Instrutora de Yoga loira, com coque, argolas douradas e roupa preta, sorri entre inúmeros certificados e um balão dourado com a palavra «EGO».
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Mudanças na Yoga Alliance: o ego fica, os números vão embora

As mudanças na Yoga Alliance previstas para janeiro de 2027 estão a provocar discussão entre professores e escolas de Yoga a nível mundial. As conhecidas siglas acompanhadas de números vão mudar. E quando se mexe nas letras que um professor coloca depois do nome, a serenidade pode precisar de alguns minutos de respiração abdominal.

Compreende-se. Investimos dinheiro, estudamos, fazemos avaliações e acumulamos horas de formação. Depois chega um anúncio a explicar que aquilo que aprendemos a apresentar como uma distinção importante vai receber outra embalagem.

O desapego é muito bonito. Sobretudo quando é o outro que tem de o praticar.

O que muda na Yoga Alliance em 2027?

Segundo a informação oficial, as designações RYT 200 e RYT 500 passam a RYT. As E-RYT 200 e E-RYT 500 convergem em E-RYT. Para as escolas, as categorias RYS 200, RYS 300 e RYS 500 dão lugar a uma credencial RYS, com os programas identificados através de designações de especialidade. As cargas horárias continuam a ter relevância nos requisitos: desaparecem os números das designações principais, não as formações realizadas.

Para quem investiu numa formação complementar, a pergunta é compreensível: «Então fiz mais 300 horas e agora o número desaparece?»

A formação continua no percurso da pessoa. Mas a distinção deixa de estar imediatamente visível na mesma sigla.

É legítimo perguntar se esta simplificação ajuda o público a compreender as qualificações ou se torna menos evidente uma diferença que a própria organização ajudou a valorizar.

A Yoga Alliance ajudou a organizar as formações de Yoga

Antes de atirarmos o certificado à fogueira, convém reconhecer o contributo da Yoga Alliance.

Constituída em 1999, ajudou a estabelecer padrões comuns e um registo voluntário de professores e escolas. Não inventou a formação de professores de Yoga, mas tornou-se uma referência internacional influente.

O percurso de 200 horas, seguido de uma formação complementar de 300 horas, trouxe uma linguagem partilhada a um mercado muito heterogéneo. Os seus padrões estabelecem requisitos relativos ao currículo, à duração e às qualificações dos formadores.

Isso merece reconhecimento. Entre «estudei durante anos» e «tive uma revelação na terça-feira e abro uma formação na sexta», algum critério faz falta.

Afirmar que, sem ela, tudo seria a república das bananas apagaria o trabalho de outras instituições e tradições. Mas ajudou a organizar um setor onde a palavra «tradicional» pode, por vezes, servir para dispensar explicações.

Há, contudo, uma diferença essencial: um registo privado não equivale a uma regulamentação pública da profissão. A Yoga Alliance não é um ministério mundial do Yoga, mesmo quando o mercado trata o seu logótipo como um passaporte espiritual.

Certificação de Yoga ou páginas amarelas com anuidade?

Depois há o dinheiro. Porque até o desapego tem despesas administrativas.

A Yoga Alliance apresenta-se como uma organização sem fins lucrativos. Isso não significa ausência de receitas, salários ou estratégia comercial. Na informação publicada à data desta consulta, a candidatura de uma escola custa 400 dólares e a anuidade é de 240 dólares por credencial. Mais as dos formadores que nela lecionam os “cursos” de Yoga preço de ovos de Ouro.

É legítimo perguntar o que se recebe em troca: critérios de formação, apoio, visibilidade, acompanhamento? E como se verifica a qualidade depois de atribuído o reconhecimento?

A organização apresenta recursos profissionais e iniciativas de apoio à comunidade (americana) , pelo que seria redutor descrevê-la apenas como um diretório. A questão é perceber se os serviços justificam o custo para cada professor ou escola.

Ainda assim, a imagem das páginas amarelas do Yoga tem a sua graça: pagamos para continuar a aparecer, enquanto tentamos explicar aos alunos a importância de nos libertarmos dos apegos.

Também não conheço os planos de negócio de todas as associações concorrentes. Mas suspeito que algumas conseguiriam suportar, com admirável equilíbrio interior, o incómodo de ter semelhante alcance.

Porque estão professores a criticar estas mudanças?

Nas discussões públicas consultadas, encontram-se críticas à comunicação, aos custos e à perda de distinção entre percursos de 200 e 500 horas. Esses comentários documentam descontentamento, mas não permitem medir uma contestação mundial nem representam todos os professores de Yoga.

O novo modelo inclui uma avaliação de competências profissionais. A filosofia do Yoga fica fora dessa avaliação comum: a entidade invoca a diversidade de tradições e atribui esse ensino às escolas. Está também prevista a separação entre credencial e adesão associativa após o período de transição.

Avaliar ética e segurança parece-me sensato. Já a ausência da filosofia merece discussão.

Compreendo a dificuldade de avaliar tradições diferentes através de um teste comum. Mas preocupa-me que se consolide uma identidade profissional centrada na gestão da aula, deixando menos visível a compreensão do Yoga que lhe deveria dar sentido.

Sabemos organizar a sessão. Sabemos promover a sessão. Sabemos fotografar a sessão.

Seria conveniente saber também o que estamos a ensinar.

O que se aprende numa formação de Yoga de 200 horas?

Aprendem-se bases, se a formação for séria. Pode ser um começo valioso. O problema surge quando esse começo é vendido como chegada final.

História, filosofia, anatomia, respiração, meditação, posturas, pedagogia e ética: colocar tudo em 200 horas exige escolhas. A profundidade não aparece só porque o manual tem uma flor de lótus na capa.

Com 500 horas há mais espaço para estudar. Também deveria haver mais oportunidades para descobrir quanto ainda não sabemos.

As horas medem duração. A competência exige aprendizagem, prática, avaliação e capacidade de reconhecer limites.

Entretanto, nas redes sociais, alguém aparece dobrado em quatro, sobre uma rocha, acompanhado da legenda «libertar-se do ego».

O fotógrafo, felizmente, ficou.

Não tenho uma estatística sobre a vaidade dos instrutores. Tenho apenas a impressão de que o ego se adapta muito bem ao vestuário de Yoga — e aprecia particularmente os certificados emoldurados.

As tradições do Yoga não apresentam todas a mesma conceção do eu ou da libertação. Mas observar o apego à nossa importância já nos daria bastante trabalho. Talvez mais do que escolher a próxima sigla.

Certificação indiana: olhar para o Yoga Certification Board

Neste debate, merece atenção o Yoga Certification Board, criado sob o Ministério AYUSH do Governo da Índia, com diferentes níveis e processos de avaliação de profissionais de Yoga.

A Embaixada da Índia em Lisboa também publica informação sobre este sistema, incluindo as categorias Yoga Protocol Instructor, Yoga Wellness Instructor e Yoga Teacher & Evaluator.

Estudar os programas e preparar os exames pode ser uma opção a considerar. A origem indiana do Yoga justifica atenção às suas tradições e instituições, embora não torne cada decisão governamental indiscutível. Um ministério não representa, sozinho, toda a diversidade do Yoga.

Depois de muita ponderação, encaro a minha certificação indiana com mais seriedade do que alguma vez encarei os diplomas e as siglas associados à Yoga Alliance, ainda presentes nas páginas deste centro de estudos de Yoga Online.

É uma posição pessoal. Não pretendo transformá-la numa classificação universal das certificações, nem sugerir que a nacionalidade de um documento garante a qualidade de quem o recebe.

Mas a minha relação com esses reconhecimentos mudou. Hoje, interessa-me mais o estudo que me exigem, as perguntas que me obrigam a enfrentar e os limites que me ajudam a reconhecer.

O logótipo tornou-se menos importante. O trabalho ganhou peso.

Quando a pergunta passa a ser: «Para quê?»

À medida que o conhecimento do Yoga se desenvolve ao longo dos anos, algumas certezas começam a perder o brilho. Crescem as perguntas sobre o que sabemos, sobre quem estabelece as regras e sobre o valor que atribuímos a determinados reconhecimentos.

E diminui a paciência para os egos insuflados — incluindo o nosso, que também precisa de vigilância e não fica automaticamente humilde por saber pronunciar namasté …

Até que surge uma pergunta muito simples:

Para quê?

Para quê acumular siglas se continuamos incapazes de escutar? Para quê falar de desapego enquanto defendemos o nosso estatuto como se estivesse em causa a ordem do universo? Para quê ensinar humildade com uma biografia que parece exigir uma vénia antes da leitura?

Reconheço o contributo da Yoga Alliance e considero legítimo discutir estas mudanças. Também considero importante estudar alternativas sem transformar nenhuma entidade numa autoridade infalível.

Mas, para mim, a questão já ultrapassa a escolha entre um selo americano e um certificado indiano.

Quando o reconhecimento passa a alimentar sobretudo a vaidade, a competição e a necessidade de parecermos superiores, precisamos de parar e perguntar:

Isto é Yoga?

Não.

Isso não é Yoga.

Vic

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