Título original: On the Plastic Surgery of Ears and Nose
Subtítulo: The Nepalese Version of the Suśrutasaṃhitā.
Autor: <a class="samsara-academico-link" href="https://samsarayogaonline.com/academico/dominik-wujastyk/">Dominik Wujastyk</a>, <a class="samsara-academico-link" href="https://samsarayogaonline.com/academico/jason-birch/">Jason Birch</a>, Andrey Klebanov, Madhu K. Parameswaran, Madhusudan Rimal, Deepro Chakraborty, Harshal Bhatt, Vandana Lele & Paras Mehta
Ano da primeira edição: 2023
Editora da primeira edição: Heidelberg Asian Studies Publishing
Local da primeira edição: Heidelberg, Alemanha
Idioma original: Sânscrito/Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
On the Plastic Surgery of the Ears and Nose é uma monografia de história da medicina e crítica textual dedicada ao capítulo 1.16 da Suśrutasaṃhitā. O capítulo descreve procedimentos de reconstrução das orelhas e do nariz e constitui uma fonte central para o estudo histórico da cirurgia reconstrutiva na Índia.
O trabalho baseia-se numa antiga versão nepalesa da Suśrutasaṃhitā, preservada num manuscrito com aproximadamente mil anos. Anunciado à comunidade académica em 2007 e posteriormente integrado no programa Memory of the World da UNESCO, este testemunho permite observar uma fase da transmissão do texto anterior às versões que se tornaram dominantes nas edições impressas dos séculos XIX e XX.
A primeira parte da monografia apresenta a importância histórica do capítulo e explica os tratamentos descritos para lóbulos das orelhas rasgados, deformações auriculares e reconstrução nasal. Os autores analisam particularmente a utilização de retalhos de pele, isto é, porções de tecido que permanecem ligadas ao local de origem enquanto são deslocadas para reconstruir a área lesionada.
A segunda parte examina a transmissão textual da obra. A versão nepalesa é comparada com as recensões e comentários associados a Cakrapāṇidatta e Ḍalhaṇa. Os investigadores observam diferenças na ortografia, no sandhi, na sintaxe, na terminologia técnica, na organização das passagens, nas receitas medicinais e nas descrições dos tratamentos.
A análise demonstra que o texto médico não permaneceu imutável. Ao longo dos séculos, copistas, comentadores e redactores transpuseram palavras e passagens, acrescentaram explicações, reformularam receitas e adaptaram determinadas instruções. A versão nepalesa conserva, em alguns pontos, uma organização interna que os autores consideram mais coerente do que a versão posteriormente transformada em texto corrente ou vulgata.
A terceira parte estuda as primeiras edições impressas da Suśrutasaṃhitā, incluindo as edições de 1915, 1931, 1938 e 1939. Os autores procuram identificar os manuscritos utilizados por esses editores e avaliar como a passagem do manuscrito à impressão contribuiu para fixar uma determinada versão da obra como se fosse o texto uniforme da tradição.
A monografia apresenta depois a edição crítica do capítulo, acompanhada por tradução inglesa e material de apoio. Desta forma, não oferece apenas uma descrição histórica da cirurgia indiana, mas torna acessível uma fonte sânscrita cuja forma antiga difere significativamente das edições modernas mais utilizadas.
A obra é importante por oferecer uma edição, tradução e análise de uma fonte primária fundamental para a história da medicina indiana. Em vez de repetir afirmações gerais sobre Suśruta como “pai da cirurgia”, os autores examinam directamente os manuscritos e procuram compreender quando, como e em que forma as descrições cirúrgicas foram transmitidas.
A comparação entre a versão nepalesa e os testemunhos posteriores mostra que a Suśrutasaṃhitā não deve ser tratada como um livro de autoria única, composto num único momento e preservado sem alterações. Como muitas obras técnicas sânscritas, é resultado de um processo histórico de compilação, transmissão, comentário e redacção.
Esta conclusão possui consequências para a história global da cirurgia. Antes de comparar um procedimento indiano com técnicas europeias, árabes ou modernas, é necessário determinar qual versão do texto está a ser utilizada e a que período da transmissão ela poderá corresponder. A monografia oferece uma base documental mais segura para esse trabalho comparativo.
O livro também exemplifica a importância da colaboração interdisciplinar. A equipa reúne competências em sânscrito, crítica textual, codicologia, história do Āyurveda, literatura técnica e estudo dos manuscritos. A participação de Jason Birch insere-se precisamente na intersecção entre filologia sânscrita, história do Yoga e história da medicina indiana.
O interesse da obra para o estudo do Yoga é indirecto. O livro não trata de āsana, prāṇāyāma, meditação, Haṭhayoga ou filosofia do Yoga e não deve ser apresentado como manual ou tratado yóguico. O seu objecto principal é a história do Āyurveda, da cirurgia e da transmissão textual da Suśrutasaṃhitā.
A sua inclusão na Biblioteca Saṃsāra pode, contudo, justificar-se na área dedicada às relações entre Yoga, Āyurveda e história das práticas corporais indianas. A obra ajuda a compreender o ambiente mais amplo de conhecimentos sobre o corpo em que diferentes tradições médicas, ascéticas e yóguicas se desenvolveram.
A metodologia também é muito relevante para os Estudos do Yoga. A comparação entre manuscritos demonstra por que razão não se deve tratar uma edição impressa tardia como testemunho transparente de uma obra antiga. O mesmo problema afecta textos de Yoga que chegaram à modernidade através de versões manuscritas divergentes, comentários, reformulações editoriais e edições impressas baseadas num número reduzido de testemunhos.
O estudo mostra ainda a importância de distinguir continuidade textual de continuidade prática. A existência de uma descrição cirúrgica antiga não prova, por si só, que o procedimento tenha sido praticado de forma ininterrupta durante todos os séculos seguintes. Esta prudência metodológica aplica-se igualmente às afirmações sobre a antiguidade e a transmissão de técnicas de Yoga.
O manuscrito nepaleses estudado pela equipa tornou-se conhecido no meio académico apenas em 2007, apesar da sua antiguidade aproximada de mil anos. A sua importância foi posteriormente reconhecida através da inclusão no programa Memory of the World da UNESCO.
A capa da monografia utiliza uma imagem intitulada “A Curious Chirurgical Operation”, publicada por B. Longmate em 1794 no Gentleman’s Magazine and Historical Chronicle. A escolha estabelece uma ligação visual entre a história textual indiana e a recepção europeia das técnicas de reconstrução nasal no final do século XVIII.
O livro é a primeira monografia publicada pelo Suśruta Project, projecto dedicado ao estudo histórico e textual da literatura médica indiana a partir de novos testemunhos manuscritos.
Existe uma pequena variação no subtítulo. A capa e a página de rosto apresentam The Nepalese Version of the Suśrutasaṃhitā, enquanto o catálogo oficial actualizado emprega The Nepalese Recension of the Suśrutasaṃhitā. Para uma referência baseada no exemplar, “Version” é a forma mais fiel; para pesquisas digitais, convém conservar também “Recension” como variante do título.
A designação “cirurgia plástica” é moderna e pode sugerir associações contemporâneas que não correspondem exactamente ao enquadramento do texto sânscrito. O capítulo trata de procedimentos reconstrutivos para orelhas e nariz, e não de cirurgia estética no sentido predominante da expressão actual.
Também se deve evitar afirmar simplesmente que a Suśrutasaṃhitā “inventou a cirurgia plástica”. A monografia documenta uma tradição indiana antiga de procedimentos reconstrutivos e analisa a sua transmissão textual. Estabelecer prioridade absoluta exigiria comparar criticamente fontes de diferentes regiões e períodos, tendo em conta a data dos manuscritos, as diferentes fases de composição dos textos e a distância entre prescrição escrita e prática efectiva.
A data do manuscrito não deve ser confundida com a data original da composição da Suśrutasaṃhitā. Um manuscrito com aproximadamente mil anos é um testemunho material de determinada fase da transmissão; o conteúdo que conserva pode incluir materiais mais antigos, alterações posteriores e diferentes camadas de redacção.
A edição deve igualmente ser entendida como resultado de escolhas filológicas. Embora a versão nepalesa seja particularmente antiga e importante, nenhum manuscrito individual representa automaticamente o “original” perdido. A reconstrução da história do texto depende da comparação entre vários testemunhos, comentários e edições.
Inglês
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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