Ashoka

Ashoka

Título original: Ashoka

Subtítulo: Portrait of a Philosopher King

Autor: Patrick Livelle

Ano da primeira edição: 2024

Editora da primeira edição: Yale University Press

Local da primeira edição: New Haven, Estados Unidos

Idioma original: Inglês

Existe edição em língua portuguesa? Não

Resumo

Ashoka: Portrait of a Philosopher King é uma biografia histórica do imperador Aśoka, governante da dinastia Maurya que exerceu o poder aproximadamente entre 268 e 232 a.C. Patrick Olivelle procura reconstruir a personalidade política, religiosa e intelectual do soberano através das fontes mais próximas do seu reinado, sobretudo as inscrições que Aśoka mandou gravar em rochas, pilares e outros monumentos distribuídos por diferentes regiões do seu império.

Aśoka foi neto de Candragupta Maurya, fundador do império, e filho de Bindusāra. O império Maurya constituiu a mais extensa formação política conhecida da Índia antiga antes da época moderna, abrangendo grande parte do subcontinente e estendendo-se até regiões do atual Afeganistão. A administração de um território tão vasto exigia sistemas de comunicação, funcionários, centros regionais e mecanismos destinados a tornar visível a autoridade imperial.

A obra não se limita a descrever Aśoka como conquistador, administrador ou patrono do budismo. Olivelle propõe compreendê-lo como um rei-filósofo: um governante que procurou formular uma conceção própria de vida moral e transformar essa reflexão num programa de governo. O termo “rei-filósofo” não significa que Aśoka tenha pertencido a uma escola filosófica sistemática comparável às tradições indianas posteriores. Refere-se à tentativa de pensar criticamente o exercício do poder, a conduta humana e a responsabilidade moral do soberano.

O acontecimento mais conhecido do seu reinado foi a conquista de Kaliṅga, região situada aproximadamente no atual estado de Odisha. Segundo o décimo terceiro édito maior em rocha, a campanha provocou um número muito elevado de mortos, deportados e pessoas afetadas pela violência. Aśoka declara ter sentido profundo pesar pelas consequências da guerra e afirma preferir uma “conquista pelo dhamma” à conquista militar.

Olivelle trata esta passagem com prudência. A tradição moderna descreve frequentemente Aśoka como um conquistador cruel que, imediatamente depois da guerra de Kaliṅga, se converteu ao budismo e se tornou pacifista. As inscrições não confirmam integralmente esta narrativa linear. A relação de Aśoka com o budismo desenvolveu-se ao longo do tempo, e o seu arrependimento não conduziu ao abandono do exército, do sistema penal ou da autoridade imperial.

Um dos conceitos centrais do livro é o dhamma, forma prácrita correspondente ao sânscrito dharma. Nas inscrições de Aśoka, o termo não designa simplesmente “budismo”, “lei” ou “religião”. Refere-se a um programa ético que inclui respeito pelos pais e pelos mais velhos, generosidade, moderação, autocontrolo, bom tratamento dos servidores, cuidado com os seres vivos e convivência entre diferentes comunidades religiosas.

Este dhamma possui afinidades com valores budistas, mas foi formulado de maneira suficientemente ampla para poder ser apresentado a súbditos pertencentes a diferentes tradições. Aśoka menciona brâmanes e śramaṇas, budistas, Ājīvikas e outros grupos religiosos. O soberano procura promover o respeito entre comunidades e condena a exaltação da própria tradição quando acompanhada pelo desprezo das restantes.

A política moral não permaneceu confinada a proclamações abstratas. Aśoka afirma ter criado funcionários encarregados de assuntos relacionados com o dhamma, os chamados dhamma-mahāmātras. As inscrições mencionam ainda medidas relacionadas com assistência médica, plantação de árvores, escavação de poços, construção de locais de repouso e limitação da matança de animais.

O alcance e a aplicação efetiva destas medidas não podem ser determinados apenas pelos éditos. As inscrições são declarações produzidas pela autoridade imperial e apresentam a imagem que o soberano desejava comunicar. Não constituem relatórios administrativos independentes nem demonstram que todas as políticas tenham sido aplicadas uniformemente em todo o império.

O livro presta particular atenção à forma como Aśoka utilizou a escrita, a arte e a arquitetura. Os pilares monolíticos, os capitéis com animais, as inscrições e os monumentos associados a lugares budistas criaram uma nova linguagem pública da soberania. A palavra do rei podia ser fixada em pedra e transmitida para além da presença física da corte.

As inscrições foram redigidas principalmente em variedades do indo-ariano médio, muitas vezes designadas genericamente como prácrito, e gravadas sobretudo nas escritas brāhmī e kharoṣṭhī. Nas regiões noroeste do império existem também inscrições em grego e aramaico. Não há, portanto, um único “texto original em sânscrito” subjacente ao livro.

Em numerosas inscrições, o soberano apresenta-se através dos títulos Devānaṃpiya e Piyadasi, aproximadamente “Amado dos Deuses” e “Aquele que olha com benevolência”. A identificação deste soberano com o Aśoka das tradições literárias foi estabelecida gradualmente pela investigação moderna, através da comparação entre inscrições e fontes budistas.

Olivelle distingue cuidadosamente o Aśoka histórico do Aśoka das narrativas posteriores. Textos budistas como o Aśokāvadāna, o Dīpavaṃsa e o Mahāvaṃsa preservam tradições importantes sobre o imperador, a conversão, a construção de monumentos e o apoio à comunidade budista. Contudo, foram compostos posteriormente e respondem a interesses religiosos e regionais próprios.

Em vez de aceitar essas narrativas como biografia direta, Olivelle compara-as com as inscrições, a arqueologia e o contexto político do período Maurya. Desta forma, procura recuperar um Aśoka historicamente plausível sem ignorar a importância das diferentes memórias religiosas construídas em torno do soberano.

Porque é importante

A obra é importante porque apresenta uma das mais recentes interpretações académicas de Aśoka baseada no conjunto das fontes epigráficas e arqueológicas. Olivelle procura evitar tanto a idealização do imperador como a redução da sua política moral a simples propaganda.

Aśoka ocupa um lugar singular na história da Índia porque é um dos primeiros governantes sul-asiáticos cuja voz pode ser conhecida através de documentos produzidos durante o seu próprio reinado. Embora as inscrições tenham sido preparadas por funcionários e adaptadas a diferentes regiões, apresentam-se explicitamente como comunicações do soberano.

O livro demonstra que os éditos não são apenas fontes para a história do budismo. Contêm reflexões sobre governo, justiça, punição, violência, bem-estar, relações familiares, administração e convivência religiosa. Permitem estudar a tentativa de colocar princípios morais no centro da comunicação política imperial.

A caracterização de Aśoka como rei-filósofo também questiona a separação moderna entre pensamento e governo. Aśoka não escreveu um tratado filosófico convencional, mas utilizou as inscrições para refletir sobre os limites da coerção, a dificuldade de mudar o comportamento humano e a responsabilidade do soberano pelo bem-estar dos súbditos.

A importância histórica da obra estende-se ao estudo da comunicação. A distribuição de inscrições por um território vasto, a utilização de diferentes línguas e escritas e a adaptação das mensagens aos contextos regionais mostram uma tentativa sem precedentes de dirigir uma mensagem moral a populações diversas.

Aśoka tornou-se ainda uma figura central na construção da identidade da Índia contemporânea. O capitel dos leões de Sārnāth foi adotado como emblema oficial da República da Índia, e a roda associada aos monumentos de Aśoka ocupa o centro da bandeira nacional. Esta receção moderna transformou o soberano num símbolo de unidade, não violência, tolerância e governo ético.

Olivelle mostra, contudo, que o Aśoka histórico não corresponde exatamente a esse símbolo nacional. O imperador continuou a exercer poder coercivo, manteve punições e governou através de uma estrutura hierárquica. O valor histórico da sua experiência política não exige que seja transformado num governante moderno ou num defensor absoluto da não violência.

Interesse para o estudo do Yoga

A relação de Ashoka: Portrait of a Philosopher King com os Estudos do Yoga é indireta, mas importante para compreender o ambiente religioso e ascético da Índia antiga. A obra não é um tratado de Yoga e não apresenta técnicas de āsana, prāṇāyāma ou meditação.

Aśoka governou num período de intensa atividade das tradições de śramaṇas, categoria que incluía diferentes comunidades de renunciantes, mendicantes e especialistas religiosos. Budistas, jainistas, Ājīvikas e outros grupos participavam num ambiente de debate sobre ação, renascimento, libertação, disciplina e conhecimento.

Este universo ascético é essencial para a história das práticas que posteriormente seriam identificadas como Yoga. O autocontrolo, a moderação, a disciplina da mente, a renúncia e a preocupação com os resultados das ações circulavam entre várias tradições e não pertenciam exclusivamente a uma única escola.

As inscrições de Aśoka utilizam conceitos como autocontrolo, pureza, compaixão, moderação e domínio das paixões. Estes valores podem ser comparados com disciplinas éticas presentes em fontes yóguicas posteriores, mas a comparação não deve ser convertida numa relação direta de dependência. Os éditos não ensinam o Yoga de Patañjali nem demonstram que o sistema dos oito membros já existisse no século III a.C.

A preocupação com a redução da violência também possui relevância para a história de ahiṃsā. Aśoka limita determinadas formas de matança, critica a violência da conquista e promove o cuidado com os seres vivos. Contudo, não institui uma proibição absoluta de matar e conserva mecanismos de punição estatal. A sua política não coincide integralmente com a formulação de ahiṃsā encontrada no jainismo ou nos yamas do Yoga posterior.

O apoio do chefe de Estado a diferentes comunidades de renunciantes também ajuda a compreender as condições sociais do ascetismo. Mosteiros, locais de peregrinação e comunidades religiosas dependiam de patronato, doações e proteção política. A história das práticas contemplativas não pode ser separada dessas estruturas económicas e institucionais.

Para a Saṃsāra, o livro é relevante como fonte sobre o contexto religioso, político e moral em que as tradições ascéticas da Índia antiga se desenvolveram. Deve ser apresentado como obra contextual para os Estudos do Yoga, e não como livro dedicado diretamente à história técnica do Yoga.

Curiosidade bibliográfica

A forma “Ashoka” utilizada no título segue uma transliteração simplificada destinada ao público geral. A forma académica normalizada em IAST é Aśoka. O nome significa aproximadamente “sem tristeza” ou “livre de sofrimento”, sendo formado pelo prefixo negativo a- e por śoka, “tristeza” ou “dor”.

A grafia अशोक em devanāgarī não reproduz a escrita utilizada nas inscrições do século III a.C. Os éditos foram gravados sobretudo em brāhmī e kharoṣṭhī, além de existirem versões em grego e aramaico. A escrita devanāgarī desenvolveu-se muitos séculos depois.

Durante um longo período, os investigadores conheciam nas inscrições um rei chamado Devānaṃpiya Piyadasi, mas não possuíam confirmação imediata da sua identidade. A descoberta de inscrições que associavam estes títulos ao nome Aśoka permitiu relacionar os éditos com o imperador preservado nas crónicas budistas.

Aśoka não publicou um livro chamado Edicts of Ashoka. Esta designação moderna reúne inscrições gravadas em diferentes épocas, lugares, línguas e suportes. Os chamados éditos maiores e menores em rocha, éditos em pilares e inscrições particulares não constituem necessariamente uma obra unitária organizada pelo soberano como um livro.

Nota académica

A reconstrução da vida de Aśoka permanece limitada pela natureza das fontes. As inscrições são contemporâneas do seu reinado, mas foram produzidas pela autoridade imperial e apresentam uma imagem deliberadamente construída do soberano. As narrativas budistas oferecem mais pormenores biográficos, mas foram compostas posteriormente e incluem materiais lendários.

A data exata do início do reinado continua sujeita a pequenas variações entre investigadores. A cronologia aproximada de 268 a 232 a.C. é amplamente utilizada, mas não deve ser apresentada como absolutamente documentada em todos os seus pormenores.

A relação entre a guerra de Kaliṅga e a adesão de Aśoka ao budismo também exige prudência. O décimo terceiro édito maior expressa arrependimento pelas consequências da guerra, mas não narra uma conversão súbita. Outros testemunhos sugerem que a sua aproximação ao budismo foi um processo desenvolvido ao longo do tempo.

O dhamma de Aśoka não deve ser identificado simplesmente com a doutrina budista. Embora o soberano se apresente como discípulo leigo do Buda e apoie instituições budistas, a linguagem dos principais éditos procura construir uma ética pública aplicável a comunidades religiosas diferentes.

A ideia de tolerância também deve ser utilizada com cuidado. Aśoka promove respeito entre tradições e critica o sectarismo verbal, mas continua a governar de maneira paternalista e hierárquica. O seu ecumenismo não corresponde exatamente às conceções contemporâneas de liberdade religiosa ou igualdade jurídica.

Por fim, a designação “rei-filósofo” constitui a interpretação central de Patrick Olivelle, não um título utilizado pelo próprio Aśoka. É uma categoria analítica que procura destacar a originalidade moral e intelectual da sua conceção de governo. Outros investigadores podem atribuir maior peso à propaganda imperial, ao patronato budista ou às necessidades administrativas do império Maurya.

Disponibilidade

Edições disponíveis

Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga