratadas de forma abstrata e desligada da experiência concreta do corpo.
O volume propõe, por isso, examinar o «sentido de si» não apenas como um conjunto de características sociais — idade, género, profissão, pertenças ou preferências —, mas também como a experiência de existir num corpo específico, num determinado momento e em relação com o mundo. Wildcroft entende o conceito como abrangendo três dimensões interligadas: a experiência visceral de ser um corpo, a paisagem emocional que se transforma de momento para momento e o conjunto mutável de afinidades e rejeições através do qual se formam a pertença e a identidade.
Os capítulos abordam diferentes formas de pessoa e de subjetividade: seres humanos e não humanos; identidades individuais, fragmentadas e coletivas; formas de si em transformação; identidades ilusórias, idealizadas ou deliberadamente construídas; e conceções profanas e divinas da pessoa. O elemento comum é o carácter relacional do sujeito: o «eu» não é analisado como uma entidade isolada, mas como algo formado através do corpo, das práticas, das comunidades, do ambiente e das relações com outros seres.
A organização temática anunciada compreende quatro áreas principais:
A introdução situa estas questões num campo interdisciplinar que reúne estudos da religião, antropologia, filosofia, teologia, história, estudos do movimento e da dança, estudos da Ásia do Sul e Oriental e biosemiótica.
A importância da obra reside na tentativa de aproximar dois domínios que, por vezes, são estudados separadamente: as conceções religiosas da pessoa e a experiência corporal concreta através da qual alguém sente que existe.
Em muitas abordagens filosóficas ou teológicas, o «eu» é tratado como mente, alma, consciência, identidade ou sujeito moral. Wildcroft e os restantes participantes deslocam a atenção para a maneira como esse sujeito é também produzido por sensações, emoções, movimentos, hábitos adquiridos, relações sociais e práticas religiosas. Esta perspetiva permite questionar a imagem de um indivíduo autónomo, coerente e universal, frequentemente associada a determinados modelos ocidentais modernos.
A obra é igualmente importante por comparar formas de pessoa provenientes de diferentes contextos históricos e culturais. Em vez de assumir que categorias como «indivíduo», «corpo», «identidade», «religião» ou «self» possuem o mesmo significado em todas as sociedades, o volume procura mostrar que esses conceitos são histórica e culturalmente construídos.
Outro contributo relevante é a atenção prestada à posição do investigador. Quando se estudam experiências íntimas, corporais ou religiosas, a separação entre a perspetiva interna do praticante e a análise externa do investigador — habitualmente designadas perspetivas emic e etic — torna-se particularmente difícil de manter. O livro apresenta esta dificuldade não apenas como um problema metodológico, mas como uma oportunidade para repensar a produção académica de conhecimento sobre religião.
Embora Religion and the Sense of Self não seja, de acordo com a descrição editorial disponível, uma obra especificamente dedicada ao Yoga, possui interesse para os Estudos do Yoga porque aborda problemas centrais às tradições yóguicas: o corpo, a identidade, a consciência, a transformação da pessoa e as diferentes conceções do «eu».
O livro poderá ajudar a analisar criticamente questões como:
A discussão sobre as «práticas de pessoa» é particularmente pertinente. Nas tradições yóguicas, a prática não serve apenas para expressar uma identidade já existente: pretende frequentemente transformar o corpo, a atenção, os hábitos, a consciência e a própria condição do praticante. Esta perspetiva pode ser relacionada com o estudo do Yoga enquanto conjunto de técnicas através das quais determinadas formas de sujeito são produzidas.
Existe também continuidade com os trabalhos anteriores de Wildcroft. Em Post-Lineage Yoga, a autora estudou a forma como praticantes contemporâneos constroem autoridade, pertença e identidade em comunidades que já não dependem exclusivamente de uma linhagem ou de um guru. Em Religion and the Sense of Self, essa atenção ao corpo e às relações parece ser alargada a contextos religiosos mais diversos. Esta relação é interpretativa: não significa que o novo volume constitua uma continuação direta do estudo anterior.
O manuscrito foi concluído e entregue à Equinox em setembro de 2025. Antes da publicação, Theo Wildcroft começou a divulgar excertos da introdução no seu boletim pessoal, dividindo-os em várias partes. Esses textos permitem conhecer antecipadamente parte do enquadramento teórico, mas não substituem a consulta do livro integral.
O volume possui apenas nove capítulos, apesar da amplitude histórica, geográfica e disciplinar anunciada. A própria organizadora reconhece que a introdução terá, por isso, de fornecer uma contextualização necessariamente geral da história das conceções de pessoa.
O livro integra a coleção académica Religion and the Senses, cuja orientação consiste em colocar a religião corporal, material e vivida no centro dos Estudos da Religião. A coleção procura tratar a sensação e as práticas materiais como constitutivas da religião, e não apenas como manifestações exteriores de crenças previamente existentes.
O livro parece adotar uma abordagem interdisciplinar e comparativa, combinando fenomenologia, antropologia, sociologia, estudos da religião, estudos do corpo e perspetivas históricas. Na introdução, Wildcroft recorre nomeadamente a Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, Marcel Mauss e Michel Foucault para caracterizar o sujeito como relacional, corporal, socialmente construído e produzido através de práticas.
Esta amplitude constitui uma vantagem, mas também um possível limite. Conceitos como «self», «pessoa», «identidade», «corpo» e «consciência» não são equivalentes entre diferentes tradições. No contexto indiano, por exemplo, ātman, puruṣa, jīva e ahaṃkāra pertencem a sistemas filosóficos distintos e não devem ser traduzidos indiscriminadamente pela palavra inglesa self. Do mesmo modo, a doutrina budista de anātman não constitui simplesmente uma negação moderna da identidade pessoal.
Para o estudo do Yoga, será necessário verificar, quando o livro estiver disponível, quais dos nove capítulos abordam efetivamente tradições da Ásia do Sul e até que ponto recorrem a fontes textuais primárias ou a investigação especializada. A presença dos Estudos da Ásia do Sul no enquadramento interdisciplinar anunciado não permite concluir, por si só, que o volume ofereça um tratamento extenso ou historicamente aprofundado do Yoga.
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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