Título original: Devī Māhātmyam: The Glorification of the Great Goddess
Subtítulo: The Glorification of the Great Goddess
Autor: Vasudeva S. Agrawala
Ano da primeira edição: 1963
Editora da primeira edição: All-India Kashiraj Trust
Local da primeira edição: Varanasi, Índia
Idioma original: Inglês
Existe edição em língua portuguesa? Não
O Devīmāhātmya apresenta a Deusa como realidade suprema, simultaneamente transcendente e presente no universo. Ela não é apenas consorte de uma divindade masculina: constitui o poder que cria, preserva e transforma o cosmos, manifestando-se em diferentes formas conforme as necessidades dos deuses e do mundo.
A narrativa encontra-se enquadrada pela história do rei Suratha e do mercador Samādhi. Ambos perderam a posição social e os bens, mas continuam emocionalmente presos àquilo que lhes causou sofrimento. Procuram o sábio Medhas, que explica esta condição através de Mahāmāyā, o poder da Deusa que envolve os seres na experiência do mundo. O sábio relata então as três grandes manifestações da Deusa.
No primeiro episódio, a Deusa manifesta-se como o poder associado a Viṣṇu e permite a destruição dos demónios Madhu e Kaiṭabha. No segundo, os deuses combinam as suas energias para produzir uma forma divina que derrota Mahiṣāsura, o demónio-búfalo. Esta vitória tornou-se uma das imagens mais célebres da iconografia de Durgā.
No terceiro ciclo narrativo, a Deusa combate Śumbha e Niśumbha e enfrenta diferentes exércitos demoníacos. Entre os adversários encontra-se Raktabīja, de cujo sangue surgem novos demónios sempre que uma gota toca o solo. A Deusa manifesta formas terríveis, incluindo Kālī ou Cāmuṇḍā, para impedir a multiplicação do inimigo.
As diferentes deusas que aparecem durante o combate não são apresentadas como poderes absolutamente independentes. No momento culminante, regressam à Deusa suprema, que afirma a unidade subjacente às suas múltiplas manifestações.
Agrawala interpreta estas narrativas através do seu método característico, relacionando mito, simbolismo, cosmologia e experiência religiosa. Os combates não são tratados apenas como episódios épicos: representam conflitos entre ordem e desordem, consciência e obscurecimento, unidade e fragmentação.
O Devīmāhātmya representa um momento decisivo na formação do Śāktismo. Textos anteriores conheciam numerosas deusas, mas esta obra articula de maneira particularmente clara a ideia de que todas as formas femininas divinas constituem manifestações de uma única Deusa suprema.
A obra permanece viva na prática religiosa. É recitada em templos e contextos domésticos, especialmente durante o festival de Navarātri. Os seus versos também desempenham funções litúrgicas, protetoras e devocionais.
O estudo de Agrawala é importante por apresentar o texto a leitores modernos através de uma interpretação indiana da sua linguagem simbólica. A obra procura integrar filologia, mitologia, religião e história da arte, áreas que o investigador considerava inseparáveis.
A relação com o Yoga é relevante, mas não direta. O Devīmāhātmya não ensina o sistema dos oito membros de Patañjali nem apresenta sequências de āsana ou técnicas detalhadas de prāṇāyāma.
A sua importância encontra-se sobretudo na história das tradições śāktas e tântricas, nas quais a Deusa é compreendida como śakti, o poder da consciência e da manifestação. Estas tradições desenvolveram formas próprias de Yoga baseadas em mantra, visualização, contemplação da divindade, culto ritual e transformação da identidade do praticante.
O enquadramento narrativo também possui interesse psicológico e soteriológico. Suratha e Samādhi reconhecem o sofrimento causado pelo apego, mas não conseguem libertar-se apenas através do conhecimento racional. A explicação de Mahāmāyā procura mostrar como o poder que obscurece a compreensão pode ser igualmente o poder que concede conhecimento e libertação.
Para a Saṃsāra, a obra é relevante como fonte sobre a teologia da Deusa e o contexto religioso do Yoga śākta, não como manual autónomo de prática yóguica.
Embora seja frequentemente chamado Durgāsaptaśatī, “Os setecentos versos de Durgā”, a contagem tradicional não corresponde necessariamente a setecentas estrofes métricas independentes. Determinadas frases ou partes de versos são contabilizadas como unidades mântricas para atingir o número ritual de setecentos.
A forma Devī Māhātmyam encontrada em alguns títulos modernos combina devī, “Deusa”, com māhātmyam, “grandeza” ou “glorificação”. Em sânscrito normalizado, o título também pode aparecer na forma composta Devīmāhātmya.
As três secções são frequentemente relacionadas com Mahākālī, Mahālakṣmī e Mahāsarasvatī. Esta organização é importante na tradição ritual e comentarial, mas não deve ser projetada indiscriminadamente sobre todas as fases históricas do texto.
A interpretação simbólica de Agrawala constitui uma leitura moderna e historicamente situada. Nem todos os elementos narrativos possuem um significado filosófico único, e as interpretações rituais, devocionais, políticas e literárias podem conduzir a conclusões diferentes.
A edição deve ser utilizada em conjunto com traduções críticas e investigação mais recente sobre os Purāṇas, o Śāktismo e as tradições tântricas.
Saṃsāra – Centro de Estudos de Yoga
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