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Carl Jung e o Yoga: antes dos cakras chegarem ao Instagram

Quando se fala da divulgação do Yoga no Ocidente, surgem quase sempre os mesmos nomes: Vivekananda, Yogananda, Iyengar ou Pattabhi Jois. Carl Gustav Jung raramente aparece. O que é curioso, porque o psicólogo suíço estudou os Yoga Sūtra, falou sobre Kuṇḍalinī, analisou os cakras e ajudou a introduzir o pensamento indiano nos debates ocidentais sobre consciência e transformação interior. Mas é compreensível que muitos instrutores desconheçam esta história. Entre decorar sequências, escolher uma playlist espiritual e fotografar Vṛkṣāsana ao pôr do sol, nem sempre sobra tempo para estudar.

Jung nasceu em 1875 e tornou-se um dos psicólogos mais influentes do século XX. Foi ele quem desenvolveu conceitos como os arquétipos, o inconsciente coletivo, a sombra e a individuação. A sombra corresponde, de forma muito simplificada, às partes de nós próprios que preferimos não reconhecer. Por exemplo, publicar uma frase sobre compaixão universal e, cinco minutos depois, ficar furioso porque outra professora copiou a cor do nosso logótipo. Jung chamaria a isso material psicológico interessante.

O interesse de Jung pelo Yoga não surgiu num retiro de fim de semana nem num vídeo chamado “Ative os sete cakras em dez minutos”. Para ele, o Yoga era um sistema sério de observação da mente e transformação da consciência, não apenas uma sequência de posturas. Convém recordar que Jung afirmava isto numa época em que muitos europeus associavam o Yoga a faquires e contorcionistas. Hoje evoluímos bastante: associamo-lo sobretudo a leggings e tapetes da Adidas ou da Louis Vuitton.

Em 1932, Jung participou num seminário sobre o Yoga Kuṇḍalinī em Zurique e apresentou uma interpretação psicológica dos cakras. Via a subida de Kuṇḍalinī como uma representação simbólica do desenvolvimento da consciência. Não estava a ensinar técnicas para despertar energias adormecidas nem a certificar terapeutas de cakras num fim de semana. Utilizava o Yoga como um mapa da psique.

Jung também estudou os Yoga Sūtra e reconheceu que as tradições indianas tinham desenvolvido métodos sofisticados de observação da mente muito antes da psicologia moderna. Isto não significa que Patañjali fosse um psicoterapeuta indiano antes do tempo. Significa apenas que o estudo da consciência não começou com Freud, Jung ou o coaching motivacional.

Apesar da admiração que sentia pelo Yoga, Jung desconfiava da facilidade com que os ocidentais adotavam práticas indianas sem compreenderem os seus contextos culturais e religiosos. Considerava perigoso retirar uma técnica da Índia, transportá-la para a Europa e apresentá-la como receita universal de felicidade. Uma posição bastante sensata, embora pouco conveniente para quem pretende vender uma iniciação tântrica de 45 horas com certificado da Yoga Alliance.

Jung alertava ainda para o uso da espiritualidade como forma de evitar conflitos psicológicos. Atualmente, chamamos frequentemente a isso spiritual bypassing. É quando alguém diz: “Não estou a evitar a conversa, estou a proteger a minha energia”, ou “Não fui desagradável, apenas estabeleci limites vibracionais”. Jung teria encontrado muito material clínico nas redes sociais.

Jung não trouxe o Yoga para o Ocidente e não era especialista em sânscrito nem mestre de uma linhagem indiana. Interpretou muitos conceitos através da sua própria psicologia e, por isso, as suas ideias devem ser lidas com espírito crítico. No entanto, ajudou a tornar o Yoga intelectualmente respeitável em determinados meios europeus e influenciou profundamente a linguagem moderna do autoconhecimento, da sombra, da integração e da transformação interior.

Carl Jung não inventou os cakras, não despertava Kuṇḍalinī nos seus pacientes e não foi instrutor de Yoga. Mas percebeu que o Yoga era muito mais do que exercício físico e ajudou a divulgar essa ideia no Ocidente. Talvez por isso valha a pena conhecê-lo antes de anunciar que o cakra da garganta está bloqueado, que Mercúrio está retrógrado e que uma sessão de noventa euros resolverá o problema. Jung provavelmente sugeriria algo menos comercial: observar a própria sombra. É mais desconfortável, demora muito mais tempo e, para grande desilusão do mercado espiritual, não inclui cristais, incenso nem certificado da DGERT.

Vic

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