Glossário — A

Abhinavagupta – अभिनवगुप्त – abhinava gupta

Tradução literal: Nome próprio. Abhinava significa “novo”, “renovado” ou “inovador”; Gupta significa “protegido” ou “guardado”.

Definição – Abhinavagupta foi um filósofo, teólogo, místico, esteta e mestre tântrico indiano que viveu aproximadamente entre os séculos X e XI d.C., sendo amplamente considerado uma das figuras mais influentes da história do Śaivismo da Caxemira (काश्मीर शैवदर्शन). A sua obra abrange áreas tão diversas como a filosofia, o Tantra, a estética, a poética, a teoria da linguagem e a prática espiritual. É particularmente conhecido por sistematizar a tradição Trika (त्रिक), integrando ensinamentos provenientes de diferentes correntes do Śaivismo não-dualista da Caxemira. Os seus escritos exerceram uma profunda influência sobre o pensamento filosófico e religioso da Índia medieval.

Referências textuais – Abhinavagupta é autor de numerosas obras, entre as quais se destacam:

  • Tantrāloka (तन्त्रालोक) — a sua obra mais extensa e influente sobre o Tantra.
  • Tantrasāra (तन्त्रसार) — síntese dos ensinamentos do Tantrāloka.
  • Īśvarapratyabhijñā-vimarśinī (ईश्वरप्रत्यभिज्ञाविमर्शिनी) — comentário à filosofia da Pratyabhijñā.
  • Abhinavabhāratī (अभिनवभारती) — comentário ao Nāṭyaśāstra (नाट्यशास्त्र), considerado uma das obras fundamentais da estética indiana.

Tantrāloka constitui uma das mais completas exposições da filosofia e da prática do Śaivismo da Caxemira.

Notas académicas – Os investigadores consideram Abhinavagupta um dos maiores pensadores da história intelectual da Índia. A sua filosofia baseia-se numa visão não-dualista da realidade, segundo a qual toda a existência constitui uma manifestação da consciência absoluta (Cit), identificada com Śiva (शिव). Ao contrário de algumas correntes do Vedānta, Abhinavagupta não interpreta o mundo como mera ilusão, mas como uma manifestação real e dinâmica da consciência divina através da Śakti (शक्ति). A sua influência estende-se muito para além do Tantra, sendo igualmente reconhecido como uma das principais autoridades da estética clássica indiana, particularmente através da sua interpretação da teoria do Rasa (रस). A investigação académica contemporânea considera Abhinavagupta uma figura indispensável para o estudo do Tantra, do Śaivismo da Caxemira, da filosofia indiana e da estética sânscrita.

Ver tambémŚaivismo (शैवमत) · Trika (त्रिक) · Pratyabhijñā · Tantrāloka (तन्त्रालोक) · Tantrasāra (तन्त्रसार) · Śakti (शक्ति) · Śiva (शिव) · Tantra (तन्त्र) · Rasa (रस)


Abhiniveśa – अभिनिवेश – abhinivesha – abhinivesa

Tradução literal: Apego à vida; apego à existência; forte tendência de adesão.

Definição – Abhiniveśa é um dos cinco Kleśa (क्लेश), ou fatores de sofrimento, descritos por Patañjali nos Yoga Sūtra Tradicionalmente, refere-se ao apego profundo à existência individual e ao medo da morte ou da perda da própria identidade. Segundo os Yoga Sūtra, trata-se de uma tendência profundamente enraizada na mente humana, presente tanto em pessoas comuns como em indivíduos sábios. Abhiniveśa não se limita ao medo físico da morte. Pode também manifestar-se como apego às crenças, ao estatuto social, aos hábitos, às relações ou a qualquer elemento que contribua para a construção da identidade pessoal.

Referências textuais – Patañjali define Abhiniveśa em Yoga Sūtra II.9:

स्वरसवाही विदुषोऽपि तथारूढोऽभिनिवेशः

svarasavāhī viduṣo’pi tathārūḍho’bhiniveśaḥ

“Abhiniveśa, sustentado pelo impulso natural da vida, encontra-se firmemente estabelecido mesmo nos sábios.”

Esta passagem é uma das descrições mais conhecidas do conceito na literatura do Yoga.

Notas académicas – Nos Yoga Sūtra, Abhiniveśa é apresentado como o quinto dos cinco Kleśas:

Os comentadores clássicos interpretaram frequentemente Abhiniveśa como uma consequência direta da ignorância fundamental (avidyā), que leva o indivíduo a identificar-se exclusivamente com o corpo e com a personalidade. A investigação académica observa que o conceito possui paralelos com reflexões filosóficas sobre a autoconservação e o medo da morte, embora deva ser compreendido no contexto específico da psicologia espiritual do Yoga Clássico.

Ver tambémKleśa (क्लेश) · Avidyā (अविद्या) · Asmitā (अस्मिता) · Rāga (राग) · Dveṣa (द्वेष) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)


Abhyāsa – अभ्यास – abhyasa

Tradução literal – Prática constante; exercício repetido.

Definição – Abhyāsa designa o esforço contínuo para estabilizar a mente e desenvolver a prática espiritual. Nos Yoga Sūtra, Abhyāsa e Vairāgya constituem os dois pilares fundamentais do caminho yogico. A prática não é entendida como um esforço ocasional, mas como uma disciplina sustentada ao longo do tempo.

Referências textuais – A definição clássica encontra-se nos Yoga Sūtra I.13:

तत्र स्थितौ यत्नोऽभ्यासः

tatra sthitau yatno’bhyāsaḥ

“Abhyāsa é o esforço para permanecer nesse estado de estabilidade.”

Notas académicas – Nos Yoga Sūtra, a eficácia da prática depende da sua continuidade e consistência. Patañjali acrescenta em I.14 que a prática deve ser realizada durante muito tempo, sem interrupção e com dedicação. A combinação entre Abhyāsa e Vairāgya tornou-se um dos princípios mais citados da tradição yogica.

Ver tambémVairāgya (वैराग्य) · Samādhi (समाधि) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Dhyāna (ध्यान) · Tapas (तपस्)


Ācārya – आचार्य – acharya, acarya

Tradução literal: Mestre; preceptor; aquele que ensina pelo exemplo.

Definição – Ācārya é um título honorífico atribuído a mestres, professores e autoridades religiosas ou filosóficas. Tradicionalmente, um ācārya não é apenas alguém que transmite conhecimento, mas alguém cuja própria conduta serve de modelo para os discípulos. O termo foi utilizado ao longo da história por representantes de numerosas escolas religiosas e filosóficas da Índia. Em muitos contextos, designa um mestre de elevado prestígio, responsável pela preservação, interpretação e transmissão de uma tradição.

Referências textuais – O termo encontra-se já na literatura védica e aparece em numerosas obras posteriores. Uma passagem frequentemente citada do Taittirīya Upaniṣad (1.11.2) afirma:

आचार्यदेवो भव

ācāryadevo bhava

“Considera o teu mestre como uma divindade.”

Esta passagem integra uma série de instruções éticas dirigidas aos estudantes.

otas académicas – Ao longo da história da Índia, numerosos pensadores receberam o título de Ācārya Entre os exemplos mais conhecidos encontram-se:

  • Śaṅkarācārya (शङ्कराचार्य)
  • Rāmānujācārya (रामानुजाचार्य)
  • Madhvācārya (मध्वाचार्य)

Nestes casos, o título indica reconhecimento pela sua autoridade intelectual e espiritual. Embora frequentemente traduzido por “mestre” ou “professor”, Ācārya possui um significado mais amplo, envolvendo liderança religiosa, transmissão doutrinal e exemplaridade ética.

Ver tambémGuru (गुरु) · Śiṣya (शिष्य) · Paramparā (परम्परा) · Vedānta (वेदान्त) · Upaniṣad (उपनिषद्)


Advaita – अद्वैत – advaita

Tradução literal: Não-dual; não dois.

Definição – Advaita designa a doutrina filosófica da não-dualidade, segundo a qual a realidade última é una e indivisível. O termo é particularmente associado ao Advaita Vedānta, uma das mais influentes escolas filosóficas da Índia, tradicionalmente ligada a Śaṅkara (शङ्कर). Segundo esta perspetiva, a multiplicidade que normalmente percebemos no mundo resulta da ignorância (avidyā). A verdadeira realização espiritual consiste em reconhecer a identidade fundamental entre Ātman (o Eu profundo) e Brahman (a realidade absoluta). Advaita não significa que o mundo seja simplesmente inexistente, mas que a separação entre sujeito e objeto, entre indivíduo e absoluto, não corresponde à realidade última.

Referências textuais – Uma das formulações mais conhecidas encontra-se na Chāndogya Upaniṣad (6.8.7):

तत्त्वमसि

tat tvam asi

“Tu és Isso.”

Esta afirmação tornou-se uma das grandes expressões da não-dualidade na tradição vedântica. Outra passagem frequentemente citada encontra-se na Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (1.4.10):

अहं ब्रह्मास्मि

ahaṃ brahmāsmi

“Eu sou Brahman.”

Estas declarações foram posteriormente interpretadas pelos comentadores do Advaita Vedānta como expressões da unidade entre Ātman e Brahman.

Notas académicas – Embora frequentemente associado a Śaṅkara (século VIII d.C.), o Advaita possui raízes muito anteriores, particularmente nas Upaniṣads. Os investigadores distinguem entre a não-dualidade encontrada nos textos antigos e a formulação sistemática desenvolvida pelos filósofos do Advaita Vedānta. É igualmente importante notar que existem outras formas de não-dualidade na tradição indiana, incluindo algumas correntes do Śaivismo da Caxemira e certas interpretações tântricas, que diferem significativamente do Advaita Vedānta clássico. O Advaita exerceu uma influência profunda sobre a filosofia indiana, o Yoga moderno e a receção contemporânea da espiritualidade indiana no Ocidente.

Ver tambémVedānta (वेदान्त) · Brahman (ब्रह्मन्) · Ātman (आत्मन्) · Māyā (माया) · Śaṅkara (शङ्कर)


Advaita Vedānta – अद्वैत वेदान्त – advaita vedanta, advaita-vedanta 

Tradução literal: Vedānta não-dualista; Vedānta da não-dualidade.

Definição – Advaita Vedānta é uma das mais influentes escolas da filosofia indiana e uma das principais correntes do Vedānta. O termo combina:

  • a — não.
  • dvaita — dualidade.
  • vedānta  — culminação dos Vedas ou fim dos Vedas.

Advaita significa, portanto, “não-dualidade”. Segundo esta escola, a realidade última é Brahman, absoluto, eterno e indivisível. A multiplicidade do mundo e a aparente separação entre os seres resultam da ignorância (Avidyā) da verdadeira natureza da realidade. A libertação (Mokṣa) consiste no reconhecimento direto da identidade entre Ātman, o eu profundo, e Brahman.

Referências textuais – Uma das fórmulas mais conhecidas do Advaita encontra-se na Chāndogya Upaniṣad:

तत्त्वमसि

tat tvam asi

“Tu és Isso.”

(Chāndogya Upaniṣad VI.8.7)

Esta afirmação tornou-se uma das expressões clássicas da não-dualidade entre o indivíduo e a realidade absoluta.

Notas académicas – Embora as suas raízes se encontrem nas Upaniṣads, o Advaita Vedānta foi sistematizado sobretudo por Śaṅkarācārya, tradicionalmente datado dos séculos VIII–IX.

A escola sustenta que:

  • Brahman é a única realidade última.
  • Ātman e Brahman são idênticos.
  • A ignorância (Avidyā) gera a experiência da separação.
  • A libertação resulta do conhecimento (Jñāna).

O Advaita tornou-se uma das correntes filosóficas mais influentes da Índia e exerceu profunda influência sobre interpretações modernas do Yoga, do Vedānta e da espiritualidade hindu. A investigação académica observa que existem diferentes interpretações do Advaita ao longo da história e que alguns dos seus conceitos centrais continuam a ser objeto de debate entre estudiosos e tradições religiosas.

Ver tambémVedānta (वेदान्त) · Śaṅkarācārya (शङ्कराचार्य) · Brahman (ब्रह्मन्) · Ātman (आत्मन्) · Mokṣa (मोक्ष) · Avidyā (अविद्या) · Jñāna (ज्ञान) · Dvaita Vedānta (द्वैत वेदान्त) ·


Ahaṃkāra – अहंकार – ahamkara, ahankara

Tradução literal: “Eu faço”; sentido de eu; princípio da individualidade.

Definição – Ahaṃkāra é um conceito fundamental das filosofias do Sāṃkhya (सांख्य) e do Yoga (योग), geralmente traduzido como ego, sentido de individualidade ou consciência do “eu”. O termo deriva de:

  • aham (अहम्) — eu.
  • kāra (कार) — fazer, produzir ou formar.

Ahaṃkāra corresponde à tendência de identificar a consciência com pensamentos, emoções, percepções, papéis sociais ou características pessoais. Segundo o Sāṃkhya, é através de Ahaṃkāra que surge a experiência da individualidade, permitindo distinguir entre “eu”, “meu” e “outro”.

Referências textuais – O Bhagavad Gītā menciona Ahaṃkāra entre os elementos constitutivos da natureza humana:

भूमिरापोऽनलो वायुः खं मनो बुद्धिरेव च ।
अहंकार इतीयं मे भिन्ना प्रकृतिरष्टधा ॥

bhūmir āpo’nalo vāyuḥ khaṃ mano buddhir eva ca ।
ahaṃkāra itīyaṃ me bhinnā prakṛtir aṣṭadhā ॥

“Terra, água, fogo, ar, espaço, mente, intelecto e Ahaṃkāra: esta é a Minha natureza dividida em oito partes.”

(Bhagavad Gītā VII.4)

Notas académicas – Na cosmologia clássica do Sāṃkhya, Ahaṃkāra surge a partir de Buddhi (बुद्धि) e constitui um dos elementos centrais da estrutura psicológica do ser humano. Tradicionalmente, distingue-se de:

  • Buddhi (बुद्धि) — discernimento e intelecto.
  • Manas (मनस्) — mente sensorial.
  • Puruṣa (पुरुष) — consciência pura.

Os textos do Yoga não consideram Ahaṃkāra intrinsecamente negativo. O problema surge quando a identidade pessoal é confundida com a verdadeira natureza da consciência. A investigação académica observa que Ahaṃkāra não corresponde exatamente ao conceito moderno ocidental de ego. Trata-se antes do princípio que produz a experiência da individualidade e da apropriação da experiência como “eu” e “meu”.

Ver tambémBuddhi (बुद्धि) · Manas (मनस्) · Puruṣa (पुरुष) · Prakṛti (प्रकृति) · Sāṃkhya (सांख्य) · Yoga (योग) · Asmitā (अस्मिता)


Ahiṃsā – अहिंसा – ahimsa, ahimsâ, ainsa

Tradução literal: Não violência; não causar dano.

Definição – Ahiṃsā é um dos princípios éticos mais importantes das tradições indianas e o primeiro dos cinco Yamas dos Yoga Sūtra. Refere-se à prática de evitar causar sofrimento ou dano a outros seres através das ações, palavras ou pensamentos. Embora frequentemente traduzido simplesmente como “não violência”, o conceito possui um alcance mais amplo, envolvendo atitudes de respeito, compaixão e cuidado perante todas as formas de vida. Ahiṃsā desempenha um papel central no Hinduísmo, Budismo e Jainismo, embora com interpretações distintas em cada tradição.

Referências textuais – O termo encontra-se já em textos antigos da tradição indiana, mas assume especial importância nas tradições ascéticas desenvolvidas durante o primeiro milénio a.C. Nos Yoga Sūtra II.30 lê-se:

अहिंसासत्यास्तेयब्रह्मचर्यापरिग्रहा यमाः

ahiṃsā-satyāsteya-brahmacaryāparigrahā yamāḥ

“Não violência, veracidade, não roubo, brahmacarya e não possessividade são os Yamas.”

Notas académicas – O Jainismo desenvolveu algumas das interpretações mais rigorosas de Ahiṃsā na história das religiões. Nos Yoga Sūtra, Ahiṃsā constitui a base sobre a qual assentam os restantes princípios éticos. A influência deste conceito estende-se muito para além do contexto religioso, tendo inspirado figuras como Mahatma Gandhi.

Ver tambémYama (यम) · Satya (सत्य) · Dharma (धर्म) · Karma (कर्म) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)


Antaḥkaraṇa – अन्तःकरण – antahkarana, antakarana

Tradução literal: Instrumento interno; órgão interno.

Definição – Antaḥkaraṇa é um conceito fundamental das filosofias do Sāṃkhya, do Yoga e do Vedānta, utilizado para designar o conjunto das faculdades mentais responsáveis pela experiência, perceção, pensamento e conhecimento. O termo combina:

  • antaḥ (अन्तः) — interior, interno.
  • karaṇa (करण) — instrumento ou meio.

Assim, Antaḥkaraṇa significa literalmente “instrumento interno”. Nas tradições filosóficas indianas, refere-se ao conjunto dos processos mentais através dos quais o ser humano percebe, interpreta e reage ao mundo.

Referências textuais – O conceito encontra-se amplamente desenvolvido na literatura do Sāṃkhya, Vedānta e em numerosos comentários filosóficos posteriores. Embora a palavra não desempenhe um papel central nos Yoga Sūtra de Patañjali, as funções associadas ao Antaḥkaraṇa encontram-se presentes na análise clássica da mente e da consciência desenvolvida pelas tradições yogicas.

Notas académicas – A composição do Antaḥkaraṇa varia ligeiramente entre diferentes escolas filosóficas. Na sua formulação mais comum, inclui:

  • Manas — mente sensorial e processadora.
  • Buddhi  — intelecto e discernimento.
  • Ahaṃkāra  — sentido de individualidade.

Muitas tradições vedânticas acrescentam ainda:

  • Citta  — memória, consciência condicionada ou campo mental.

Os investigadores observam que Antaḥkaraṇa não corresponde exatamente ao conceito moderno de “mente”. Trata-se de um modelo psicológico complexo que distingue diferentes funções mentais em vez de as reunir numa única entidade. O estudo do Antaḥkaraṇa desempenha um papel central nas filosofias indianas, particularmente na compreensão da relação entre consciência, experiência e libertação espiritual.

Ver tambémManas (मनस्) · Buddhi (बुद्धि) · Ahaṃkāra (अहंकार) · Citta (चित्त) · Sāṃkhya (सांख्य) · Yoga (योग) · Vedānta (वेदान्त) · Puruṣa (पुरुष)


Apāna – अपान – apana

Tradução literal – Movimento para baixo; respiração descendente.

Definição – Apāna é uma das cinco principais manifestações de Prāṇa descritas nas tradições do Yoga, da Ayurveda e de vários sistemas filosóficos indianos. É geralmente associado ao movimento descendente da energia vital e às funções de eliminação e expulsão do organismo. Os textos clássicos relacionam Apāna com processos como:

  • Excreção.
  • Micção.
  • Menstruação.
  • Parto.
  • Ejaculação.

No contexto do Yoga, Apāna desempenha um papel importante em práticas de Prāṇāyāma, Mudrā e Bandha. Diversos textos afirmam que a união de Prāṇa e Apāna constitui um dos mecanismos fundamentais da transformação espiritual e do despertar da Kuṇḍalinī.

Referências textuais – Uma das descrições clássicas encontra-se na Praśna Upaniṣad (III.5):

पायूपस्थेऽपानः

pāyūpasthe’pānaḥ

“Apāna encontra-se na região do ânus e dos órgãos genitais.”

A passagem integra uma exposição sobre as diferentes manifestações do Prāṇa no corpo.

Notas académicas – A teoria dos cinco principais movimentos do Prāṇa (pañca-prāṇa) desenvolveu-se progressivamente na literatura das Upaniṣads, da Ayurveda e do Yoga. Embora frequentemente traduzido por “energia descendente”, Apāna deve ser compreendido no contexto da fisiologia subtil tradicional e não como uma estrutura anatómica ou fisiológica da medicina moderna. No Haṭha Yoga, a interação entre Prāṇa e Apāna ocupa um lugar central em numerosas técnicas respiratórias e energéticas.

Ver tambémPrāṇa (प्राण) · Vāyu (वायु) · Prāṇāyāma (प्राणायाम) · Bandha (बन्ध) · Kuṇḍalinī (कुण्डलिनी)


Aparigraha – अपरिग्रह – aparigraha

Tradução literal – Não acumulação; não possessividade.

Definição – Aparigraha é o quinto dos cinco Yamas dos Yoga Sūtra. Refere-se à capacidade de evitar o apego excessivo a bens materiais, estatuto, poder ou outras formas de acumulação. O conceito não implica necessariamente pobreza ou renúncia absoluta, mas antes uma relação equilibrada com aquilo que se possui. Nas tradições yogicas, Aparigraha é frequentemente associado à liberdade interior e à redução do apego.

Referências textuais -A formulação clássica encontra-se nos Yoga Sūtra II.30. Mais adiante, Patañjali afirma:

अपरिग्रहस्थैर्ये जन्मकथंतासंबोधः

aparigraha-sthairye janma-kathaṃtā-saṃbodhaḥ

“Quando Aparigraha está firmemente estabelecido, surge o conhecimento das circunstâncias dos nascimentos.”

(Yoga Sūtra II.39)

Notas académicas – Aparigraha possui paralelos importantes com ideais ascéticos presentes no Jainismo e noutras tradições indianas. O conceito tornou-se particularmente relevante em interpretações contemporâneas relacionadas com simplicidade voluntária, consumo consciente e sustentabilidade.

Ver tambémYama (यम) · Ahiṃsā (अहिंसा) · Vairāgya (वैराग्य) · Karma (कर्म) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)


Apropriação cultural

Tradução literal: Apropriação de elementos culturais.

Definição – A apropriação cultural é um conceito utilizado nas Ciências Sociais, na Antropologia, nos Estudos Culturais e nos Estudos Pós-Coloniais para descrever a adoção, utilização ou comercialização de elementos pertencentes a uma determinada cultura por indivíduos ou grupos de outra cultura, frequentemente sem o seu contexto histórico, religioso ou simbólico original. O conceito tornou-se particularmente relevante no estudo das tradições asiáticas, africanas e indígenas, onde práticas religiosas, símbolos, vestuário, música ou conhecimentos tradicionais foram, em diferentes momentos históricos, reinterpretados, comercializados ou transformados em produtos de consumo. No contexto do Yoga, a apropriação cultural constitui um tema amplamente debatido, especialmente em relação à adaptação das tradições indianas às sociedades ocidentais.

Referências históricas – O debate sobre a apropriação cultural intensificou-se a partir das últimas décadas do século XX, acompanhando o desenvolvimento dos Estudos Pós-Coloniais e das discussões sobre património cultural, identidade e relações de poder. No domínio do Yoga, a discussão envolve temas como:

  • A utilização de símbolos religiosos hindus fora do seu contexto original.
  • A comercialização do Yoga como produto de bem-estar.
  • A omissão das suas raízes filosóficas e históricas.
  • A adaptação de práticas tradicionais a contextos contemporâneos.

Este debate ganhou particular visibilidade após a globalização do Yoga durante o século XX.

Notas académicas – Os investigadores não apresentam uma posição consensual sobre o conceito de apropriação cultural. Alguns autores defendem que determinadas formas de adaptação do Yoga ao contexto ocidental podem contribuir para a descontextualização ou banalização de tradições religiosas e filosóficas indianas. Outros investigadores argumentam que o intercâmbio cultural sempre fez parte da história do Yoga e que a sua evolução resulta de processos contínuos de transformação, adaptação e diálogo entre culturas. A investigação académica tende, por isso, a distinguir entre diferentes fenómenos, como:

  • Apropriação cultural.
  • Troca cultural (cultural exchange).
  • Adaptação cultural.
  • Hibridização cultural.

No estudo do Yoga contemporâneo, estas categorias são utilizadas para analisar de forma crítica a circulação global de práticas, conhecimentos e tradições, evitando interpretações excessivamente simplificadoras.

Ver tambémHistória do Yoga · Hinduísmo · Tantra (तन्त्र) · Haṭha Yoga (हठयोग) · Indiologia


Arjuna – अर्जुन – Arjuna

Tradução literal: Claro; brilhante; luminoso.

Definição – Arjuna é um dos principais heróis do Mahābhārata e a figura central da Bhagavad Gītā. Membro dos cinco irmãos Pāṇḍava, é apresentado como um guerreiro excecional, célebre pela sua habilidade no arco e pela sua integridade moral. Na Bhagavad Gītā, Arjuna enfrenta uma profunda crise ética ao aperceber-se de que terá de combater familiares, mestres e amigos. É precisamente esta crise que dá origem ao diálogo filosófico com Kṛṣṇa. Por esse motivo, Arjuna é frequentemente interpretado como símbolo do ser humano confrontado com dilemas morais, existenciais e espirituais.

Referências textuais – Arjuna surge como personagem central do Mahābhārata, particularmente nos episódios relacionados com a guerra de Kurukṣetra.A sua crise inicial é descrita logo no primeiro capítulo da Bhagavad Gītā. Uma passagem célebre encontra-se em Bhagavad Gītā 2.7:

कार्पण्यदोषोपहतस्वभावः

kārpaṇyadoṣopahatasvabhāvaḥ

“A minha natureza encontra-se dominada pela confusão e pela fraqueza.”

Nesta passagem, Arjuna reconhece a sua incapacidade de resolver sozinho o conflito moral que enfrenta.

Notas académicas – Arjuna desempenha uma função narrativa essencial na Bhagavad Gītā. Através das suas dúvidas, perguntas e objeções, o texto introduz os principais ensinamentos filosóficos e espirituais da obra. Os comentadores tradicionais interpretaram frequentemente Arjuna como representação da condição humana diante dos desafios da existência. Na receção moderna da Bhagavad Gītā, Arjuna tornou-se um símbolo universal da procura de orientação ética e espiritual.

Ver tambémKṛṣṇa (कृष्ण) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता) · Dharma (धर्म) · Karma Yoga (कर्मयोग) · Mahābhārata (महाभारत)


Arthaśāstra – अर्थशास्त्र – arthasashtra

Tradução literal: Tratado sobre o Artha; ciência da prosperidade, da política e da administração.

Definição – O Arthaśāstra é um dos mais importantes tratados políticos, económicos e administrativos da Índia antiga, tradicionalmente atribuído a Kauṭilya (कौटिल्य), também conhecido como Cāṇakya (चाणक्य) ou Viṣṇugupta (विष्णुगुप्त). O termo combina:

  • Artha (अर्थ) — objetivo, riqueza, prosperidade, interesse material ou poder político.
  • Śāstra (शास्त्र) — tratado, ciência ou disciplina.

Embora frequentemente descrito como um manual de política e governo, o Arthaśāstra aborda igualmente temas como administração pública, direito, economia, diplomacia, espionagem, estratégia militar e organização do Estado. É considerado uma das principais obras da literatura política da Antiguidade.

Referências textuais – A tradição atribui a autoria da obra a Kauṭilya, conselheiro do imperador Candragupta Maurya (चन्द्रगुप्त मौर्य), fundador do Império Máuria. O Arthaśāstra encontra-se organizado em quinze livros (adhikaraṇas), que tratam, entre outros temas, de:

  • Formação e deveres do governante.
  • Administração do reino.
  • Sistema judicial.
  • Política externa.
  • Estratégia militar.
  • Economia e tributação.

A obra integra, juntamente com o Dharma (धर्म) e o Kāma (काम), um dos principais objetivos tradicionais da vida humana (Puruṣārthas).

Notas académicas – Embora a tradição atribua o texto a Kauṭilya (século IV a.C.), a investigação académica considera que a obra atualmente conhecida resulta de um processo de composição e revisão ao longo de vários séculos. A maioria dos investigadores situa a redação da versão conservada entre os séculos II a.C. e III d.C., incorporando materiais de diferentes épocas. O manuscrito permaneceu desconhecido durante séculos até ser redescoberto em 1905 pelo investigador R. Shamasastry, que publicou a primeira edição crítica em sânscrito e a primeira tradução inglesa. Apesar de não ser uma obra sobre Yoga, o Arthaśāstra constitui uma fonte essencial para compreender o contexto político, económico e social da Índia antiga, permitindo enquadrar historicamente o desenvolvimento das tradições filosóficas e religiosas indianas. A investigação académica considera o Arthaśāstra um dos mais importantes tratados de teoria política da Antiguidade, frequentemente comparado, pela sua influência, a obras como A República de Platão ou O Príncipe de Maquiavel, embora pertença a contextos históricos e intelectuais distintos.

Ver também – Kauṭilya (कौटिल्य) · Cāṇakya (चाणक्य) · Viṣṇugupta (विष्णुगुप्त) · Dharma (धर्म) · Puruṣārtha (पुरुषार्थ) · Kāma (काम) · Hinduísmo · Indiologia


Āsana – आसन – asana, ássana

Tradução literal: Assento; lugar para se sentar; posição sentada e confortável.

DefiniçãoĀsana é um termo sânscrito amplamente utilizado nas tradições do Yoga e que, de forma geral, designa uma postura ou posição corporal. Nos textos mais antigos associados ao Yoga, o termo refere-se sobretudo a uma posição estável e confortável adotada para a meditação, contemplação ou outras práticas espirituais. Ao longo da história, o significado de Āsana expandiu-se progressivamente. Nas tradições do Haṭha Yoga medieval passou a incluir um número crescente de posturas corporais específicas, enquanto no Yoga contemporâneo é frequentemente utilizado para designar qualquer postura física praticada numa aula de Yoga. Embora atualmente o termo seja muitas vezes associado ao exercício físico, os textos tradicionais apresentam os Āsana como parte de um sistema mais amplo de disciplina corporal, respiratória, mental e espiritual.

Referências textuais – O termo āsana encontra-se já na literatura védica com o significado geral de “assento” ou “lugar para se sentar”. Uma das definições clássicas mais influentes encontra-se nos Yoga Sūtra de Patañjali (II.46):

स्थिरसुखमासनम्

sthira-sukham-āsanam

“A postura deve ser estável e confortável.”

Nesta passagem, o termo parece referir-se sobretudo à postura adequada para a meditação e não a um sistema de exercícios físicos.

Notas académicas – A compreensão de Āsana sofreu alterações significativas ao longo da história do Yoga. Nos textos clássicos, o termo refere-se principalmente à postura utilizada para a meditação. A partir do desenvolvimento das tradições do Haṭha Yoga medieval, aproximadamente entre os séculos XI e XVII, começam a surgir descrições de um número crescente de posturas corporais. Obras como a Haṭhapradīpikā, a Gheraṇḍa Saṃhitā e a Śiva Saṃhitā apresentam listas de Āsana e descrevem os seus alegados benefícios físicos, energéticos e espirituais. A investigação académica contemporânea demonstrou que muitas das posturas atualmente praticadas em escolas modernas de Yoga resultam de processos históricos complexos ocorridos entre os séculos XIX e XX. Estes processos envolveram a interação entre tradições indianas, cultura física, ginástica europeia, nacionalismo indiano e movimentos de reforma religiosa. Por esta razão, existe atualmente consenso académico de que nem todas as posturas ensinadas no Yoga moderno podem ser consideradas práticas transmitidas de forma inalterada desde a Antiguidade.

Ver tambémPrāṇāyāma (प्राणायाम) · Dhyāna (ध्यान) · Samādhi (समाधि) · Haṭha Yoga (हठयोग) · Mudrā (मुद्रा) · Bandha (बन्ध) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Patañjali (पतञ्जलि)


Ascetismo

Tradução literal: Do grego áskēsis (ἄσκησις), “exercício”, “treino” ou “disciplina”.

Definição – Ascetismo designa um conjunto de práticas de autodisciplina, renúncia e controlo dos desejos, desenvolvidas com o objetivo de promover o aperfeiçoamento espiritual, moral ou religioso. Embora o termo tenha origem na Grécia Antiga, é amplamente utilizado pelos investigadores para descrever práticas presentes em numerosas tradições religiosas, incluindo o Hinduísmo, o Budismo, o Jainismo e diversas correntes do Yoga. Na tradição indiana, o ascetismo pode incluir práticas como:

  • Vida eremítica ou monástica.
  • Renúncia aos bens materiais.
  • Celibato (Brahmacarya).
  • Jejum.
  • Meditação.
  • Controlo da respiração.
  • Austeridades (Tapas).

Referências textuais – O ascetismo desempenha um papel importante na história das tradições śramaṇas (श्रमण), que floresceram na Índia durante o primeiro milénio a.C., incluindo o Budismo e o Jainismo. Também está presente em numerosas tradições do Hinduísmo, sendo frequentemente associado aos:

  • Ṛṣis (ऋषि)
  • Munis (मुनि)
  • Yogis (योगी)
  • Sannyāsins (संन्यासिन्)

Nos textos do Yoga, o ascetismo encontra-se frequentemente relacionado com o conceito de Tapas (तपस्), uma das práticas fundamentais descritas por Patañjali (पतञ्जलि) nos Yoga Sūtra (योगसूत्र).

Notas académicas – Os investigadores sublinham que o ascetismo indiano não constitui uma tradição única, mas um conjunto diversificado de práticas e ideais que variam conforme a época, a escola filosófica e a tradição religiosa. Ao contrário da interpretação comum que associa o ascetismo apenas à mortificação do corpo, muitas correntes do Yoga entendem estas práticas como instrumentos destinados ao desenvolvimento da concentração, da disciplina mental e da libertação espiritual.

A investigação contemporânea destaca igualmente que o Yoga clássico não defende formas extremas de ascetismo. Nos Yoga Sūtra, a disciplina ascética integra um caminho mais amplo de transformação ética, mental e contemplativa.

O estudo do ascetismo é considerado fundamental para compreender o surgimento das tradições do Yoga, do Budismo e do Jainismo, bem como o contexto religioso da Índia antiga.

Ver tambémTapas (तपस्) · Brahmacarya (ब्रह्मचर्य) · Śramaṇa (श्रमण) · Yoga (योग) · Budismo · Jainismo · Sannyāsa (संन्यास) · Yogi (योगी) · Patañjali (पतञ्जलि) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)

Asmitā – अस्मिता – asmita

Tradução literal: Eu-sou; sentido de individualidade; identificação egoica.

Definição – Asmitā é um dos cinco Kleśas (क्लेश) descritos por Patañjali nos Yoga Sūtra. O termo refere-se à identificação errónea entre o observador (Puruṣa) e os instrumentos da experiência, especialmente a mente, o intelecto e o ego. Em termos simples, Asmitā corresponde à tendência de confundir aquilo que somos com aquilo que pensamos, sentimos, fazemos ou possuímos. No contexto do Yoga Clássico, não significa apenas orgulho ou vaidade. Refere-se sobretudo ao processo pelo qual a consciência pura se identifica com os conteúdos da mente e passa a considerar-se uma entidade individual separada.

Referências textuais – Patañjali define Asmitā em Yoga Sūtra II.6:

दृग्दर्शनशक्त्योरेकात्मतेवास्मिता

dṛg-darśana-śaktyor ekātmatā iva asmitā

“Asmitā é a aparente identificação entre o poder do observador e o poder da observação.”

Esta definição constitui uma das formulações centrais da psicologia do Yoga Clássico.

Notas académicas – Nos Yoga Sūtra, Asmitā é o segundo dos cinco Kleśas:

  • Avidyā (अविद्या) — ignorância.
  • Asmitā (अस्मिता) — identificação egoica.
  • Rāga (राग) — apego.
  • Dveṣa (द्वेष) — aversão.
  • Abhiniveśa (अभिनिवेश) — apego à existência.

Segundo a tradição comentarial, Asmitā surge como consequência de Avidyā. Ao ignorar a distinção entre consciência pura (Puruṣa) e mente (Citta), o indivíduo desenvolve um sentido de identidade baseado nos processos mentais. A investigação académica observa que Asmitā não corresponde exatamente ao conceito moderno de “ego” utilizado na psicologia ocidental, embora existam alguns pontos de contacto. O seu significado deve ser compreendido no contexto metafísico e soteriológico do Sāṃkhya e do Yoga Clássico.

Ver tambémKleśa (क्लेश) · Avidyā (अविद्या) · Abhiniveśa (अभिनिवेश) · Puruṣa (पुरुष) · Citta (चित्त) · Yoga Sūtra (योगसूत्र)


Aṣṭāṅga Yoga – अष्टाङ्गयोग- ashtanga yoga, astanga yoga, astanga-yoga

Tradução literal: Yoga dos oito membros; Yoga dos oito componentes.

Definição – Aṣṭāṅga Yoga é o sistema de prática apresentado por Patañjali (पतञ्जलि) nos Yoga Sūtra (योगसूत्र). O termo combina:

  • aṣṭa (अष्ट) — oito.
  • aṅga (अङ्ग) — membro, componente ou parte.
  • yoga (योग) — yoga.

O sistema descreve um caminho composto por oito componentes interligados destinados ao desenvolvimento ético, mental e contemplativo do praticante. Os oito membros são:

  • Yama (यम) — princípios éticos.
  • Niyama (नियम) — observâncias pessoais.
  • Āsana (आसन) — postura.
  • Prāṇāyāma (प्राणायाम) — regulação da respiração.
  • Pratyāhāra (प्रत्याहार) — retração dos sentidos.
  • Dhāraṇā (धारणा) — concentração.
  • Dhyāna (ध्यान) — meditação.
  • Samādhi (समाधि) — absorção contemplativa.

Referências textuais – A enumeração clássica encontra-se nos Yoga Sūtra II.29:

यमनियमासनप्राणायामप्रत्याहारधारणाध्यानसमाधयोऽष्टावङ्गानि

yama-niyamāsana-prāṇāyāma-pratyāhāra-dhāraṇā-dhyāna-samādhayo’ṣṭāv aṅgāni

“Yama, Niyama, Āsana, Prāṇāyāma, Pratyāhāra, Dhāraṇā, Dhyāna e Samādhi são os oito membros.”

Notas académicas – Aṣṭāṅga Yoga constitui um dos modelos mais influentes da história do Yoga. Embora atualmente o termo “Ashtanga Yoga” seja frequentemente associado ao método moderno desenvolvido por K. Pattabhi Jois, nos contextos académicos e históricos a expressão refere-se originalmente ao sistema apresentado por Patañjali. Os investigadores académicos observam que os oito membros não devem ser entendidos como etapas rigidamente sequenciais, mas como componentes complementares de um processo integrado de transformação pessoal e contemplativa. A tradição posterior do Yoga exerceu diversas interpretações sobre a forma de compreender e aplicar estes oito membros, tornando o Aṣṭāṅga Yoga uma das estruturas mais influentes da história das tradições yogicas.

Ver tambémPatañjali (पतञ्जलि) · Yoga Sūtra (योगसूत्र) · Yama (यम) · Niyama (नियम) · Āsana (आसन) · Prāṇāyāma (प्राणायाम) · Pratyāhāra (प्रत्याहार) · Dhāraṇā (धारणा) · Dhyāna (ध्यान) · Samādhi (समाधि)


Ātman – आत्मन् – atman, atma

Tradução literal: Si mesmo; eu; princípio interior.

DefiniçãoĀtman é um dos conceitos centrais das tradições filosóficas da Índia. De forma geral, refere-se à natureza mais profunda do ser humano, distinta do corpo, das emoções, dos pensamentos e das experiências transitórias. Nas Upaniṣads, Ātman é frequentemente apresentado como a realidade interior que permanece para além das mudanças da existência. Dependendo da escola filosófica considerada, pode ser entendido como a consciência individual, o verdadeiro eu ou a própria realidade absoluta. Embora seja frequentemente traduzido por “alma”, esta tradução não é inteiramente satisfatória, uma vez que o conceito possui características distintas das conceções ocidentais de alma.

Referências textuais – O termo encontra-se já nos Vedas, mas o seu desenvolvimento filosófico ocorre sobretudo nas principais Upaniṣads. Uma das passagens mais conhecidas surge na Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (1.4.10):

अहं ब्रह्मास्मि

ahaṃ brahmāsmi

“Eu sou Brahman.”

Esta afirmação tornou-se uma das expressões fundamentais do pensamento vedântico, sendo posteriormente conhecida como um dos mahāvākya (“grandes enunciados”) das Upaniṣads.

Notas académicas – A interpretação de Ātman varia significativamente entre as diferentes escolas filosóficas indianas. No Advaita Vedānta, associado a Ādi Śaṅkarācārya, Ātman é considerado idêntico a Brahman, a realidade absoluta. Outras escolas vedânticas apresentam interpretações diferentes acerca da relação entre o indivíduo e o absoluto. Por sua vez, as tradições budistas desenvolveram a doutrina do anātman (“não-eu”), rejeitando a existência de um princípio permanente equivalente ao Ātman das Upaniṣads. O debate entre as conceções de Ātman e Anātman constitui um dos temas centrais da história da filosofia indiana.

Ver tambémBrahman (ब्रह्मन्) · Mokṣa (मोक्ष) · Vedānta (वेदान्त) · Upaniṣad (उपनिषद्) · Puruṣa (पुरुष)


Avatāra – अवतार – avatara, avatar

Tradução literal: Descida; manifestação.

Definição – Avatāra designa a manifestação de uma divindade no mundo. O conceito é particularmente importante nas tradições vaiṣṇavas, onde Viṣṇu se manifesta sob diferentes formas para restaurar o Dharma quando este entra em declínio. Os avatāras não são geralmente considerados simples seres humanos extraordinários, mas manifestações divinas com funções específicas na preservação da ordem cósmica. Entre os avatāras mais conhecidos encontram-se:

  • Matsya (मत्स्य)
  • Kūrma (कूर्म)
  • Varāha (वराह)
  • Narasiṃha (नरसिंह)
  • Vāmana (वामन)
  • Paraśurāma (परशुराम)
  • Rāma (राम)
  • Kṛṣṇa (कृष्ण)
  • Buddha (बुद्ध) (em algumas tradições)
  • Kalki (कल्कि)

Referências textuais – Uma das passagens clássicas encontra-se na Bhagavad Gītā (4.8):

परित्राणाय साधूनां विनाशाय च दुष्कृताम्

paritrāṇāya sādhūnāṃ vināśāya ca duṣkṛtām

“Para proteger os justos e destruir os malfeitores.”

A passagem integra a explicação de Kṛṣṇa sobre a razão das suas manifestações no mundo.

Notas académicas – A doutrina dos avatāras desenvolveu-se gradualmente ao longo da história do Hinduísmo. Os Purāṇas desempenharam um papel particularmente importante na sistematização das listas de avatāras de Viṣṇu. O conceito influenciou profundamente a teologia, a arte e a devoção hindu.

Ver tambémViṣṇu (विष्णु) · Kṛṣṇa (कृष्ण) · Rāma (राम) · Dharma (धर्म) · Bhagavad Gītā (भगवद्गीता)


Avidyā – अविद्या – avidya

Tradução literal: Ignorância; ausência de conhecimento.

DefiniçãoAvidyā designa a ignorância fundamental acerca da verdadeira natureza da realidade. Nas tradições do Yoga e da filosofia indiana, não corresponde simplesmente à falta de informação ou instrução, mas a uma compreensão incorreta do mundo e de si mesmo. Esta ignorância conduz à identificação com aquilo que é transitório, gerando sofrimento, apego e perpetuação do ciclo de renascimentos.

Referências textuais – O conceito encontra-se em diversas Upaniṣads e adquire particular importância nos Yoga Sūtra. Nos Yoga Sūtra II.5, Patañjali define Avidyā da seguinte forma:

अनित्याशुचिदुःखानात्मसु नित्यशुचिसुखात्मख्यातिरविद्या

anityāśuci-duḥkhānātmasu nitya-śuci-sukhātma-khyātir avidyā

“A ignorância consiste em tomar o impermanente por permanente, o impuro por puro, o sofrimento por felicidade e o não-eu por eu.”

“A ignorância consiste em tomar o impermanente por permanente, o impuro por puro, o sofrimento por felicidade e o não-eu por eu.”

Notas académicas – Nos Yoga Sūtra, Avidyā é considerada a raiz dos restantes kleśas (aflições mentais). No Advaita Vedānta, refere-se à ignorância que impede o reconhecimento da identidade entre Ātman e Brahman. Embora as diferentes escolas utilizem terminologias próprias, existe um amplo consenso quanto à importância da superação da ignorância como elemento essencial do processo de libertação.

Ver tambémKleśa (क्लेश) · Ātman (आत्मन्) · Brahman (ब्रह्मन्) · Mokṣa (मोक्ष) · Samādhi (समाधि)


Āyurveda – आयुर्वेद -Ayurveda, Aiurveda

Tradução literal: Ciência da vida; conhecimento da longevidade.

Definição – Āyurveda é um sistema tradicional de medicina desenvolvido no subcontinente indiano. A palavra resulta da combinação de:

  • Āyus (आयुस्) — vida.
  • Veda (वेद) — conhecimento ou ciência.

O objetivo da Ayurveda consiste na preservação da saúde, na prevenção da doença e na promoção do equilíbrio físico, mental e espiritual. Os textos ayurvédicos clássicos abordam temas como alimentação, estilo de vida, diagnóstico, farmacologia, cirurgia, ética médica e saúde preventiva.

Referências textuais – As origens da Ayurveda remontam à Antiguidade indiana, embora os seus textos fundamentais tenham sido compostos durante os primeiros séculos da Era Comum. Uma definição clássica encontra-se na Caraka Saṃhitā (Sūtrasthāna 1.41):

हिताहितं सुखं दुःखमायुस्तस्य हिताहितम्

hitāhitaṃ sukhaṃ duḥkham āyus tasya hitāhitam

“Ayurveda trata daquilo que é benéfico ou prejudicial à vida, da felicidade e do sofrimento.”

Esta passagem ilustra a visão abrangente da saúde presente na tradição ayurvédica.

Notas académicas – A Ayurveda desenvolveu-se como um sistema médico complexo e historicamente influente. Entre os seus textos mais importantes encontram-se:

  • Caraka Saṃhitā (चरकसंहिता)
  • Suśruta Saṃhitā (सुश्रुतसंहिता)
  • Aṣṭāṅga Hṛdayam (अष्टाङ्गहृदयम्)

Os conceitos de doṣaagnidhātu e prakṛti desempenham um papel central na teoria ayurvédica. Embora continue amplamente praticada no Sul da Ásia, a Ayurveda deve ser compreendida dentro do seu contexto histórico, cultural e médico específico.

Ver tambémPrāṇa (प्राण) · Guṇa (गुण) · Yoga (योग) · Vedas (वेद) · Prakṛti (प्रकृति)


Saṃsāra – Centro de Estudos do Yoga