Título original: Yājñavalkya याज्ञवल्क्यधर्मशास्त्र
Subtítulo: A Treatise on Dharma
Autor: Yājñavalkya
Traduzido por: Patrick Livelle
Ano da primeira edição: 2019
Editora da primeira edição: Yājñavalkya
Local da primeira edição: Harvard University Press
Idioma original: Sânscrito/Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
Yājñavalkya: A Treatise on Dharma apresenta uma edição crítica e uma nova tradução inglesa da Yājñavalkyasmṛti, uma das obras mais importantes da tradição do Dharmaśāstra. O texto expõe normas relacionadas com a conduta religiosa, a vida familiar, o governo, os processos judiciais, a propriedade, a herança, as transgressões, as penitências, o ascetismo e a libertação.
A palavra dharma não corresponde exclusivamente a “lei”. No contexto da obra, inclui deveres religiosos, normas rituais, conduta social, procedimentos judiciais, obrigações familiares e princípios de organização política. A tradução do título por “tratado sobre o dharma” preserva melhor esta amplitude do que expressões como “código jurídico”.
O tratado apresenta-se como um ensinamento de Yājñavalkya a um grupo de sábios. Este enquadramento associa a obra à autoridade de uma figura conhecida da literatura védica e das Upaniṣads, especialmente da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad. Contudo, o autor do Dharmaśāstra viveu muitos séculos depois do período em que se situam os diálogos upaniṣádicos atribuídos a Yājñavalkya.
A composição é geralmente situada nos séculos IV ou V d.C., durante o período Gupta. Esta datação baseia-se no vocabulário, nas instituições jurídicas, nas referências monetárias, nas conceções políticas e na relação do texto com obras anteriores. Não existe um manuscrito autógrafo datado que permita estabelecer um ano preciso.
A obra contém aproximadamente mil versos e organiza o dharma em três grandes partes: ācāra, dedicada à conduta correta; vyavahāra, relativa aos processos jurídicos; e prāyaścitta, dedicada às transgressões e formas de expiação. Esta estrutura tripartida é mais concisa e sistemática do que a organização do Mānavadharmaśāstra.
A primeira parte trata das fontes do dharma, das categorias sociais, das etapas da vida, da iniciação, do casamento, dos deveres do chefe de família, dos rituais domésticos, das oferendas aos antepassados, da alimentação, da pureza, das obrigações do rei e das práticas religiosas.
A segunda parte apresenta uma exposição desenvolvida do procedimento judicial. Aborda a constituição do tribunal, a apresentação das acusações, as respostas, os documentos, as testemunhas, a posse, as dívidas, os contratos, a propriedade, a herança, a violência, o roubo e outras matérias civis e criminais.
A terceira parte examina a morte, a impureza, o destino após a morte, as transgressões, as penitências, o ascetismo, o conhecimento do corpo e diferentes práticas de Yoga. A inclusão de materiais yóguicos mostra que, no período da composição, técnicas de meditação e controlo psicofísico já podiam ser integradas num tratado normativo sobre o dharma.
O texto publicado na edição de 2019 foi estabelecido por Olivelle com base em trinta e três manuscritos redigidos em sete escritas, quatro comentários tradicionais, passagens paralelas dos Agni Purāṇa e Garuḍa Purāṇa e citações preservadas em compêndios jurídicos medievais. O editor identificou duas linhas principais de transmissão: a recensão vulgar, amplamente difundida, e uma tradição meridional preservada em manuscritos em escrita malaiala e no comentário de Viśvarūpa.
A Yājñavalkyasmṛti tornou-se um dos textos normativos mais influentes da Índia medieval. A sua linguagem concisa, a estrutura sistemática e o tratamento desenvolvido do procedimento jurídico favoreceram a utilização da obra por comentadores e compiladores posteriores.
O tratado representa uma etapa mais madura da literatura do Dharmaśāstra. Retoma materiais encontrados nos Dharmasūtras e no Mānavadharmaśāstra, mas reorganiza-os e adapta-os a novos contextos sociais, políticos e económicos. A importância atribuída aos documentos escritos em contratos e processos judiciais constitui uma das diferenças relativamente a materiais normativos mais antigos.
A obra também concede um espaço significativo à administração do reino e à justiça. O rei deve proteger a população, nomear juízes, combater crimes e garantir o cumprimento dos procedimentos. Contudo, estas funções são apresentadas dentro de uma ordem social hierárquica e bramânica, não segundo a conceção moderna de igualdade perante a lei.
A influência posterior da obra encontra-se profundamente ligada aos seus comentários. O mais antigo comentário integral preservado é a Bālakrīḍā de Viśvarūpa, geralmente situada no início do século IX. Outros comentários importantes incluem a Mitākṣarā de Vijñāneśvara e o comentário de Aparārka.
A Mitākṣarā, composta por Vijñāneśvara no início do século XII, tornou-se especialmente importante para a interpretação das regras de propriedade e herança. Durante o domínio britânico, foi considerada uma das principais autoridades do chamado direito hindu em grande parte do subcontinente, enquanto a tradição do Dāyabhāga predominou sobretudo em Bengala.
A expressão segundo a qual a Mitākṣarā se tornou “a lei do território” durante o período britânico deve ser utilizada com prudência. A administração colonial transformou comentários e tratados sânscritos em autoridades jurídicas de uma forma que não reproduzia exatamente os modos anteriores de aplicação do dharma. O direito colonial anglo-hindu resultou de uma nova combinação de textos, comentadores, peritos indianos, tribunais e categorias jurídicas britânicas.
A tradução de Olivelle é particularmente importante por resultar de uma nova edição crítica. As edições anteriores dependiam predominantemente da recensão vulgar e dos comentários medievais mais conhecidos. A comparação com manuscritos do sul da Índia permitiu identificar leituras anteriores ou alternativas e reconstruir de forma mais rigorosa a história da transmissão do texto.
A Yājñavalkyasmṛti apresenta um interesse mais direto para os Estudos do Yoga do que muitos outros textos da literatura do Dharmaśāstra. Embora não seja um manual exclusivamente dedicado ao Yoga, inclui uma exposição de práticas yóguicas no contexto da expiação, do ascetismo, do conhecimento do corpo e da procura da libertação.
A obra relaciona o Yoga com o controlo dos sentidos, a disciplina mental, a meditação e o conhecimento do ātman. Estas práticas surgem no interior de um sistema normativo mais amplo, no qual a vida religiosa inclui deveres sociais, rituais domésticos, penitências e formas de renúncia.
A presença do Yoga no tratado é historicamente significativa porque mostra a incorporação de práticas ascéticas e meditativas na tradição bramânica do dharma. O Yoga deixa de aparecer apenas associado a comunidades de renunciantes ou a tratados filosóficos especializados e passa a integrar uma descrição abrangente da vida religiosa.
O texto apresenta disciplinas relacionadas com o domínio do corpo, da respiração, dos sentidos e da mente. O prāṇāyāmaaparece tanto como prática de purificação e penitência como instrumento de transformação espiritual. Esta associação demonstra que o controlo respiratório possuía funções múltiplas e não era entendido exclusivamente como preparação física ou exercício de bem-estar.
A secção yóguica também relaciona meditação e conhecimento da constituição corporal. O corpo é interpretado através de categorias religiosas e cosmológicas, sendo apresentado como espaço onde operam os elementos, as funções vitais e os processos que ligam a pessoa à ação e ao renascimento.
A finalidade última destas práticas é o afastamento das consequências da ação e o conhecimento libertador. Apesar das semelhanças terminológicas com o Yoga de Patañjali, não se deve assumir que a Yājñavalkyasmṛti reproduza integralmente a metafísica ou a técnica do Pātañjalayogaśāstra. A literatura religiosa da época partilhava conceitos, práticas e vocabulário que podiam ser reorganizados de formas diferentes.
Também é necessário distinguir este tratado do Yoga Yājñavalkya, obra independente estruturada como um diálogo entre Yājñavalkya e Gārgī. Embora ambos os textos estejam associados à mesma autoridade tradicional e contenham materiais sobre Yoga, possuem histórias textuais, estruturas e finalidades distintas.
Para a Saṃsāra, Yājñavalkya: A Treatise on Dharma é relevante não apenas como fonte contextual, mas também como testemunho concreto da integração do Yoga na literatura normativa do período clássico. Ainda assim, não deve ser apresentado como um manual de prática comparável aos tratados posteriores de Haṭha Yoga.
Yājñavalkya é uma das figuras mais importantes da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, onde participa em debates filosóficos sobre o ātman, a realidade e a imortalidade. A atribuição do tratado normativo a esta autoridade aproxima o dharma das tradições védica e upaniṣádica, mas não constitui prova de autoria histórica.
A obra é significativamente mais curta do que o Mānavadharmaśāstra. A sua concisão não corresponde, porém, a uma menor influência. A estrutura clara e a capacidade de condensar matérias rituais, jurídicas e ascéticas contribuíram para que se tornasse uma das principais bases da tradição jurídica medieval.
O texto divide-se em apenas três grandes partes: conduta correta, procedimento jurídico e expiação. Esta divisão tornou-se uma referência importante para a organização do conhecimento relacionado com o dharma.
A edição de Olivelle revelou que a tradição manuscrita não é completamente uniforme. A maioria dos manuscritos pertence a uma recensão amplamente difundida, mas os manuscritos malaialas e o comentário de Viśvarūpa preservam uma forma textual diferente. A comparação entre estas linhas obrigou o editor a avaliar cada passagem em vez de seguir automaticamente a leitura mais comum.
A Yājñavalkyasmṛti também foi parcialmente incorporada nos Agni Purāṇa e Garuḍa Purāṇa. Estes paralelos são importantes para a crítica textual, pois permitem comparar versões transmitidas fora dos manuscritos identificados diretamente como exemplares do tratado.
A obra deve ser entendida como um texto normativo bramânico e não como uma descrição objetiva da sociedade durante o período Gupta. As suas regras representam aquilo que um autor erudito considerava correto ou desejável. A existência de uma prescrição não demonstra a sua observância uniforme.
O tratado contém hierarquias baseadas em varṇa, género, nascimento e estatuto ritual. Apresenta obrigações, direitos e punições diferentes conforme a posição social atribuída a cada pessoa. Estas normas devem ser contextualizadas historicamente e não apresentadas como princípios universais do hinduísmo.
A designação “direito hindu” também exige cuidado. O dharma inclui matérias jurídicas, mas ultrapassa amplamente esse domínio. A transformação do tratado e da Mitākṣarā em fontes do direito colonial anglo-hindu alterou a função dos textos e conferiu-lhes uma autoridade institucional diferente da que possuíam anteriormente.
A datação nos séculos IV ou V e a associação ao período Gupta constituem uma reconstrução histórica fundamentada em indícios internos e relações intertextuais. Não existe consenso sobre um ano de composição, nem informação segura sobre a identidade ou a biografia do autor.
Finalmente, a presença de Yoga na obra não significa que todas as suas normas pertençam a uma tradição yóguica. O tratado reúne materiais jurídicos, rituais, sociais, penitenciais, ascéticos e filosóficos. A secção sobre Yoga deve ser estudada dentro desse conjunto e comparada criticamente com outras fontes do mesmo período.
Inglês
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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