Mahābhārata – महाभारत – Mahabharata, Maabárata, Mahabarata e Maha-Bharata
Tradução literal: A grande história dos Bhāratas.
Definição – O Mahābhārata é uma das maiores epopeias da literatura mundial e um dos textos mais importantes da tradição hindu. A obra narra o conflito entre os Pāṇḍavas e os Kauravas, culminando na grande guerra de Kurukṣetra. Contudo, para além da narrativa épica, o texto aborda temas relacionados com ética, política, religião, filosofia, dever, Yoga, espiritualidade e natureza humana. Com cerca de 100 000 versos, é significativamente mais extenso do que a Ilíada e a Odisseia combinadas. A Bhagavad Gītā constitui uma pequena secção integrada nesta vasta epopeia.
Referências textuais – A composição do Mahābhārata ocorreu ao longo de vários séculos, aproximadamente entre os últimos séculos antes da Era Comum e os primeiros séculos da Era Comum. Uma das passagens mais famosas encontra-se no início da obra:
यदिहास्ति तदन्यत्र यन्नेहास्ति न तत्क्वचित्
yad ihāsti tad anyatra yan nehāsti na tat kvacit
“Aquilo que aqui se encontra pode encontrar-se noutro lugar; aquilo que aqui não se encontra não existe em parte alguma.”
Esta afirmação expressa simbolicamente a extraordinária abrangência temática da epopeia.
Notas académicas – O Mahābhārata não é obra de um único autor nem foi composto num único momento histórico. A tradição atribui a sua autoria a Vyāsa, mas os investigadores consideram que o texto resultou de um longo processo de composição, transmissão oral, compilação e revisão. Além da narrativa principal, inclui numerosos textos independentes, tratados filosóficos, mitos, genealogias e reflexões sobre Dharma. A influência do Mahābhārata na cultura do Sul da Ásia é comparável à influência da Bíblia, de Homero ou das grandes epopeias nacionais noutras civilizações.
Ver também – Bhagavad Gītā (भगवद्गीता) · Kṛṣṇa (कृष्ण) · Arjuna (अर्जुन) · Vyāsa (व्यास) · Dharma (धर्म)
Mālā – माला – mala
Tradução literal: Grinalda; colar.
Definição – Mālā designa um cordão composto por contas utilizado para contagem de mantras, orações ou repetições meditativas (japa). É amplamente utilizado em diversas tradições religiosas da Índia, incluindo o Hinduísmo, o Budismo, o Jainismo e várias correntes do Yoga. Uma mālā tradicional possui 108 contas, embora existam variantes com números diferentes consoante a tradição ou finalidade. Durante a prática, cada conta corresponde normalmente a uma repetição de um mantra, permitindo ao praticante manter a atenção sem necessidade de contar mentalmente. Além da sua utilização ritual e meditativa, a mālā pode também simbolizar devoção, disciplina espiritual e pertença a uma determinada tradição.
Referências textuais – O uso de mālās está amplamente documentado na literatura devocional, tântrica e yogica medieval. Uma referência clássica encontra-se em diversos textos relacionados com a prática de japa, onde a repetição do mantra é acompanhada pela passagem sucessiva das contas da mālā. Na tradição hindu, é comum a utilização da expressão:
जपमाला
japa-mālā
“Grinalda para a prática de japa.”
Notas académicas – A origem exata da utilização das mālās permanece objeto de investigação, embora a prática esteja documentada há muitos séculos no Sul da Ásia. Os materiais utilizados variam consoante a tradição:
- Rudrākṣa (रुद्राक्ष) — associado sobretudo a tradições śaivas.
- Tulasi (तुलसी) — frequentemente utilizado em tradições vaiṣṇavas.
- Sândalo.
- Cristal.
- Sementes diversas.
- Madeira.
O número 108 possui múltiplas interpretações simbólicas na tradição indiana, embora não exista consenso académico sobre uma explicação única para a sua adoção.Atualmente, as mālās são utilizadas tanto em contextos religiosos tradicionais como em práticas contemporâneas de meditação e Yoga.
Ver também – Japa (जप) · Mantra (मन्त्र) · Bhakti Yoga (भक्तियोग) · Rudrākṣa (रुद्राक्ष) · Dhyāna (ध्यान)
Mantra – मन्त्र – mantra
Tradução literal: Instrumento do pensamento; instrumento da mente.
Definição – Um mantra é uma fórmula sonora, palavra, sílaba ou sequência de sons utilizada em práticas religiosas, meditativas e rituais das tradições indianas. Os mantras podem ser recitados em voz alta, sussurrados ou repetidos mentalmente. Dependendo do contexto, desempenham funções litúrgicas, meditativas, devocionais, iniciáticas ou contemplativas. Nas tradições védicas, os mantras ocupam uma posição central nos rituais. Nas tradições do Yoga e do Tantra, são frequentemente utilizados como instrumentos de concentração, transformação interior e contemplação. O significado de um mantra não depende necessariamente da sua tradução literal. Em muitos contextos tradicionais, a dimensão sonora é considerada tão importante quanto o conteúdo semântico.
Referências textuais – Os mantras possuem origem muito antiga e encontram-se já nos Vedas, especialmente no Ṛgveda, um dos textos mais antigos da literatura indiana. Entre os exemplos mais conhecidos encontra-se o mantra Gāyatrī (Ṛgveda 3.62.10):
ॐ भूर्भुवः स्वः
तत्सवितुर्वरेण्यं
भर्गो देवस्य धीमहि
धियो यो नः प्रचोदयात्
oṃ bhūr bhuvaḥ svaḥ
tat savitur vareṇyaṃ
bhargo devasya dhīmahi
dhiyo yo naḥ pracodayāt
“Meditamos sobre o esplendor divino de Savitṛ; que ele ilumine o nosso entendimento.”
Este é um dos mantras mais recitados das tradições hindus.
Notas académicas – O estudo académico dos mantras envolve áreas como filologia, história das religiões, antropologia e linguística. As diferentes tradições atribuem importância variável ao significado, à pronúncia, à métrica, à transmissão oral e ao contexto ritual. Em muitos sistemas tântricos, os mantras são considerados manifestações sonoras de divindades ou princípios cósmicos. Os investigadores alertam para o facto de os mantras não poderem ser reduzidos a simples “afirmações positivas” ou técnicas de relaxamento, interpretações frequentemente encontradas em contextos modernos.
Ver também – Oṃ (ॐ) · Japa (जप) · Bhakti (भक्ति) · Tantra (तन्त्र) · Guru (गुरु)
Māyā – माया – maya, maiá
Tradução literal: Ilusão; aparência; poder de manifestação.
Definição – Māyā é um dos conceitos mais conhecidos e frequentemente mal compreendidos da filosofia indiana. Dependendo da tradição, pode referir-se ao poder criador através do qual o universo se manifesta, à aparência enganadora das coisas ou à incapacidade de perceber a realidade tal como ela é. Embora seja frequentemente traduzida por “ilusão”, esta tradução pode ser enganadora. Em muitas correntes filosóficas, Māyā não significa que o mundo seja simplesmente inexistente, mas que a forma como normalmente o percebemos não corresponde plenamente à sua verdadeira natureza.
Referências textuais – O termo encontra-se já na literatura védica, onde possui significados relacionados com poder, habilidade ou capacidade extraordinária. Uma passagem frequentemente citada encontra-se na Śvetāśvatara Upaniṣad (4.10):
मायां तु प्रकृतिं विद्यान्मायिनं तु महेश्वरम्
māyāṃ tu prakṛtiṃ vidyān māyinaṃ tu maheśvaram
“Saiba-se que Māyā é Prakṛti e que o grande Senhor é o detentor de Māyā.”
Esta passagem tornou-se particularmente influente nas interpretações posteriores do conceito.
Notas académicas – Māyā assume significados diferentes nas várias escolas filosóficas. No Advaita Vedānta, especialmente na tradição associada a Śaṅkara, Māyā é frequentemente utilizada para explicar por que razão a realidade absoluta (Brahman) parece manifestar-se como uma multiplicidade de fenómenos. Noutras tradições, o conceito pode referir-se sobretudo ao poder criador divino e não necessariamente a uma ilusão cognitiva. A interpretação de Māyā continua a ser objeto de debate académico, e muitos especialistas alertam para simplificações excessivas frequentemente encontradas em apresentações populares da filosofia indiana.
Ver também – Brahman (ब्रह्मन्) · Ātman (आत्मन्) · Vedānta (वेदान्त) · Prakṛti (प्रकृति) · Avidyā (अविद्या)
Mīmāṃsā – मीमांसा – mimamsa – mimansa
Tradução literal: Investigação; reflexão; exame crítico.
Definição – Mīmāṃsā é uma das seis escolas clássicas (Darśanas) da filosofia hindu e dedica-se principalmente à interpretação dos Vedas e à investigação da natureza do Dharma. Tradicionalmente, distingue-se entre:
- Pūrva Mīmāṃsā (पूर्वमीमांसा) — focada nos rituais védicos e na interpretação das primeiras partes dos Vedas.
- Uttara Mīmāṃsā (उत्तरमीमांसा) — designação tradicional do Vedānta, centrado nas Upaniṣads e na natureza da realidade última.
Quando o termo Mīmāṃsā é utilizado isoladamente, refere-se normalmente à Pūrva Mīmāṃsā. A escola procura compreender como os Vedas revelam o Dharma e desenvolveu métodos sofisticados de interpretação textual que exerceram grande influência sobre outras tradições filosóficas indianas.
Referências textuais – A obra fundadora da escola é o Mīmāṃsā Sūtra (मीमांसासूत्र), tradicionalmente atribuído a Jaimini (जैमिनि). O texto inicia-se com a célebre declaração:
अथातो धर्मजिज्ञासा
athāto dharmajijñāsā
“Agora, portanto, a investigação sobre o Dharma.”
Esta frase estabelece o objetivo central da escola: compreender a natureza do Dharma através do estudo dos Vedas.
Notas académicas – A Mīmāṃsā desempenhou um papel fundamental na história intelectual da Índia. Os seus pensadores desenvolveram teorias sofisticadas sobre:
- Linguagem.
- Hermenêutica.
- Epistemologia.
- Autoridade textual.
- Ritual.
Ao contrário de outras escolas filosóficas, a Mīmāṃsā concentrou-se sobretudo na interpretação dos textos védicos e na prática ritual, mais do que em especulações metafísicas sobre Deus ou a criação do universo. A influência da escola foi tão significativa que muitos dos seus métodos interpretativos foram posteriormente adotados por correntes de Vedānta, Nyāya e outras tradições filosóficas. A investigação académica considera a Mīmāṃsā uma das mais importantes tradições hermenêuticas da história da filosofia indiana.
Ver também – Darśana (दर्शन) · Veda (वेद) · Dharma (धर्म) · Jaimini (जैमिनि) · Vedānta (वेदान्त) · Nyāya (न्याय)
Mokṣa – मोक्ष – moksha
Tradução literal: Libertação; emancipação; libertação final.
Definição – Mokṣa designa a libertação do ciclo de nascimento, morte e renascimento (saṃsāra). É considerado um dos objetivos espirituais mais elevados de numerosas tradições filosóficas e religiosas da Índia. Embora as descrições variem entre escolas, Mokṣa está geralmente associado à superação da ignorância, do sofrimento e das limitações da existência condicionada. Trata-se de um conceito central no Hinduísmo, mas encontra paralelos noutras tradições indianas, ainda que formulados de forma diferente.
Referências textuais – O conceito desenvolve-se progressivamente nas Upaniṣads e torna-se fundamental em várias escolas filosóficas posteriores. Uma passagem frequentemente citada encontra-se na Kaṭha Upaniṣad (2.3.14):
यदा सर्वे प्रमुच्यन्ते कामा येऽस्य हृदि श्रिताः
yadā sarve pramucyante kāmā ye’sya hṛdi śritāḥ
“Quando todos os desejos que habitam o coração são libertados…”
O verso prossegue descrevendo o estado de imortalidade e libertação alcançado pelo sábio.
Notas académicas – As diferentes tradições indianas apresentam interpretações distintas da libertação. No Advaita Vedānta, Mokṣa corresponde ao reconhecimento da identidade entre Ātman e Brahman. No Yoga clássico, o objetivo final é frequentemente descrito como Kaivalya, o isolamento da consciência em relação à matéria. As tradições devocionais enfatizam frequentemente a união ou proximidade com a divindade. Apesar destas diferenças, Mokṣa permanece um dos conceitos fundamentais da espiritualidade indiana.
Ver também – Ātman (आत्मन्) · Brahman (ब्रह्मन्) · Saṃsāra (संसार) · Karma (कर्म) · Kaivalya (कैवल्य)
Mudrā – मुद्रा – mudra
Tradução literal: Selo; marca; gesto.
Definição – Mudrā designa um conjunto diversificado de gestos, posições corporais e técnicas utilizadas em diferentes tradições religiosas e yogícas da Índia. Dependendo do contexto, um mudrā pode envolver apenas as mãos, o corpo inteiro ou técnicas mais complexas relacionadas com a respiração e o corpo súbtil. Nas tradições do Haṭha Yoga e do Tantra, alguns mudrās são consideradas práticas avançadas destinadas a influenciar o fluxo do prāṇa, favorecer estados meditativos e apoiar processos de transformação espiritual.
Referências textuais – O termo possui uma longa história e encontra-se em diversos contextos religiosos, artísticos e rituais. As descrições técnicas mais desenvolvidas surgem sobretudo em textos tântricos e do Haṭha Yoga medieval. Uma das passagens clássicas encontra-se na Haṭhapradīpikā (III.6):
इति मुद्राः दश प्रोक्ता आदिनाथेन शम्भुना
iti mudrāḥ daśa proktā ādināthena śambhunā
“Assim foram ensinadas os dez mudrās por Ādinātha Śambhu.”
O texto prossegue com a descrição de várias técnicas consideradas essenciais no Haṭha Yoga.
Notas académicas – Os textos clássicos apresentam numerosos mudrās, incluindo Mahāmudrā, Mahābandha, Khecarī Mudrā, Viparītakaraṇī Mudrā e Yoni Mudrā. Muitas dos mudrās são populares hoje em dia, especialmente os gestos realizados com as mãos durante aulas de Yoga, representam apenas uma pequena parte da tradição histórica associada ao termo. Os investigadores destacam que o significado do mudrā varia consideravelmente entre contextos rituais, artísticos, tântricos e yogícos.
Ver também – Bandha (बन्ध) · Prāṇāyāma (प्राणायाम) · Haṭha Yoga (हठयोग) · Kuṇḍalinī (कुण्डलिनी) · Tantra (तन्त्र)
