Darśana – दर्शन – darshana
Tradução literal – Visão; perspetiva; modo de ver.
Definição – Darśana é um termo utilizado para designar uma escola filosófica, uma visão da realidade ou uma perspetiva sistemática sobre o mundo. Na história da filosofia indiana, o termo passou a ser utilizado para identificar os grandes sistemas clássicos de pensamento. Por extensão, Darśana pode também significar a experiência de contemplar ou estar na presença de uma divindade, mestre espiritual ou objeto sagrado. O significado exato depende do contexto.
Referências textuais – O termo encontra-se já na literatura antiga com o significado geral de “visão” ou “ato de ver”. Posteriormente passou a designar sistemas filosóficos organizados. Os chamados Ṣaḍdarśana (षड्दर्शन), ou “seis darśanas”, são:
- Vedānta (वेदान्त)
- Nyāya (न्याय)
- Vaiśeṣika (वैशेषिक)
- Sāṃkhya (सांख्य)
- Yoga (योग)
- Mīmāṃsā (मीमांसा)
Notas Académicas – Embora frequentemente traduzido por “escola filosófica”, Darśana possui um significado mais amplo do que o termo ocidental “filosofia”. A palavra sugere simultaneamente uma visão intelectual da realidade e um caminho para a sua realização prática. No contexto religioso, “receber darśana” significa contemplar uma divindade, um templo ou um mestre espiritual, estabelecendo uma relação direta com aquilo que é visto. Esta dupla dimensão — filosófica e religiosa — é uma característica importante da cultura indiana.
Ver Também – Sāṃkhya (सांख्य) · Yoga (योग) · Vedānta (वेदान्त) · Bhāṣya (भाष्य) · Guru (गुरु)
Devī – देवी – Devi
Tradução literal – Deusa; a divina.
Definição – Devī é o termo sânscrito utilizado para designar a Deusa e, em muitos contextos, a própria realidade divina sob forma feminina. Nas tradições hindus, Devī pode referir-se a uma divindade específica ou à manifestação suprema do princípio feminino divino. Diversas deusas importantes são compreendidas como formas ou manifestações de Devī, incluindo:
- Durgā (दुर्गा)
- Kālī (काली)
- Lakṣmī (लक्ष्मी)
- Sarasvatī (सरस्वती)
- Pārvatī (पार्वती)
Nas tradições Śākta, Devī é frequentemente considerada a realidade absoluta da qual todo o universo emerge.
Referências textuais – O culto da Deusa possui raízes muito antigas no subcontinente indiano, embora as formulações teológicas mais desenvolvidas surjam em textos posteriores. Uma passagem célebre da Devī Māhātmya afirma:
या देवी सर्वभूतेषु शक्तिरूपेण संस्थिता
yā devī sarvabhūteṣu śaktirūpeṇa saṃsthitā
“À Deusa que reside em todos os seres sob a forma de Śakti.”
Este verso tornou-se uma das expressões mais conhecidas da tradição devocional da Deusa.
Notas Académicas – O estudo académico das tradições da Deusa demonstrou a enorme diversidade das correntes associadas a Devī. Algumas tradições veneram a Deusa como consorte de uma divindade masculina, enquanto outras a consideram a realidade suprema e independente. Textos como a Devī Māhātmya, a Devī Bhāgavata Purāṇa e numerosos Tantras desempenharam um papel central no desenvolvimento da teologia da Deusa. As tradições Śākta continuam atualmente a constituir uma das grandes correntes do Hinduísmo.
Ver Também – Śakti (शक्ति) · Śiva (शिव) · Durgā (दुर्गा) · Kālī (काली) · Tantra (तन्त्र)
Dhāraṇā – धारणा – dharana, darana
Tradução literal – Sustentação; fixação; concentração.
Definição – Dhāraṇā designa a concentração da mente num único ponto, objeto ou suporte contemplativo. Nos sistemas clássicos do Yoga, corresponde à capacidade de manter a atenção estável sem dispersão significativa. Pode utilizar-se um objeto físico, uma imagem mental, uma divindade, uma parte do corpo, um mantra ou qualquer outro suporte contemplativo. Dhāraṇā constitui a base a partir da qual se desenvolvem Dhyāna e Samādhi.
Referências textuais – A definição clássica encontra-se nos Yoga Sūtra III.1:
देशबन्धश्चित्तस्य धारणा
deśabandhaś cittasya dhāraṇā
“Dhāraṇā é a fixação da mente num determinado lugar.”
Esta definição inaugura o terceiro capítulo dos Yoga Sūtra, dedicado às práticas meditativas avançadas.
Notas Académicas – Dhāraṇā constitui o sexto membro do sistema dos oito membros do Yoga de Patãnjali. Juntamente com Dhyāna e Samādhi forma o conjunto conhecido como Saṃyama (संयम), uma prática integrada descrita por Patañjali como essencial para o desenvolvimento do conhecimento contemplativo. As fronteiras entre Dhāraṇā, Dhyāna e Samādhi nem sempre são fáceis de estabelecer, razão pela qual os comentadores tradicionais dedicaram grande atenção à sua interpretação.
Ver Também – Pratyāhāra (प्रत्याहार) · Dhyāna (ध्यान) · Samādhi (समाधि) · Saṃyama (संयम) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)
Dharma – धर्म – dharma, dhamma, darma
Tradução literal – Aquilo que sustenta; ordem; dever; lei.
Definição – Dharma é um dos conceitos mais amplos e complexos das tradições indianas. Dependendo do contexto, pode referir-se à ordem cósmica, aos princípios éticos, aos deveres individuais, às normas sociais, aos ensinamentos religiosos ou à própria natureza das coisas. Nas tradições hindus, o Dharma é frequentemente entendido como aquilo que contribui para a harmonia entre o indivíduo, a sociedade e o universo. Não existe uma tradução única capaz de abranger todos os significados do termo.
Referências textuais – O conceito encontra-se já na literatura védica e desenvolve-se amplamente nas epopeias, nos textos jurídicos (Dharmaśāstra) e na literatura filosófica posterior. Uma das passagens mais conhecidas encontra-se na Bhagavad Gītā (4.7):
यदा यदा हि धर्मस्य ग्लानिर्भवति भारत
yadā yadā hi dharmasya glānir bhavati bhārata
“Sempre que ocorre o declínio do Dharma, ó Bhārata…”
Esta passagem introduz uma das mais célebres declarações de Kṛṣṇa acerca da restauração da ordem cósmica.
Notas Académicas – O significado de Dharma varia significativamente entre tradições e contextos históricos. Na Bhagavad Gītā, o conceito encontra-se frequentemente associado ao dever individual (svadharma). No Budismo, o termo (dharma ou dhamma) pode designar os ensinamentos do Buda ou os próprios fenómenos que constituem a realidade. Os especialistas consideram geralmente que Dharma é um dos conceitos mais difíceis de traduzir da filosofia indiana, sendo preferível compreender o seu significado dentro do contexto específico em que é utilizado.
Ver Também – Karma (कर्म) · Saṃsāra (संसार) · Mokṣa (मोक्ष) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता) · Svadharma (स्वधर्म)
Dhyāna – ध्यान – dhyana, diana
Tradução literal – Meditação; contemplação; absorção meditativa.
Definição – Dhyāna designa um estado de meditação profunda caracterizado por uma continuidade estável da atenção. Nas tradições clássicas do Yoga, não corresponde simplesmente ao ato genérico de “meditar”, mas a uma fase específica do desenvolvimento contemplativo. Segundo os sistemas tradicionais, Dhyāna surge quando a mente consegue permanecer de forma contínua e ininterrupta sobre um objeto de contemplação, sem dispersão significativa. Este estado conduz progressivamente a formas mais profundas de absorção meditativa. O conceito desempenha igualmente um papel importante em diversas tradições budistas, jainistas e hindus.
Referências textuais – O termo encontra-se em diversas Upaniṣads e textos ascéticos da Índia antiga, mas recebe uma formulação particularmente influente nos Yoga Sūtra de Patañjali. NoYoga Sūtra III.2 encontra-se a seguinte definição:
तत्र प्रत्ययैकतानता ध्यानम्
tatra pratyayaikatānatā dhyānam
“A continuidade ininterrupta da atenção sobre esse objeto é Dhyāna.”
Nesta passagem, Dhyāna surge como uma etapa posterior a Dhāraṇā (concentração) e anterior a Samādhi (absorção).
Notas Académicas – Nos Yoga Sūtra, Dhyāna constitui o sétimo membro do sistema dos oito membros (aṣṭāṅga yoga). O conceito influenciou profundamente outras tradições asiáticas. As palavras chinesa Chán (禪) e japonesa Zen (禅) derivam historicamente do sânscrito Dhyāna. Embora frequentemente traduzido simplesmente como “meditação”, o termo possui significados técnicos específicos que variam entre escolas e períodos históricos. A investigação contemporânea recomenda cautela ao equiparar Dhyāna às conceções modernas de meditação desenvolvidas em contextos psicológicos ou terapêuticos.
Ver Também – Dhāraṇā (धारणा) · Samādhi (समाधि) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Patañjali (पतञ्जलि) · Pratyāhāra (प्रत्याहार)
Duḥkha – दुःख – duhkha, dukkha (pāli)
Tradução literal – Sofrimento; desconforto; insatisfação
Definição – Duḥkha é um dos conceitos centrais das tradições indianas, particularmente do Budismo, do Sāṃkhya e do Yoga. O termo refere-se não apenas ao sofrimento físico ou emocional evidente, mas também à insatisfação inerente à existência condicionada. Nos textos clássicos, Duḥkha inclui:
- Dor física.
- Sofrimento psicológico.
- Frustração.
- Impermanência.
- Insatisfação existencial.
Nos Yoga Sūtra, a superação do Duḥkha constitui uma das finalidades da prática espiritual.
Referências textuais – O termo encontra-se já na literatura védica, mas assume especial relevância nas tradições filosóficas posteriores. Nos Yoga Sūtra II.16 lê-se:
हेयं दुःखमनागतम्
heyaṃ duḥkham anāgatam
“O sofrimento futuro deve ser evitado.”
Esta frase resume um dos objetivos centrais do Yoga clássico.
Notas Académicas – No Budismo, Duḥkha constitui a Primeira Nobre Verdade. No Sāṃkhya e no Yoga, a experiência de Duḥkha surge da identificação incorreta entre Puruṣa e Prakṛti. Muitos especialistas observam que a tradução habitual por “sofrimento” não abrange completamente o significado do termo, que inclui também instabilidade, insatisfação e limitação existencial.
Ver Também – Saṃsāra (संसार) · Karma (कर्म) · Nirvāṇa (निर्वाण) · Kaivalya (कैवल्य) · Kleśa (क्लेश)
Dvaita – द्वैत – dvaita
Tradução literal: Dualidade; dois; condição de ser dois.
Definição – Dvaita designa a doutrina filosófica da dualidade e está particularmente associado ao Dvaita Vedānta, escola fundada por Madhvācārya (मध्वाचार्य) no século XIII. Segundo esta tradição, existe uma distinção real e permanente entre Deus, as almas individuais e o universo. Ao contrário do Advaita Vedānta, que afirma a unidade última entre Ātman e Brahman, o Dvaita sustenta que estas realidades permanecem distintas mesmo após a libertação espiritual. Para o Dvaita, a relação entre o ser humano e a divindade é uma relação autêntica entre entidades diferentes, sendo a devoção (bhakti) um dos meios fundamentais para alcançar a libertação.
Referências textuais – Embora a sistematização filosófica do Dvaita seja obra de Madhva, a escola baseia-se na interpretação de textos clássicos como as Upaniṣads, a Bhagavad Gītā e os Brahma Sūtra. Uma passagem frequentemente citada pelos comentadores dvaita encontra-se na Kaṭha Upaniṣad (2.2.13):
नित्यो नित्यानां चेतनश्चेतनानाम्
nityo nityānāṃ cetanaś cetanānām
“O Eterno entre os eternos, o Consciente entre os conscientes.”
Os intérpretes do Dvaita entendem esta passagem como uma indicação da distinção permanente entre a divindade suprema e os restantes seres conscientes.
Notas académicas – O Dvaita constitui uma das três grandes correntes clássicas do Vedānta, juntamente com:
- Advaita Vedānta (अद्वैत वेदान्त)
- Viśiṣṭādvaita Vedānta (विशिष्टाद्वैत वेदान्त)
- Dvaita Vedānta (द्वैत वेदान्त)
Os investigadores e académicos destacam que estas escolas partilham muitas das mesmas fontes textuais, divergindo sobretudo na forma como interpretam a relação entre Deus, o mundo e o ser humano. O Dvaita exerceu uma influência significativa nas tradições devocionais vaiṣṇavas do sul da Índia e continua a ser uma importante corrente filosófica e religiosa.
Ver também – Advaita (अद्वैत) · Vedānta (वेदान्त) · Madhvācārya (मध्वाचार्य) · Bhakti Yoga (भक्तियोग) · Brahman (ब्रह्मन्)
Dveṣa – द्वेष – dvesha – dvesa
Tradução literal: Aversão; repulsa; rejeição.
Definição – Dveṣa é um dos cinco Kleśas (क्लेश) descritos por Patañjali nos Yoga Sūtra. O termo refere-se à tendência de evitar, rejeitar ou desenvolver aversão em relação a experiências consideradas desagradáveis ou dolorosas. Segundo o Yoga Clássico, Dveṣa surge quando a mente se apega à memória do sofrimento e procura evitar tudo aquilo que associa a experiências negativas. Tal como Rāga (राग), o apego, Dveṣa contribui para manter a mente condicionada por preferências, medos e reações emocionais, dificultando a perceção clara da realidade.
Referências textuais – Patañjali define Dveṣa em Yoga Sūtra II.8:
दुःखानुशयी द्वेषः
duḥkhānuśayī dveṣaḥ
“Dveṣa é a aversão que resulta da experiência do sofrimento.”
Esta definição apresenta Dveṣa como uma reação psicológica condicionada pela memória de experiências desagradáveis.
Notas académicas – Nos Yoga Sūtra, Dveṣa é o quarto dos cinco Kleśas:
- Avidyā (अविद्या) — ignorância.
- Asmitā (अस्मिता) — identificação egoica.
- Rāga (राग) — apego.
- Dveṣa (द्वेष) — aversão.
- Abhiniveśa (अभिनिवेश) — apego à existência.
Os comentadores clássicos observam que Rāga e Dveṣa funcionam frequentemente como forças complementares: a mente procura aquilo que considera agradável e evita aquilo que considera desagradável. A investigação académica destaca que Dveṣa não se limita ao ódio ou hostilidade explícita. Pode manifestar-se de formas subtis, incluindo resistência, rejeição, preconceito, medo ou incapacidade de aceitar determinadas experiências. No contexto do Yoga, a superação de Dveṣa não implica passividade, mas sim o desenvolvimento de uma relação mais equilibrada e menos reativa com as experiências da vida.
Ver também – Kleśa (क्लेश) · Rāga (राग) · Avidyā (अविद्या) · Asmitā (अस्मिता) · Abhiniveśa (अभिनिवेश) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)
