The Brahmayāmalatantra Early Śaiva Tantra

The Brahmayāmalatantra Early Śaiva Tantra

Título original: Brahmayāmalatantra ब्रह्मयामलतन्त्र

Subtítulo: Early Śaiva Tantra

Autor: Desconhecido. O Brahmayāmala apresenta-se como revelação divina e não como composição de um autor humano identificável.

Traduzido por: Shaman Hatley

Ano da primeira edição: 2018

Editora da primeira edição: Institute Français de Pondichéry, École Française d´Extrème-Orient,

Local da primeira edição: Pondicherry, índia

Idioma original: Sânscrito/Inglês

Existe edição em língua portuguesa? Não

Resumo

The Brahmayāmalatantra or Picumata, Volume I apresenta a edição crítica e a tradução inglesa de cinco capítulos de um dos mais antigos e importantes Tantras śaivas associados ao culto de Bhairava e das deusas. Shaman Hatley acompanha o texto com um estudo extenso sobre a formação das tradições tântricas, a transmissão da revelação, a organização do ritual, a iconografia e os objetos utilizados pelos praticantes.

O livro não contém o Brahmayāmalatantra completo. Apesar da designação “Volume I”, publica apenas os capítulos 1, 2, 39, 40 e 83. Estes foram selecionados por permitirem estudar aspetos estruturais da obra: a origem e transmissão da revelação, a identidade do sistema religioso, a constituição do panteão, a representação das divindades e a cultura material da prática ritual.

O Brahmayāmala também é conhecido como Picumata. O texto pertence ao ambiente das primeiras tradições de Bhairava e é particularmente importante para a história do Śaivismo conhecido como Vidyāpīṭha, “Sede do Conhecimento” ou “Domínio dos Mantras de poder”. Estas tradições colocam no centro da prática formas ferozes de Śiva, grupos de deusas, Yoginīs, poderes sobrenaturais, iniciação e ritos realizados em espaços considerados ritualmente perigosos.

Os primeiros capítulos apresentam a revelação e procuram estabelecer a autoridade do texto. Como sucede em outras escrituras tântricas, o ensinamento não é atribuído a um autor humano. É apresentado como conhecimento divino transmitido por Bhairava à Deusa, ou através de uma estrutura de interlocução equivalente, e posteriormente comunicado a praticantes qualificados.

A narrativa da revelação também situa o Brahmayāmala dentro de uma rede mais ampla de escrituras. Os Tantras não surgem no texto como obras independentes no sentido moderno, mas como manifestações de um conhecimento primordial organizado em correntes, divisões e conjuntos de ensinamentos. Estas classificações procuram legitimar a posição do Picumata dentro do universo śaiva.

Os capítulos 39 e 40 são especialmente importantes para a reconstrução do panteão e da cultura visual do texto. Descrevem divindades, agrupamentos de deusas, emblemas, armas, recipientes, ornamentos, gestos e outros elementos que permitiam reconhecer e representar as potências invocadas.

Estas descrições não devem ser entendidas apenas como instruções destinadas à produção de esculturas. A imagem podia ser construída num desenho ritual, num maṇḍala, numa visualização mental ou através da disposição de objetos. A iconografia fazia parte da própria ação ritual: conhecer a cor, o número de braços, os atributos e a posição de uma divindade era uma forma de estabelecer a sua presença.

O capítulo 83 fornece informações sobre objetos, substâncias, vestuário e sinais distintivos relacionados com a prática. O interesse de Hatley pela “cultura material” decorre precisamente da possibilidade de reconstruir o Tantra não apenas como doutrina abstrata, mas como tradição realizada através do corpo, do espaço, dos instrumentos e das substâncias.

O praticante descrito no Brahmayāmala podia recorrer a mantras, diagramas, oferendas, visualizações, iniciações, observâncias ascéticas e rituais dirigidos a divindades ferozes. Algumas práticas estão relacionadas com cemitérios e campos de cremação, locais que ocupavam uma posição religiosa ambivalente por conjugarem impureza, morte, presença de espíritos e poder sobrenatural.

O texto atribui grande importância às Yoginīs. Neste contexto, a palavra não significa simplesmente uma mulher que pratica Yoga. Pode designar potências femininas divinas ou semidivinas, frequentemente organizadas em grupos e associadas a lugares, direções, partes do corpo, forças cósmicas, êxtase, possessão e transmissão de poder.

A relação entre praticante e Yoginīs podia envolver veneração, incorporação ritual, troca de substâncias e procura de poderes. Este universo religioso não corresponde à imagem moderna do Tantra como simples espiritualidade da sexualidade nem à imagem do Yoga como exercício corporal.

Hatley analisa o vocabulário, a métrica, os paralelos com outras escrituras e as características do manuscrito para reconstruir o texto. Como a tradição manuscrita é extremamente limitada, numerosas passagens permanecem difíceis de interpretar. A tradução assinala lacunas, corrupções e leituras incertas, em vez de apresentar o texto como se tivesse sido preservado sem problemas.

Porque é importante

O Brahmayāmalatantra constitui uma das fontes mais antigas preservadas para o estudo das tradições śaivas de Bhairava e do desenvolvimento do Tantra centrado em deusas. Permite observar uma fase anterior à sistematização filosófica realizada por autores da Caxemira como Abhinavagupta.

A obra demonstra que o Tantra śaiva não nasceu como uma filosofia exclusivamente contemplativa. Os seus sistemas mais antigos incluíam iniciação, mantras, visualizações, diagramas, culto de divindades, oferendas, observâncias ascéticas, procura de poderes e manipulação ritual de objetos e substâncias.

O texto também é fundamental para compreender o crescimento do culto das Yoginīs. A presença de grupos de divindades femininas mostra que a transformação do Śaivismo medieval envolveu a incorporação de cultos dedicados a deusas, mães divinas e potências relacionadas com o corpo, o território e a morte.

Esta documentação ajuda a reconstruir a formação das tradições do Vidyāpīṭha. Sistemas posteriores associados à Trika, à Krama e a outras correntes śākta-śaivas herdaram e reformularam elementos do universo ritual testemunhado pelo Brahmayāmala. A existência de continuidades não significa, contudo, que todas estas tradições possuam doutrinas ou práticas idênticas.

O estudo de Hatley é particularmente importante por integrar filologia, história das religiões, iconografia e cultura material. O autor não limita a interpretação ao significado lexical dos versos: procura determinar como as instruções poderiam ser realizadas e que objetos, imagens e espaços pressupunham.

A edição também demonstra a fragilidade da transmissão dos primeiros Tantras. Uma obra que exerceu influência considerável pode sobreviver num número extremamente reduzido de testemunhos manuscritos. A antiguidade ou importância de um texto não garante uma transmissão abundante.

O livro possui ainda valor metodológico. A tradução é acompanhada pelo texto sânscrito, pelo aparato crítico e pela discussão das dificuldades de leitura. Isto permite distinguir o que é afirmado pelo manuscrito, o que resulta de correção editorial e o que constitui hipótese interpretativa de Hatley.

Interesse para o estudo do Yoga

A relação entre o Brahmayāmalatantra e os Estudos do Yoga é direta para a história das práticas tântricas, mas não para o Yoga postural moderno. O livro não ensina séries de āsanas e não constitui um manual de Haṭha Yoga.

O texto apresenta um universo no qual corpo, mantra, visualização, divindade e espaço ritual se encontram profundamente relacionados. O praticante não observa simplesmente uma divindade exterior: pode instalar mantras no corpo, identificar partes corporais com potências divinas e construir mentalmente uma forma sagrada.

Estas práticas ajudam a compreender a formação do chamado corpo tântrico. Contudo, não deve presumir-se que o Brahmayāmala já apresente o sistema padronizado de cakras, canais e Kuṇḍalinī conhecido através de textos posteriores. As conceções do corpo subtil variaram entre tradições e períodos.

A importância das Yoginīs é particularmente relevante. Em fontes tântricas antigas, as Yoginīs não são apenas modelos de praticantes femininas. São agentes de poder que podem conceder conhecimento, proteção, capacidades extraordinárias ou experiências perigosas. O praticante procura estabelecer uma relação controlada com estas potências através da iniciação e do ritual.

O texto também permite estudar a ligação entre Yoga, ascetismo e espaços funerários. Os campos de cremação estavam associados à morte, à impureza e à presença de seres perigosos, mas podiam ser utilizados como lugares de observância e aquisição de poder. Esta dimensão encontra paralelos em tradições posteriores de ascetas śaivas, Kāpālikas e outras comunidades tântricas.

O domínio dos sentidos, a concentração, a visualização e a transformação da identidade do praticante pertencem à história ampla do Yoga. No entanto, a finalidade destes procedimentos nem sempre é apenas a libertação. O texto também prevê proteção, domínio sobre forças invisíveis, eficácia ritual e obtenção de siddhis, ou poderes extraordinários.

A procura de poderes não deve ser tratada como elemento marginal ou como corrupção de um suposto Yoga originalmente “puro”. Nas fontes indianas, libertação, poder, conhecimento e eficácia ritual aparecem frequentemente ligados, embora diferentes tradições estabeleçam hierarquias distintas entre estes objetivos.

A relação com o Yoga deve, portanto, ser apresentada historicamente. O Brahmayāmala documenta práticas corporais, contemplativas e rituais que contribuíram para os ambientes nos quais se desenvolveram formas posteriores de Yoga tântrico. Não demonstra que o Haṭha Yoga medieval ou o Yoga postural contemporâneo já existissem no período da sua composição.

Para a Saṃsāra, o livro é especialmente importante porque permite integrar os Estudos do Yoga na história mais ampla do Śaivismo e do Tantra. Mostra que a compreensão das práticas yóguicas exige o estudo de mantras, iniciações, panteões, rituais, corpos divinizados e comunidades religiosas, não apenas de posturas e técnicas respiratórias.

Curiosidade bibliográfica

O título alternativo Picumata aparece na própria tradição textual e não foi inventado por Shaman Hatley. O significado exato de picu permanece discutido. Por essa razão, é preferível conservar o título em sânscrito em vez de apresentar uma tradução portuguesa como se fosse segura.

A designação “Volume I” pode provocar equívocos. Não significa que o livro contenha a primeira metade completa do Tantra. O volume reúne cinco capítulos selecionados, enquanto outros capítulos foram ou estão a ser estudados em publicações independentes.

Em 2015, Csaba Kiss publicou The Brahmayāmalatantra or Picumata, Volume II: The Religious Observances and Sexual Rituals of the Tantric Practitioner, com uma edição e tradução dos capítulos 3, 21 e 45. O “Volume II” apareceu, portanto, antes do “Volume I” de Hatley. A numeração corresponde ao projeto editorial, não à ordem cronológica da publicação.

O manuscrito principal do Brahmayāmala foi preservado no Nepal e é muito posterior à provável composição inicial do texto. A distância entre composição e cópia significa que o manuscrito pode conter erros, omissões e alterações acumuladas durante séculos de transmissão.

O texto tornou-se conhecido entre especialistas muito antes de estar disponível numa edição crítica extensa. Alexis G. J. S. Sanderson utilizou passagens e características do Brahmayāmala nos seus estudos sobre o Śaivismo e o Tantra. As edições de Kiss e Hatley tornaram secções substanciais da obra acessíveis a um público académico mais amplo.

Nota académica

O título alternativo Picumata aparece na própria tradição textual e não foi inventado por Shaman Hatley. O significado exato de picu permanece discutido. Por essa razão, é preferível conservar o título em sânscrito em vez de apresentar uma tradução portuguesa como se fosse segura.

A designação “Volume I” pode provocar equívocos. Não significa que o livro contenha a primeira metade completa do Tantra. O volume reúne cinco capítulos selecionados, enquanto outros capítulos foram ou estão a ser estudados em publicações independentes.

Em 2015, Csaba Kiss publicou The Brahmayāmalatantra or Picumata, Volume II: The Religious Observances and Sexual Rituals of the Tantric Practitioner, com uma edição e tradução dos capítulos 3, 21 e 45. O “Volume II” apareceu, portanto, antes do “Volume I” de Hatley. A numeração corresponde ao projeto editorial, não à ordem cronológica da publicação.

O manuscrito principal do Brahmayāmala foi preservado no Nepal e é muito posterior à provável composição inicial do texto. A distância entre composição e cópia significa que o manuscrito pode conter erros, omissões e alterações acumuladas durante séculos de transmissão.

O texto tornou-se conhecido entre especialistas muito antes de estar disponível numa edição crítica extensa. Alexis G. J. S. Sanderson utilizou passagens e características do Brahmayāmala nos seus estudos sobre o Śaivismo e o Tantra. As edições de Kiss e Hatley tornaram secções substanciais da obra acessíveis a um público académico mais amplo.

Disponibilidade

Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga