Glossário – T

Tamas – तमस् – tamas

Tradução literal: Escuridão; obscuridade; inércia.

Definição – Tamas é um dos três Guṇas (गुण), as qualidades fundamentais da natureza (Prakṛti) segundo as filosofias do Sāṃkhya e do Yoga. Tradicionalmente, Tamas está associado à inércia, à passividade, à obscuridade, à resistência à mudança e à falta de clareza. Os textos clássicos descrevem-no como a qualidade responsável pela estabilidade e pela tendência para a imobilidade. Embora frequentemente apresentado de forma negativa, Tamas desempenha também funções necessárias, como o repouso, o sono e a conservação das estruturas físicas. Segundo o Sāṃkhya-Yoga, toda a realidade manifestada resulta da interação dinâmica entre:

  • Tamas (तमस्) — inércia e estabilidade.
  • Sattva (सत्त्व) — clareza e equilíbrio.
  • Rajas (रजस्) — atividade e movimento.

Referências textuais – O Bhagavad Gītā descreve Tamas da seguinte forma:

तमस्त्वज्ञानजं विद्धि मोहनं सर्वदेहिनाम्

tamas tv ajñānajaṃ viddhi mohanaṃ sarvadehinām

“Sabe que Tamas nasce da ignorância e conduz à confusão de todos os seres encarnados.”

(Bhagavad Gītā XIV.8)

Esta passagem integra a exposição clássica dos três Guṇas apresentada por Kṛṣṇa.

Notas académicas – Na filosofia do Sāṃkhya, os Guṇas não são qualidades morais, mas princípios constitutivos da natureza. Tamas caracteriza-se tradicionalmente por:

  • Inércia.
  • Pesadez.
  • Estabilidade.
  • Obscuridade.
  • Resistência à mudança.

A literatura yogica e ayurvédica descreve frequentemente estados de letargia, confusão mental ou apatia como manifestações de um predomínio de Tamas. Contudo, os comentadores clássicos observam que nenhum dos Guṇas é inteiramente negativo ou positivo. A própria possibilidade de repouso, sono e estabilidade física depende da presença de Tamas. A investigação académica considera a teoria dos Guṇas uma das contribuições mais influentes do pensamento indiano para a compreensão da mente, da natureza e da experiência humana.

Ver tambémGuṇa (गुण) · Sattva (सत्त्व) · Rajas (रजस्) · Prakṛti (प्रकृति) · Sāṃkhya (सांख्य) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता)


Tantra – तन्त्र – tantra

Tradução literal – Tear; trama; sistema; método.

Definição – Tantra é um termo utilizado para designar um vasto conjunto de tradições religiosas, filosóficas e rituais desenvolvidas na Índia ao longo do primeiro e segundo milénios da Era Comum. Estas tradições incluem práticas meditativas, visualizações, rituais, mantras, mandalas, iniciações (dīkṣā), sistemas de corpo subtil e diferentes formas de teologia e metafísica. Contrariamente a muitas interpretações populares modernas, o Tantra não se reduz à sexualidade nem constitui uma tradição única e homogénea. O termo abrange uma grande diversidade de correntes hindus e budistas que se desenvolveram em contextos históricos distintos. As tradições tântricas exerceram uma profunda influência sobre o Śaivismo, o Śāktismo, o Budismo Vajrayāna e, posteriormente, sobre diversas formas de Yoga.

Chamunda, Madhya Pradesh, Índia, Sec.XIX

Referências textuais – Os primeiros textos classificados como tântricos surgem aproximadamente entre os séculos V e VIII da Era Comum. Uma passagem frequentemente citada do Kulārṇava Tantra (I.117) afirma:

ज्ञानं तन्त्रे प्रतिष्ठितम्

jñānaṃ tantre pratiṣṭhitam

“O conhecimento encontra-se estabelecido no Tantra.”

Embora breve, esta passagem ilustra a importância atribuída à transmissão do conhecimento dentro das tradições tântricas.

Notas académicas – O estudo académico do Tantra conheceu avanços significativos durante as últimas décadas. Investigadores como Alexis Sanderson, André Padoux, Teun Goudriaan, Gavin Flood, David Gordon White e Bettina Bäumer demonstraram que o Tantra constitui um fenómeno histórico extremamente complexo e diversificado. Atualmente existe consenso académico de que não é possível reduzir todas as tradições tântricas a um conjunto único de crenças ou práticas. As interpretações modernas que apresentam o Tantra exclusivamente como uma forma de espiritualidade sexual representam apenas uma pequena e frequentemente distorcida parte da tradição histórica.

Ver tambémŚakti (शक्ति) · Śiva (शिव) · Mantra (मन्त्र) · Kuṇḍalinī (कुण्डलिनी) · Cakra (चक्र)


Tapas – तपस् – tápasya, tapas

Tradução literal – Calor; ardor; disciplina ascética.

Definição – Tapas designa a disciplina, o esforço sustentado ou a austeridade voluntariamente assumida com fins espirituais. O significado original da palavra está relacionado com o calor produzido pelo fogo, ideia que posteriormente passou a simbolizar o processo de transformação interior resultante da prática espiritual. Nas tradições do Yoga, Tapas refere-se à capacidade de perseverar na prática apesar das dificuldades e dos obstáculos.

Referências textuais – O conceito encontra-se já nos Vedas e nas Upaniṣads, assumindo posteriormente grande importância em diversas tradições ascéticas indianas. Nos Yoga Sūtra II.1 lê-se:

तपःस्वाध्यायेश्वरप्रणिधानानि क्रियायोगः

tapaḥ-svādhyāy-eśvara-praṇidhānāni kriyāyogaḥ

“Tapas, Svādhyāya e Īśvara-praṇidhāna constituem o Kriyā Yoga.”

Notas académicas – Historicamente, Tapas esteve frequentemente associado a práticas ascéticas rigorosas. Nos Yoga Sūtra, contudo, o conceito é geralmente compreendido de forma mais ampla, referindo-se à disciplina necessária para a transformação pessoal e espiritual. O termo desempenha um papel importante em diversas tradições hindus, budistas e jainistas.

Ver tambémSvādhyāya (स्वाध्याय) · Īśvara-praṇidhāna (ईश्वरप्रणिधान) · Kriyā Yoga (क्रियायोग) · Niyama (नियम) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)


Tattva – तत्त्व – tattva

Tradução literal: Aquilo que é; princípio; realidade; essência.

Definição – Tattva é um conceito central de diversas filosofias e tradições religiosas indianas, particularmente do Sāṃkhya, do Yoga, do Vedānta e do Tantra. O termo deriva da expressão tat, “isso” ou “aquilo”, e refere-se aos princípios fundamentais que constituem a realidade. Consoante a tradição considerada, os Tattvas correspondem às categorias, elementos ou níveis através dos quais se explica a estrutura do universo, da mente e da experiência humana. Embora o significado varie entre escolas filosóficas, a ideia central permanece a mesma: os Tattvas representam os componentes essenciais da existência.

Referências textuais – No Sāṃkhya, a realidade é tradicionalmente explicada através de vinte e cinco Tattvas, que descrevem a evolução progressiva do cosmos a partir de Prakṛti.

Esta sequência inclui princípios como:

  • Os elementos materiais.
  • Mahat (महत्)
  • Ahaṃkāra (अहंकार)
  • Manas (मनस्)
  • Os órgãos dos sentidos.
  • Os elementos subtis.

Notas académicas – Os investigadores observam que o conceito de Tattva adquiriu diferentes interpretações ao longo da história das tradições indianas. Alguns exemplos incluem:

  • Sāṃkhya: 25 Tattvas.
  • Śaivismo da Caxemira: 36 Tattvas.
  • Diversas tradições tântricas: sistemas próprios de categorias cosmológicas.

O estudo dos Tattvas permite compreender a forma como diferentes escolas indianas explicam a origem do universo, a constituição do ser humano e o processo de libertação espiritual. A investigação académica considera Tattva um dos conceitos mais importantes e transversais da filosofia indiana.

Ver tambémSāṃkhya (सांख्य) · Yoga (योग) · Vedānta (वेदान्त) · Tantra (तन्त्र) · Prakṛti (प्रकृति) · Puruṣa (पुरुष) · Mahat (महत्) · Ahaṃkāra (अहंकार) · Manas (मनस्)


Trāṭaka – त्राटक – trataka

Tradução literal: Olhar fixamente; contemplação fixa.

Definição – Trāṭaka é uma das seis práticas tradicionais de purificação (Ṣaṭkarma ou Ṣaṭkriyā) do Haṭha Yoga. Consiste em fixar o olhar de forma contínua e concentrada sobre um objeto, sem pestanejar, até que surjam lágrimas ou até que a atenção permaneça completamente absorvida. Tradicionalmente, os objetos utilizados podem incluir:

  • A chama de uma vela.
  • Um símbolo sagrado.
  • Um ponto desenhado.
  • Uma imagem de uma divindade.
  • Um objeto de meditação.

Nos textos clássicos, Trāṭaka é apresentado simultaneamente como uma prática de purificação e como um método de desenvolvimento da concentração mental.

Referências textuais – O Haṭha Yoga Pradīpikā (II.31) descreve Trāṭaka da seguinte forma:

निरीक्षेन्निश्चलदृशा सूक्ष्मलक्ष्यं समाहितः ।
अश्रुसम्पातपर्यन्तमाचार्यैस्त्राटकं स्मृतम् ॥

nirīkṣen niścaladṛśā sūkṣma-lakṣyaṃ samāhitaḥ ।
aśru-sampāta-paryantam ācāryais trāṭakaṃ smṛtam ॥

“Contemple com olhar imóvel um objeto subtil, mantendo a mente concentrada, até ao aparecimento das lágrimas. Isto é conhecido pelos mestres como Trāṭaka.”

Notas académicas – Trāṭaka integra tradicionalmente o conjunto das seis purificações do Haṭha Yoga:

  • Dhauti (धौति)
  • Basti (बस्ति)
  • Neti (नेति)
  • Trāṭaka (त्राटक)
  • Nauli (नौलि)
  • Kapālabhāti (कपालभाति)

Embora seja classificado como uma técnica de purificação, Trāṭaka encontra-se intimamente relacionado com práticas de concentração e meditação. Diversos autores observam que esta técnica estabelece uma ponte entre os métodos físicos de purificação do Haṭha Yoga e os processos mentais associados à Dhāraṇā (धारणा) e à meditação. A investigação académica destaca que Trāṭaka surge principalmente na literatura do Haṭha Yoga medieval e não nos Yoga Sūtra de Patañjali, embora o seu objetivo de estabilização da atenção apresente afinidades com práticas meditativas descritas noutras tradições yogicas.

Ver tambémṢaṭkarma (षट्कर्म) · Haṭha Yoga (हठयोग) · Dhāraṇā (धारणा) · Dhyāna (ध्यान) · Neti (नेति) · Nauli (नौलि) · Kapālabhāti (कपालभाति)


Trimūrti – त्रिमूर्ति – trimurti

Tradução literal: Três formas; três manifestações.

Definição – Trimūrti é um conceito da tradição hindu que reúne três importantes divindades associadas às funções cósmicas de criação, preservação e transformação. A palavra combina:

  • tri — três.
  • mūrti  — forma, manifestação ou representação.

A Trimūrti é tradicionalmente composta por:

  • Brahmā  — criador.
  • Viṣṇu — preservador.
  • Śiva  — transformador ou dissolvedor.

Estas três divindades representam diferentes aspetos da atividade cósmica e da manutenção do universo.

Referências textuais – A ideia da Trimūrti desenvolveu-se gradualmente na literatura purânica e em diversas tradições teológicas do Hinduísmo. Os Purāṇas apresentam frequentemente Brahmā, Viṣṇu e Śiva como manifestações complementares de uma mesma realidade divina ou como responsáveis por diferentes funções cósmicas. A representação iconográfica mais conhecida mostra uma única figura com três faces, simbolizando as três divindades.

Notas académicas – Os investigadores observam que a importância da Trimūrti varia consideravelmente entre as diferentes tradições do Hinduísmo. Embora o conceito seja amplamente conhecido, a maioria das correntes religiosas hindus desenvolveu-se em torno da devoção predominante a:

  • Viṣṇu (Vaiṣṇavismo).
  • Śiva (Śaivismo).
  • Devī ou Śakti (Śaktismo).

Consequentemente, a Trimūrti nunca constituiu uma doutrina central universalmente aceite por todas as tradições hindus. A investigação académica considera a Trimūrti uma tentativa teológica de harmonizar diferentes correntes religiosas, apresentando Brahmā, Viṣṇu e Śiva como expressões complementares da ordem cósmica. Na iconografia e na literatura religiosa, a Trimūrti tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da diversidade e da unidade presentes no Hinduísmo.

Ver tambémBrahmā (ब्रह्मा) · Viṣṇu (विष्णु) · Śiva (शिव) · Hinduísmo · Vaiṣṇavismo (वैष्णवमत) · Śaivismo (शैवमत) · Śaktismo (शाक्तमत) · Purāṇa (पुराण)


Tripurasundarī – त्रिपुरसुन्दरी – tripurasundari, lalita, lalita tripurasundari

Tradução literal: A bela dos três mundos; a bela das três cidades.

Definição – Tripurasundarī é uma importante divindade feminina do Śaktismo e uma das principais manifestações da Mahādevī, a Grande Deusa.

O seu nome combina:

  • tri — três.
  • pura — cidade, mundo ou domínio.
  • sundarī — bela.

É particularmente venerada na tradição da Śrīvidyā, onde representa a consciência suprema, a beleza divina e a união entre conhecimento, poder e compaixão. Tripurasundarī é frequentemente identificada com Lalitā Tripurasundarī , uma das formas mais elevadas da Deusa no Tantra hindu.

Referências textuais – A sua veneração encontra-se associada a diversos textos tântricos da tradição Śrīvidyā, incluindo:

  • Lalitā Sahasranāma
  • Tripurā Rahasya
  • Tantrarāja Tantra

A iconografia tradicional representa Tripurasundarī sentada num trono, segurando um arco, flechas, um laço e um aguilhão, objetos que possuem significados simbólicos relacionados com a mente, os sentidos e a consciência.

Notas académicas – Os investigadores consideram Tripurasundarī uma das divindades mais importantes do Tantra hindu medieval. A tradição Śrīvidyā desenvolveu um sofisticado sistema filosófico, ritual e meditativo centrado na sua veneração. A divindade encontra-se intimamente associada ao Śrī Yantra, um dos mais importantes diagramas sagrados do Tantra. Ao contrário de interpretações simplificadas que enfatizam apenas o aspeto esotérico, a investigação académica sublinha que a tradição de Tripurasundarī integra simultaneamente teologia, cosmologia, filosofia, ritual e práticas contemplativas.

Ver tambémMahādevī (महादेवी) · Śakti (शक्ति) · Śaktismo (शाक्तमत) · Śrīvidyā (श्रीविद्या) · Śrī Yantra (श्रीयन्त्र) · Tantra (तन्त्र) · Tripurā Rahasya (त्रिपुरारहस्य)


Tripurā Rahasya – त्रिपुरारहस्य – tripura rahasya

Tradução literal: O mistério de Tripurā.

Definição – O Tripurā Rahasya é um importante texto filosófico e espiritual da tradição hindu, particularmente associado ao Śaktismo, ao Tantra e à tradição da Śrīvidyā.

O título combina:

  • Tripurā  — uma designação da Deusa Suprema.
  • Rahasya  — mistério, ensinamento secreto ou conhecimento esotérico.

A obra explora temas relacionados com a natureza da consciência, a realidade última, a libertação espiritual e a relação entre o indivíduo e o absoluto.

Referências textuais -O Tripurā Rahasya divide-se tradicionalmente em três secções:

  • Māhātmya Khaṇḍa  — a grandeza e importância da obra.
  • Jñāna Khaṇḍa  — ensinamentos filosóficos sobre a consciência e a libertação.
  • Caryā Khaṇḍa  — práticas e orientações espirituais.

A secção mais conhecida é o Jñāna Khaṇḍa, que inclui os diálogos entre HemacūḍaHemalekhā, utilizados para ilustrar ensinamentos sobre a natureza da mente, da consciência e da realidade. O texto ocupa um lugar importante na tradição da Śrīvidyā e no culto de Tripurasundarī.

Notas académicas – A datação exata do Tripurā Rahasya permanece objeto de debate académico, sendo frequentemente situada entre os séculos XIII e XVI, embora alguns estudiosos proponham datas anteriores. Os investigadores observam que o texto apresenta uma forte orientação não-dualista, aproximando-se, em alguns aspetos, de certas interpretações do Advaita Vedānta, embora mantendo o enquadramento teológico próprio da tradição da Deusa. A investigação académica considera o Tripurā Rahasya uma importante síntese entre metafísica, espiritualidade e contemplação dentro das tradições hindus tardias.

Ver tambémTripurasundarī (त्रिपुरसुन्दरी) · Śrīvidyā (श्रीविद्या) · Mahādevī (महादेवी) · Śakti (शक्ति) · Śaktismo (शाक्तमत) · Tantra (तन्त्र) · Advaita Vedānta (अद्वैत वेदान्त) · Vedānta (वेदान्त)


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