Glossário – P

Palácio de Mysore – ಮೈಸೂರು ಅರಮನೆ – Mysore Palace, Amba Vilas Palace

O Palácio de Mysore é a residência histórica da dinastia Wadiyar (Wodeyar), localizada na cidade de Mysore, no atual estado de Karnataka, a sul da Índia. O edifício atual foi construído entre 1897 e 1912, após um incêndio ter destruído o palácio anterior, tornando-se um dos mais importantes símbolos políticos, culturais e artísticos do antigo Reino de Mysore. Embora não tenha sido originalmente concebido como um centro de Yoga, o palácio adquiriu uma importância decisiva na história do Yoga moderno devido ao apoio concedido pela família real à prática, ao ensino e à investigação do Yoga durante a primeira metade do século XX.

Referências históricas – A partir da década de 1930, o marajá Krishnaraja Wadiyar IV (1884–1940) patrocinou diversas atividades relacionadas com a educação física, a cultura e o Yoga. Foi neste contexto que Tirumalai Krishnamacharya (1888–1989) foi convidado a ensinar Yoga no palácio, permanecendo associado à corte entre 1931 e 1950. Durante este período, Krishnamacharya formou alguns dos professores que mais tarde viriam a influenciar profundamente a disseminação global do Yoga.

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Importância para a história do Yoga moderno – A associação entre Krishnamacharya e o Palácio de Mysore ocupa uma posição central na história do Yoga contemporâneo. Foi neste ambiente que se desenvolveram e sistematizaram muitas das sequências de posturas, métodos pedagógicos e abordagens que, posteriormente, deram origem a algumas das escolas de Yoga mais influentes do mundo. A investigação académica contemporânea sublinha, contudo, que o Yoga ensinado em Mysore resultou da convergência de múltiplas influências, incluindo:

  • Tradições clássicas do Yoga.
  • Haṭha Yoga medieval.
  • Cultura física indiana.
  • Ginástica europeia.
  • Nacionalismo indiano do início do século XX.

Por essa razão, o chamado “Yoga de Mysore” não deve ser entendido como a continuação direta e inalterada de uma tradição antiga, mas como um importante processo de modernização e adaptação ocorrido num contexto histórico específico.

Notas académicas – Os investigadores consideram o Palácio de Mysore um dos lugares mais importantes para compreender a transformação do Yoga numa prática global. Grande parte das formas de Yoga atualmente praticadas em estúdios de todo o mundo possui, direta ou indiretamente, ligações históricas à atividade desenvolvida neste local durante o século XX. A investigação de autores como Mark SingletonNorman SjomanJames MallinsonElliot Goldberg e Elizabeth De Michelis contribuiu significativamente para a compreensão deste período da história do Yoga.

Ver tambémT. Krishnamacharya · K. Pattabhi Jois · B. K. S. Iyengar · Indra Devi · T. K. V. Desikachar · Haṭha Yoga ·


Pañcabheda – पञ्चभेद – pancabheda, panchabheda

Tradução literal: Cinco diferenças.

Definição – Pañcabheda é uma das doutrinas centrais do Dvaita Vedānta, a escola filosófica sistematizada por Madhvācārya. O termo combina:

  • pañca — cinco.
  • bheda  — diferença, distinção.

A doutrina afirma que existem cinco diferenças reais, eternas e irredutíveis que estruturam toda a realidade. Segundo o Dvaita Vedānta, estas diferenças não são ilusórias nem provisórias, mas constituem a própria natureza da existência.

Referências textuais – A teoria do Pañcabheda encontra-se desenvolvida nos comentários de Madhvācārya aos textos fundamentais do Vedānta, especialmente aos Brahma Sūtra.

As cinco diferenças são:

  • Entre os diferentes objetos materiais (Jaḍa–Jaḍa).
  • Entre Deus e as almas (Īśvara–Jīva).
  • Entre Deus e a matéria (Īśvara–Jaḍa).
  • Entre as diferentes almas (Jīva–Jīva).
  • Entre as almas e a matéria (Jīva–Jaḍa).

Notas académicas – A doutrina do Pañcabheda constitui um dos elementos distintivos do Dvaita Vedānta. Ao contrário do Advaita Vedānta, que considera a não-dualidade como realidade última, o Dvaita sustenta que a diferença é ontologicamente real e permanente. Segundo Madhva:

  • Viṣṇu é a realidade suprema.
  • As almas possuem existência própria.
  • O universo material é real.
  • A diferença entre estas realidades nunca desaparece.

A investigação académica considera o Pañcabheda uma das formulações mais sistemáticas do pluralismo metafísico na filosofia indiana. A doutrina desempenhou um papel importante na teologia vaiṣṇava medieval e continua a ser um princípio fundamental das tradições ligadas ao Dvaita Vedānta.

Ver tambémDvaita Vedānta (द्वैत वेदान्त) · Madhvācārya (मध्वाचार्य) · Vedānta (वेदान्त) · Viṣṇu (विष्णु) · Jīva (जीव) · Brahman (ब्रह्मन्) · Advaita Vedānta (अद्वैत वेदान्त) · Brahma Sūtra (ब्रह्मसूत्र)


Pañcalakṣaṇa – पञ्चलक्षण – pancalaksana, panchalakshana

Tradução literal: Cinco características; cinco marcas distintivas.

Definição – Pañcalakṣaṇa é a designação tradicional das cinco características fundamentais que definem um Purāṇa.

O termo combina:

  • pañca  — cinco.
  • lakṣaṇa — característica, marca ou atributo distintivo.

Segundo a definição clássica, um texto pode ser considerado um Purāṇa quando aborda cinco temas fundamentais relacionados com a criação do universo, a história sagrada e a transmissão das linhagens cósmicas e humanas.

Referências textuais – A definição tradicional encontra-se em diversos Purāṇas:

सर्गश्च प्रतिसर्गश्च वंशो मन्वन्तराणि च ।
वंशानुचरितं चैव पुराणं पञ्चलक्षणम् ॥

sargaś ca pratisargaś ca vaṃśo manvantarāṇi ca ।
vaṃśānucaritaṃ caiva purāṇaṃ pañcalakṣaṇam ॥

“Criação, recriação, genealogias, ciclos dos Manus e histórias das linhagens: estas são as cinco características de um Purāṇa.”

Notas académicas – As cinco características tradicionalmente associadas aos Purāṇas são:

  1. Sarga — criação primordial do universo.
  2. Pratisarga  — dissolução e recriação cíclica do cosmos.
  3. Vaṃśa  — genealogias dos deuses, sábios e reis.
  4. Manvantara  — ciclos cósmicos governados pelos Manus.
  5. Vaṃśānucarita  — narrativas das linhagens e dinastias.

Os investigadores observam que muitos Purāṇas efetivamente incluem estes cinco temas, mas também contêm numerosos outros elementos, como teologia, geografia sagrada, rituais, peregrinações, devoção (Bhakti) e narrativas mitológicas. Por essa razão, a definição baseada no Pañcalakṣaṇa é considerada uma descrição ideal ou normativa da literatura purânica, mais do que uma descrição exata de todos os textos existentes.

A investigação académica considera o conceito importante para compreender a forma como os próprios autores e comentadores tradicionais definiam o género Purāṇa.

Ver tambémPurāṇa (पुराण) · Mahāpurāṇas (महापुराण) · Bhāgavata Purāṇa (भागवतपुराण)


Pāṇini – पाणिनि – panini

DefiniçãoPāṇini foi um gramático e erudito indiano, geralmente situado entre os séculos V e IV a.C., considerado uma das figuras mais importantes da história intelectual da Índia. É reconhecido como o principal sistematizador da gramática do sânscrito e autor da Aṣṭādhyāyī, uma das obras linguísticas mais sofisticadas da Antiguidade. O seu trabalho permitiu estabelecer uma descrição extremamente precisa e sistemática da língua sânscrita, influenciando profundamente a literatura, a filosofia e a transmissão do conhecimento no subcontinente indiano.

Referências textuais – A principal obra atribuída a Pāṇini é a Aṣṭādhyāyī, literalmente “os oito capítulos”, composta por cerca de quatro mil aforismos. A tradição gramatical clássica desenvolveu-se posteriormente através de outras duas obras fundamentais:

  • Vārttika de Kātyāyana.
  • Mahābhāṣya de Patañjali.

Estas três obras constituem o núcleo da tradição do Vyākaraṇa.

Notas académicas – Os investigadores consideram Pāṇini uma das figuras mais influentes da história da linguística. O seu sistema apresenta um elevado grau de formalização e utiliza regras extremamente precisas para explicar a formação das palavras e o funcionamento da língua. A datação exata da sua vida permanece objeto de debate académico, embora seja geralmente situada antes da expansão do império de Alexandre Magno na Índia. A investigação contemporânea reconhece a originalidade do seu trabalho, que continua a ser estudado em áreas como a linguística, a filosofia da linguagem, a história das ideias e, mais recentemente, a ciência computacional. A obra de Pāṇini constitui uma das mais importantes realizações intelectuais da história da Índia.

Ver tambémSânscrito (संस्कृत) · Vyākaraṇa (व्याकरण) · Mahābhāṣya (महाभाष्य) · Patañjali (पतञ्जलि) · Vedas (वेद) · Indiologia


Paramparā – परम्परा – parampara

Tradução literal: Sucessão contínua; transmissão em cadeia; linhagem.

Definição – Paramparā designa a transmissão contínua de ensinamentos de mestre para discípulo ao longo de sucessivas gerações. Nas tradições indianas, a legitimidade de muitos ensinamentos, práticas e interpretações encontra-se frequentemente associada à sua inserção numa paramparā reconhecida. O conceito enfatiza a continuidade da transmissão e a preservação do conhecimento através de uma linhagem de mestres. Em numerosos contextos religiosos e filosóficos, a pertença a uma paramparā é considerada uma garantia de autenticidade e fidelidade à tradição.

Referências textuais – O conceito encontra-se amplamente difundido na literatura religiosa e filosófica da Índia. Uma referência particularmente conhecida surge na Bhagavad Gītā (4.2):

एवं परम्पराप्राप्तम्

evaṃ paramparāprāptam

“Assim foi recebido através da sucessão de mestres.”

Nesta passagem, Kṛṣṇa descreve a transmissão tradicional dos ensinamentos do Yoga.

Notas académicas – A noção de paramparā desempenhou um papel fundamental na conservação dos textos sânscritos, das tradições rituais e das escolas filosóficas indianas. Contudo, os estudos históricos mostram que as linhagens nem sempre permaneceram estáticas ou inalteradas. Muitas tradições passaram por processos de adaptação, reorganização e reformulação ao longo dos séculos. Por esse motivo, os investigadores distinguem frequentemente entre a continuidade idealizada apresentada pelas próprias tradições e os processos históricos efetivos de transmissão.

Ver tambémGuru (गुरु) · Śiṣya (शिष्य) · Ācārya (आचार्य) · Yoga (योग) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता)


Patañjali – पतञ्जलि – Patânjali, Patanjali

Tradução literal: O significado exato do nome é incerto e objeto de interpretações tradicionais diversas.

Definição – Patañjali é o nome tradicionalmente associado aos Yoga Sūtra (योगसूत्र), uma das obras mais influentes da história do Yoga. Os Yoga Sūtra sistematizam uma forma de Yoga frequentemente designada pelos investigadores como Yoga Clássico ou Yoga de Patañjali, centrada na disciplina mental, na meditação e na libertação espiritual (kaivalya). A figura de Patañjali ocupa um lugar central na tradição yogica, sendo frequentemente venerado como um sábio (ṛṣi) e mestre do Yoga.

Estatua de Patañjali na sua aldeia natal, perto de Lucknow, India

Referências textuais – A obra tradicionalmente atribuída a Patañjali inicia-se com um dos versos mais conhecidos da literatura yogica:

अथ योगानुशासनम्

atha yogānuśāsanam

“Agora, a exposição sistemática do Yoga.”

(Yoga Sūtra I.1)

Esta frase marca o início dos Yoga Sūtra e tornou-se uma das passagens mais citadas da tradição do Yoga.

Notas académicas – Embora a tradição atribua os Yoga Sūtra a Patañjali, pouco se sabe com certeza sobre a sua identidade histórica. Durante séculos, muitos autores identificaram Patañjali como autor de três grandes obras:

  • Yoga Sūtra (योगसूत्र)
  • Mahābhāṣya (महाभाष्य)
  • um tratado de medicina ayurvédica atualmente perdido

Contudo, a investigação académica contemporânea considera geralmente que estas obras poderão ter sido compostas por autores diferentes que partilhavam o mesmo nome. A datação dos Yoga Sūtra permanece objeto de debate, embora muitos investigadores situem a sua composição entre os séculos II a.C. e IV d.C. Independentemente destas questões históricas, a influência de Patañjali no desenvolvimento do Yoga foi profunda e continua a estender-se às tradições contemporâneas.

Ver tambémYoga Sūtra (योगसूत्र) · Yoga Bhāṣya (योगभाष्य) · Samādhi (समाधि) · Kaivalya (कैवल्य) · Mahābhāṣya (महाभाष्य)


Pārvatī – पार्वती – parvati

Tradução literal: Filha da montanha.

Definição – Pārvatī ou Mahādevī, é uma das principais deusas do Hinduísmo e a consorte de Śiva (शिव). O seu nome deriva de parvata (पर्वत), “montanha”, e significa literalmente “aquela que pertence à montanha” ou “filha da montanha”, numa referência ao rei Himavat, a personificação mitológica dos Himalaias. Nas tradições hindus, Pārvatī é frequentemente apresentada como uma manifestação de Śakti (शक्ति), o poder divino feminino que complementa e dinamiza Śiva. É simultaneamente associada à fertilidade, ao amor conjugal, à devoção, à maternidade e ao poder espiritual.

Referências textuais – A história de Pārvatī é desenvolvida em numerosos Purāṇas e textos devocionais. Uma das narrativas mais conhecidas descreve as austeridades (tapas) realizadas por Pārvatī para conquistar Śiva como esposo. Na literatura sânscrita clássica, a deusa é frequentemente celebrada através de epítetos como:

गिरिजा

girijā

“Nascida da montanha.”

Este é um dos nomes alternativos mais comuns de Pārvatī na literatura hindu.

Notas académicas – A figura de Pārvatī desempenha um papel central no desenvolvimento das tradições śaivas e śāktas. Ao longo da história, diversas deusas foram identificadas como manifestações ou formas de Pārvatī, incluindo:

  • Durgā 
  • Kālī 
  • Annapūrṇā 
  • Tripurasundarī 

Em muitos textos tântricos, a união de Śiva e Pārvatī simboliza a integração entre consciência e energia, um tema fundamental da metafísica tântrica. A investigação académica observa que Pārvatī representa uma das mais importantes expressões do princípio feminino divino na religião hindu, tendo exercido profunda influência na mitologia, arte, literatura e prática religiosa do Sul da Ásia.

Ver tambémŚiva (शिव) · Mahādevī (महादेवी) · Durgā (दुर्गा) · Kālī (काली) · Śakti (शक्ति) · Śaktismo (शाक्तमत) · Gaṇeśa (गणेश)


Piṅgalā – पिङ्गला – pingala

Tradução literal: Avermelhada; dourada; acastanhada.

Definição – Piṅgalā é uma das três principais nāḍīs do corpo subtil descritas no Haṭha Yoga e no Tantra. Tradicionalmente é associada ao sol (sūrya), ao calor, à atividade e ao dinamismo. Os textos apresentam Piṅgalā como complementar de Iḍā. Enquanto Iḍā é associada à lua, Piṅgalā é associada ao sol. O equilíbrio entre ambas é frequentemente descrito como uma condição necessária para o despertar da Suṣumṇā.

Referências textuais – Uma referência clássica encontra-se igualmente na Haṭhapradīpikā (III.5):

इडा भगवती गङ्गा पिङ्गला यमुना नदी

iḍā bhagavatī gaṅgā piṅgalā yamunā nadī

“Iḍā é a sagrada Gaṅgā; Piṅgalā é o rio Yamunā.”

A metáfora dos rios é amplamente utilizada para representar os fluxos subtis do prāṇa.

Notas académicas – As representações contemporâneas das nāḍīs foram fortemente influenciadas por diagramas modernos dos cakras produzidos durante os séculos XIX e XX. Os textos históricos apresentam descrições mais variadas e nem sempre coincidentes. Tal como Iḍā e Suṣumṇā, Piṅgalā deve ser compreendida no contexto da fisiologia subtil desenvolvida pelas tradições tântricas e yogícas.

Ver tambémIḍā (इडा) · Suṣumṇā (सुषुम्णा) · Nāḍī (नाडी) · Prāṇa (प्राण) · Kuṇḍalinī (कुण्डलिनी)


Prakṛti – प्रकृति – prakriti, prakrti

Tradução literal: Natureza; constituição original; aquilo que está na origem.

Definição – Prakṛti é um dos conceitos fundamentais das filosofias Sāṃkhya e Yoga. Refere-se à natureza primordial a partir da qual se desenvolvem todos os fenómenos do universo, incluindo a matéria, os sentidos, a mente e os processos psicológicos. Segundo estas tradições, tudo aquilo que pertence ao mundo da mudança, da atividade e da manifestação faz parte de Prakṛti. Prakṛti é frequentemente apresentada em contraste com Puruṣa (पुरुष), a consciência pura e imutável. Enquanto Prakṛti corresponde ao domínio da natureza e da transformação, Puruṣa representa o princípio consciente que observa essas transformações.

Referências textuais – O conceito encontra-se em diversas fontes antigas, mas recebe uma formulação sistemática na tradição Sāṃkhya. Uma passagem importante da Śvetāśvatara Upaniṣad (4.10) afirma:

मायां तु प्रकृतिं विद्यान्मायिनं तु महेश्वरम्

māyāṃ tu prakṛtiṃ vidyān māyinaṃ tu maheśvaram

“Saiba-se que Māyā é Prakṛti e que o grande Senhor é o detentor de Māyā.”

Esta passagem tornou-se particularmente influente nas interpretações posteriores da natureza da manifestação.

Notas académicas – No sistema Sāṃkhya, Prakṛti constitui um dos dois princípios fundamentais da realidade, juntamente com Puruṣa. A partir de Prakṛti desenvolvem-se progressivamente os diferentes elementos da experiência, incluindo intelecto (buddhi), ego (ahaṃkāra), mente (manas), sentidos e elementos materiais. A teoria de Prakṛti exerceu uma profunda influência sobre os Yoga Sūtra e sobre grande parte da filosofia indiana posterior.

Ver tambémPuruṣa (पुरुष) · Sāṃkhya (सांख्य) · Guṇa (गुण) · Māyā (माया) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)


Prāṇa – प्राण – prana

Tradução literal: Sopro da vida, sopro vital; força vital, respiraãoç

Definição – Prāṇa é um conceito fundamental em numerosas tradições indianas e refere-se, de forma geral, ao princípio vital que anima os seres vivos. Embora frequentemente associado à respiração, o seu significado é mais amplo. Nos textos clássicos, Prāṇa pode designar tanto a respiração física como a força vital que sustenta os processos biológicos, sensoriais e mentais. No Yoga, na Ayurveda e em diversas tradições tântricas, o prāṇa ocupa uma posição central na compreensão da saúde, da prática espiritual e da relação entre corpo e consciência.

Referências textuais – O termo encontra-se já nos Vedas e assume grande importância nas Upaniṣads. Uma das passagens mais conhecidas surge na Praśna Upaniṣad (II.13):

प्राणस्येदं वशे सर्वम्

prāṇasyedaṃ vaśe sarvam

“Tudo isto está sob o domínio do Prāṇa.”

A passagem integra uma reflexão mais ampla sobre a importância do prāṇa para a vida e para a ordem do universo.

Notas académicas – As interpretações de prāṇa variam entre diferentes tradições. Muitos textos distinguem cinco manifestações principais do prāṇa:

  • Prāṇa (प्राण)
  • Apāna (अपान)
  • Samāna (समान)
  • Udāna (उदान)
  • Vyāna (व्यान)

Estas classificações desempenham um papel importante na Ayurveda, no Yoga e em várias tradições contemplativas. Embora por vezes traduzido por “energia vital”, os estudiosos alertam que esta tradução simplifica um conceito cuja história e significado são bastante mais complexos.

Ver tambémPrāṇāyāma (प्राणायाम) · Nāḍī (नाडी) · Kuṇḍalinī (कुण्डलिनी) · Ayurveda (आयुर्वेद) · Haṭha Yoga (हठयोग)


Prāṇāyāma – प्राणायाम – pranayama, pranaiama

Tradução literal: Expansão do prāṇa; controlo do prāṇa.

Definição – Prāṇāyāma designa um conjunto de práticas respiratórias desenvolvidas nas tradições do Yoga. Estas práticas envolvem diferentes formas de inspiração, expiração, retenção da respiração e regulação do fluxo respiratório. Embora frequentemente apresentado como uma técnica de respiração, os textos clássicos associam o Prāṇāyāma ao controlo do prāṇa e à preparação da mente para estados mais profundos de concentração e meditação. Nas tradições do Yoga, o Prāṇāyāma ocupa uma posição intermédia entre as práticas corporais (āsana) e as práticas contemplativas mais avançadas.

Referências textuais – O conceito encontra-se já em algumas Upaniṣads, mas recebe uma formulação particularmente influente nos Yoga Sūtra de Patañjali. Em Yoga Sūtra II.49 encontra-se a seguinte definição:

तस्मिन् सति श्वासप्रश्वासयोर्गतिविच्छेदः प्राणायामः

tasmin sati śvāsa-praśvāsayor gati-vicchedaḥ prāṇāyāmaḥ

“Uma vez estabelecida a postura, a interrupção ou regulação dos movimentos da inspiração e da expiração é Prāṇāyāma.”

Esta é uma das definições clássicas mais citadas na literatura do Yoga.

Notas académicas – Nos Yoga Sūtra, Prāṇāyāma constitui o quarto membro do sistema dos oito membros (aṣṭāṅga yoga). Os textos do Haṭha Yoga medieval desenvolveram posteriormente numerosas técnicas específicas, incluindo Nāḍī ŚodhanaBhastrikāUjjāyīŚītalīŚītkārī e Sūryabhedana. A investigação científica contemporânea tem estudado os possíveis efeitos fisiológicos de determinadas técnicas respiratórias. Contudo, os conceitos tradicionais de prāṇa pertencem ao contexto filosófico e religioso das tradições indianas e não podem ser reduzidos a explicações puramente biomédicas.

Ver tambémPrāṇa (प्राण) · Nāḍī (नाडी) · Āsana (आसन) · Dhyāna (ध्यान) · Haṭha Yoga (हठयोग)


Pratyāhāra – प्रत्याहार – pratyahara

Tradução literal: Retirada; recolhimento; retração.

Definição – Pratyāhāra designa o processo de retração dos sentidos em relação aos seus objetos. Nos sistemas clássicos do Yoga, corresponde à capacidade de reduzir a dispersão provocada pelos estímulos sensoriais externos, permitindo que a atenção se volte progressivamente para o interior. Não implica necessariamente a supressão dos sentidos, mas antes a sua integração e estabilização sob a direção da mente. Nos Yoga Sūtra, Pratyāhāra marca a transição entre as práticas mais externas (bahiraṅga) e as práticas internas (antaraṅga) do Yoga.

Referências textuais – O conceito encontra-se em textos anteriores a Patañjali, mas a sua formulação clássica surge nos Yoga Sūtra II.54:

स्वविषयासम्प्रयोगे चित्तस्य स्वरूपानुकार इवेन्द्रियाणां प्रत्याहारः

svaviṣayāsamprayoge cittasya svarūpānukāra ivendriyāṇāṃ pratyāhāraḥ

“Pratyāhāra é a condição em que os sentidos deixam de contactar os seus objetos e seguem, por assim dizer, a natureza da própria mente.”

Notas académicas – Pratyāhāra constitui o quinto membro do sistema dos oito membros (aṣṭāṅga yoga). A sua posição é particularmente importante porque estabelece a ligação entre as disciplinas corporais e respiratórias e as práticas contemplativas mais avançadas. Os comentadores tradicionais descrevem frequentemente Pratyāhāra como um pré-requisito para a concentração estável.

Ver tambémPrāṇāyāma (प्राणायाम) · Dhāraṇā (धारणा) · Dhyāna (ध्यान) · Samādhi (समाधि) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)


Purāṇa – पुराण – purana

Tradução literal: Antigo; narrativa antiga; tradição antiga.

Definição – Purāṇa designa um importante género da literatura religiosa hindu que reúne narrativas mitológicas, cosmologias, genealogias, lendas, ensinamentos religiosos, descrições de rituais e histórias de divindades, sábios e reis. Os Purāṇas desempenharam um papel fundamental na transmissão das tradições religiosas da Índia, tornando acessíveis a públicos mais amplos temas que anteriormente se encontravam sobretudo associados aos Vedas e à literatura erudita. Muitas das narrativas mais conhecidas sobre divindades como:

  • Śiva
  • Viṣṇu
  • Durgā
  • Kṛṣṇa
  • Rāma

encontram-se preservadas ou desenvolvidas nos Purāṇas.

Referências textuais – A tradição define frequentemente um Purāṇa através de cinco características principais (pañcalakṣaṇa):

सर्गश्च प्रतिसर्गश्च वंशो मन्वन्तराणि च ।
वंशानुचरितं चैव पुराणं पञ्चलक्षणम् ॥

sargaś ca pratisargaś ca vaṃśo manvantarāṇi ca ।
vaṃśānucaritaṃ caiva purāṇaṃ pañcalakṣaṇam ॥

“Criação, recriação, genealogias, ciclos dos Manus e histórias das linhagens: estas são as cinco características de um Purāṇa.”

Notas académicas – Os investigadores consideram os Purāṇas uma das mais importantes fontes para o estudo do desenvolvimento histórico do Hinduísmo. A sua composição ocorreu ao longo de muitos séculos, aproximadamente entre os primeiros séculos da era comum e o final do período medieval, através de sucessivas revisões, ampliações e adaptações. Tradicionalmente distinguem-se:

  • Mahāpurāṇas (महापुराण) — os dezoito Grandes Purāṇas.
  • Upapurāṇas (उपपुराण) — Purāṇas secundários.

Os Purāṇas foram particularmente importantes para a expansão das tradições devocionais (Bhakti) e para a difusão de narrativas religiosas em diferentes regiões da Índia. A investigação académica considera estes textos fontes fundamentais para o estudo da mitologia, religião, história cultural, geografia sagrada e práticas devocionais do subcontinente indiano.

Ver tambémVyāsa (व्यास) · Śiva (शिव) · Viṣṇu (विष्णु) · Durgā (दुर्गा) · Bhakti (भक्ति) · Hinduísmo ·


Puruṣa – पुरुष – purusha


Tradução literal:
 Pessoa; ser; consciência.

Definição – Puruṣa é um conceito central das filosofias Sāṃkhya e Yoga. Nestes sistemas, designa a consciência pura, eterna, imutável e distinta da natureza material. Segundo estas tradições, tudo aquilo que pertence ao corpo, à mente, às emoções e aos fenómenos observáveis faz parte de Prakṛti (a natureza). Puruṣa, pelo contrário, representa o princípio consciente que observa essas transformações sem ser por elas afetado. A libertação espiritual consiste precisamente em reconhecer a distinção entre Puruṣa e Prakṛti.

Referências textuais – O termo encontra-se já no célebre Puruṣa Sūkta do Ṛgveda (10.90), embora com significados diferentes daqueles que assumirá posteriormente nas escolas filosóficas clássicas. Uma das definições mais influentes encontra-se nos Yoga Sūtra (II.20):

द्रष्टा दृशिमात्रः शुद्धोऽपि प्रत्ययानुपश्यः

draṣṭā dṛśimātraḥ śuddho’pi pratyayānupaśyaḥ

“O observador é pura consciência; embora puro, parece contemplar os conteúdos mentais.”

Esta passagem descreve a natureza do observador consciente identificado com Puruṣa.

Notas académicas – O conceito de Puruṣa é inseparável da filosofia Sāṃkhya, que exerceu profunda influência sobre o Yoga clássico. Ao contrário do Advaita Vedānta, que enfatiza uma realidade absoluta única, o Sāṃkhya admite a existência de múltiplos puruṣas, correspondendo às diferentes consciências individuais. A distinção entre Puruṣa e Prakṛti constitui um dos fundamentos filosóficos mais importantes dos Yoga Sūtra.

Ver tambémPrakṛti (प्रकृति) · Kaivalya (कैवल्य) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Sāṃkhya (सांख्य) · Ātman (आत्मन्)


Saṃsāra – Centro de Estudos do Yoga