Título original: Dharmasūtras धर्मसूत्राणि
Subtítulo: The Law Codes of Ancient India
Autor: Āpastamba, Gautama, Baudhāyana e Vasiṣṭha
Traduzido por: Patrick Livelle
Ano da primeira edição: 1999
Editora da primeira edição: Oxford University Press
Local da primeira edição: Oxford, Reino Unido
Idioma original: Sânscrito/Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
Dharmasūtras: The Law Codes of Ancient India reúne traduções inglesas dos quatro Dharmasūtras antigos que chegaram até ao presente de maneira suficientemente completa: os textos atribuídos a Āpastamba, Gautama, Baudhāyana e Vasiṣṭha. São considerados os mais antigos testemunhos preservados da tradição textual que viria a ser conhecida como Dharmaśāstra.
A palavra dharma não possui uma tradução única e inteiramente satisfatória. Dependendo do contexto, pode referir-se à conduta correta, dever, norma, ordem social e religiosa, prática ritual, justiça ou modo de vida considerado adequado. A palavra sūtra designa uma formulação concisa, normalmente destinada à memorização e à explicação oral. O título Dharmasūtra pode, portanto, ser entendido como “aforismos sobre o dharma”.
Os textos discutem as normas que deveriam regular a vida de determinados setores da sociedade bramânica. Abordam a educação védica, os deveres do estudante, o casamento, a família, a herança, os rituais domésticos, a alimentação, a pureza e a impureza, as penitências, a administração da justiça, os deveres do rei, as categorias sociais e as formas de vida ascética.
A tradução de Patrick Olivelle procura tornar estas obras acessíveis sem apagar as diferenças entre elas. Os quatro textos não constituem versões de um único código uniforme. Representam tradições escolares distintas, foram compostos e revistos em diferentes períodos e preservam posições divergentes sobre a autoridade religiosa, os costumes regionais e a organização da sociedade.
A datação dos Dharmasūtras permanece discutida. Em termos gerais, pertencem à segunda metade do primeiro milénio a.C., embora alguns materiais possam ser posteriores e cada texto apresente diferentes camadas de composição. Não devem, portanto, ser tratados como obras produzidas simultaneamente nem como testemunhos diretos de uma única sociedade indiana antiga.
Os Dharmasūtras são fundamentais para compreender o desenvolvimento da tradição normativa bramânica. Antecedem obras em verso como o Mānavadharmaśāstra, frequentemente chamado Leis de Manu, e documentam uma fase em que as normas relativas à vida social, ritual e religiosa ainda eram formuladas no estilo conciso característico da literatura dos sūtras.
A obra permite estudar a maneira como determinadas comunidades bramânicas procuraram definir a autoridade do Veda, da tradição transmitida e dos costumes socialmente reconhecidos. Os textos revelam que o dharma não era concebido simplesmente como uma lista imutável de mandamentos. A identificação da conduta correta dependia da relação entre revelação védica, memória tradicional, práticas comunitárias e interpretação especializada.
Estes textos também são fontes importantes para a história social da Índia antiga, mas devem ser utilizados com prudência. Descrevem sobretudo aquilo que determinados autores bramânicos consideravam desejável, legítimo ou obrigatório. Não oferecem uma descrição neutra de como todas as pessoas viviam efetivamente.
A tradução de Olivelle tornou-se especialmente importante por reunir num só volume os quatro textos e por aplicar critérios filológicos modernos à sua interpretação. O seu trabalho facilita a comparação das obras, preserva as diferenças terminológicas e evita apresentar a tradição do dharma como um sistema completamente uniforme.
A relação dos Dharmasūtras com o Yoga é indireta, mas historicamente significativa. Estes textos não são manuais de Yoga, não descrevem o sistema de oito membros associado a Patañjali e não ensinam sequências de āsana, técnicas detalhadas de prāṇāyāma ou métodos próprios do Haṭha Yoga.
O seu principal interesse encontra-se na história do ascetismo e da renúncia. Os Dharmasūtras descrevem estudantes celibatários, eremitas, ascetas e mendicantes, procurando situar essas formas de vida dentro de uma organização social dominada pelo ideal do chefe de família. Documentam, assim, o diálogo e a tensão entre a religião doméstica védica e os movimentos renunciantes que contribuíram para o desenvolvimento das tradições meditativas e yóguicas.
A noção de brahmacarya ocupa um lugar importante nestas obras. Neste contexto, a palavra refere-se principalmente ao modo de vida do estudante védico, incluindo a residência junto do mestre, a disciplina, o serviço, o estudo e a continência sexual. Embora brahmacarya apareça posteriormente como um dos yamas do Yoga de Patañjali, não se deve presumir que a palavra possua exatamente o mesmo significado em todos os períodos e tradições.
Os textos também tratam de tapas, controlo alimentar, jejum, pureza, restrição dos sentidos, disciplina corporal e abandono de bens. Estas práticas ajudam a reconstruir o ambiente religioso no qual diferentes métodos ascéticos foram desenvolvidos, partilhados e reinterpretados por comunidades bramânicas, budistas, jainistas e outras tradições de renunciantes.
Os Dharmasūtras são particularmente úteis para compreender como as práticas ascéticas foram progressivamente integradas no modelo dos āśramas, os modos ou etapas de vida. Os textos, contudo, não apresentam todos o mesmo sistema nem atribuem igual valor ao estudante, ao chefe de família, ao eremita e ao renunciante. As divergências mostram que a integração da renúncia na ordem bramânica foi um processo histórico e não uma estrutura estabelecida desde o início.
Para os Estudos do Yoga, a obra deve ser utilizada como fonte contextual sobre ética, disciplina, ascetismo e organização social. Não é adequado apresentá-la como um tratado de Yoga, mas a sua presença numa biblioteca especializada permite compreender o mundo religioso e normativo no qual algumas tradições yóguicas antigas se formaram.
Patrick Olivelle não é o autor original dos Dharmasūtras. É o editor, tradutor e comentador moderno dos quatro textos. A autoria tradicional pertence às autoridades chamadas Āpastamba, Gautama, Baudhāyana e Vasiṣṭha, embora a investigação considere provável que as obras tenham sido produzidas e modificadas dentro de escolas ao longo de diferentes gerações.
O subtítulo The Law Codes of Ancient India facilita a apresentação do livro a leitores não especializados, mas pode criar uma falsa equivalência com os códigos jurídicos modernos. Os Dharmasūtras combinam regras rituais, morais, sociais, religiosas e jurídicas, sem estabelecer a separação moderna entre religião, direito e costumes.
A obra de Oxford foi preparada para a leitura e para o ensino universitário. A edição publicada pela Motilal Banarsidass em 2000 é mais adequada para investigação filológica aprofundada, pois apresenta documentação textual mais extensa. Ambas pertencem ao mesmo projeto académico de Patrick Olivelle, mas possuem finalidades editoriais diferentes.
Os Dharmasūtras contêm normas hierárquicas relacionadas com varṇa, género, estatuto social, pureza e punição. Algumas dessas prescrições são discriminatórias quando avaliadas segundo princípios contemporâneos de igualdade e direitos humanos. Devem ser apresentadas como documentos históricos da produção normativa bramânica, e não como uma ética universal ou como regras que representassem todas as populações da Índia.
Também é necessário distinguir prescrição de prática social. O facto de um texto proibir, exigir ou classificar determinado comportamento não demonstra que a sociedade se organizasse integralmente dessa maneira. Uma norma pode revelar precisamente a existência de comportamentos alternativos que os seus autores procuravam controlar.
A tradução de dharma por “lei” é apenas parcialmente adequada. O conceito inclui deveres religiosos, rituais, familiares e sociais que excedem o domínio jurídico moderno. A expressão inglesa “law codes” deve, por isso, ser entendida como uma aproximação editorial e não como uma definição exata do género textual.
Inglês
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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