Instrutora de Yoga loira, vestida de preto, junto de um homem sentado num sofá, sob um quadro «Linhagem do Sofá», com uma passadeira e um carro ao fundo.

Yoga autêntico, corpo de sofá

Queremos a tradição indiana. O corpo é que foi educado pela cadeira.

Há quem vá de carro para o ginásio para andar na passadeira. Estaciona o mais perto possível, porque caminhar até à máquina de caminhar já seria um exagero.

Depois entra numa aula de Yoga e procura uma experiência autêntica, de preferência com linhagem indiana.

A caminhada pode ser artificial. O Yoga é que não.

O professor pede: “Sente-se confortavelmente no chão.”

E começam as negociações.

Os joelhos ficam no ar, as costas arredondam e o aluno procura discretamente uma parede. O corpo não percebe o pedido. Durante décadas, sentar-se significou encontrar uma cadeira. Agora, aparentemente, significa resolver um problema de geometria.

O corpo também tem uma educação

Quando falamos de um corpo ocidental e de um corpo asiático, o contraste mais interessante está na vida quotidiana. Não é uma questão de passaporte: há pessoas sedentárias na Índia e pessoas muito ativas no Ocidente.

Mas certos hábitos fazem diferença.

Nós temos uma sanita à altura de nos sentarmos. Em contextos onde se usa uma instalação sanitária de cócoras, é preciso baixar e voltar a subir.

Nós cozinhamos diante de uma bancada, de pé, ou sentados numa cadeira. Em algumas casas indianas, certas tarefas fazem-se perto do chão, sentados ou agachados.

Nós procuramos uma cadeira para descansar. Quem está habituado a sentar-se no chão muda de posição, dobra as pernas e, mais tarde, levanta-se.

Nós chamamos a isso mobilidade funcional e procuramos uma aula.

Para outras pessoas, é apenas terça-feira.

Não significa que todos os indianos façam tudo no chão, nem que todos os ocidentais sejam rígidos. Significa que um corpo pode praticar determinados movimentos durante anos sem nunca lhes chamar exercício.

O meu colchão não tinha certificado

Quando vivi na Índia, o meu colchão tinha cerca de dez centímetros de espessura. Por cá, temos colchões de quase trinta centímetros, com camadas, tecnologias e promessas de conforto suficientes para uma missão espacial.

A minha experiência não representa todas as casas indianas. Mas ajuda-me a pensar no contraste: fomos tornando o quotidiano cada vez mais confortável, mais elevado e menos exigente.

Não é preciso concluir que um colchão fino produz flexibilidade. O ponto é outro: entre a cama, a cadeira, a sanita, o automóvel e o sofá, criámos uma vida em que raramente precisamos de chegar ao chão.

Depois chegamos ao tapete e estranhamos que o chão pareça tão longe.

“Moderno” era suposto ser um elogio

O corpo moderno tem tudo à mão. O comando evita que nos levantemos. O elevador evita as escadas. O carro evita a caminhada. A cadeira evita o agachamento.

Uma organização impecável.

Só que, neste campo, “moderno” começa a soar menos a progresso e mais a um corpo a quem fomos retirando oportunidades de movimento.

O corpo tradicional não é automaticamente mais saudável, nem merece ser romantizado. Uma vida fisicamente exigente também pode trazer desgaste e dificuldades. Mas pode incluir movimentos que o nosso quotidiano trata como atividades especializadas.

Agachar-se? Aula.

Levantar-se do chão? Exercício.

Caminhar? Mensalidade.

Na minha família, ninguém nasceu num circo

Não venho de uma família de grandes ginastas ou desportistas. Pratiquei algum desporto, incluindo voleibol, mas nada que explique uma suposta herança familiar de contorcionismo.

A minha filha começou a praticar Yoga na escola indiana aos oito anos, em Vasai Nazareth Primary School. Hoje, aos vinte e seis, mantém uma elasticidade que me faz pensar no valor dessa familiaridade adquirida cedo.

É uma observação familiar, não uma experiência científica. Mas é curiosa.

Sobretudo porque, quando lhe peço que venha às aulas comigo, torce o nariz.

As pernas continuam disponíveis. A vontade é que precisa de um apoio.

E depois exigimos autenticidade

É este corpo, com a sua história de hábitos e movimentos, que chega à aula.

Mas, por vezes, o ensino preocupa-se mais em reproduzir a postura “tradicional” do que em perceber quem a vai fazer.

A linhagem pode ter valor. Não apaga vinte anos de cadeira.

Uma almofada não destrói a tradição. Um apoio não corta a ligação à Índia. E adaptar uma postura não exige uma reunião extraordinária dos mestres ancestrais.

Queremos um Yoga autêntico? Podemos começar por olhar honestamente para o corpo que temos.

Porque a linhagem do professor pode ser indiana.

A do aluno, muitas vezes, passa pela cadeira da escola, pelo banco do carro e termina num sofá com chaise longue.

Vic

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